O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou, na segunda-feira (19/10/2026), em Brasília, a abertura de Processo Administrativo Disciplinar (PAD) contra Daimler Alberto de Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti, para apurar sua eventual participação no esquema investigado pela Operação Sisamnes, que envolve suspeitas de vazamento e negociação de decisões judiciais. Daimler foi denunciado pela Procuradoria-Geral da República (PGR) por corrupção passiva e violação de sigilo funcional, mas não havia sido indiciado pela Polícia Federal (PF), que considerou insuficiente a corroboração de mensagens nas quais seu nome aparecia. A defesa nega envolvimento e sustenta que o nome do ex-chefe de gabinete foi utilizado indevidamente pelo lobista Andreson de Oliveira Gonçalves.
STJ abre processo disciplinar com prazo inicial de 60 dias
A abertura do PAD foi determinada durante a gestão do presidente do STJ, Luis Felipe Salomão, que assumiu o comando da Corte em 19 de agosto de 2026 para o biênio 2026-2028. O procedimento terá prazo inicial de 60 dias, com possibilidade de prorrogação. A legislação disciplinar aplicada ao serviço público federal prevê, no rito ordinário, prazo de 60 dias para conclusão, admitida prorrogação por igual período quando necessária.
Segundo a decisão que determinou a apuração administrativa, foram considerados existentes indícios suficientes para examinar, na esfera disciplinar, se Daimler teria utilizado prerrogativas do cargo no contexto dos fatos investigados. O servidor já estava afastado das funções por determinação do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), relator dos procedimentos relacionados à Operação Sisamnes.
A instauração do PAD não representa declaração de culpa. O procedimento administrativo tem finalidade própria: reunir provas, assegurar contraditório e ampla defesa e verificar eventual responsabilidade funcional. Paralelamente, a acusação criminal apresentada pela PGR tramita no STF e depende da análise judicial sobre o recebimento da denúncia para que os denunciados eventualmente passem à condição de réus.
PGR denunciou Daimler, mas PF não havia feito indiciamento
A diferença entre as conclusões da PF e da PGR é um dos aspectos centrais do caso. A Polícia Federal não havia indiciado Daimler porque, segundo informações publicadas após a investigação, as mensagens atribuídas ao lobista Andreson Gonçalves e que mencionavam o servidor não estavam suficientemente corroboradas por outros elementos probatórios.
A investigação policial chegou a verificar que um contato salvo no telefone do lobista com referência a Daimler correspondia, na realidade, a um advogado, circunstância utilizada pela defesa para sustentar que terceiros teriam recorrido ao nome do chefe de gabinete para simular influência dentro do tribunal. A apuração também examinou movimentações financeiras de servidores e ex-servidores ligados a gabinetes do STJ.
A PGR, entretanto, fez avaliação diferente do conjunto reunido e, em 27 de maio de 2026, denunciou nove pessoas ao STF. Entre elas estão Daimler, o ex-servidor Márcio José Toledo Pinto, o lobista Andreson Gonçalves e outros integrantes apontados como participantes de uma estrutura destinada, segundo a acusação, a obter vantagens financeiras em troca de interferência ou acesso privilegiado a procedimentos no STJ.
Defesa afirma que nome de servidor foi usado de forma indevida
O advogado Bernardo Fenelon, responsável pela defesa de Daimler, afirmou que a abertura do PAD decorre das investigações já existentes e não de fatos novos.
A defesa sustenta que inexistem provas de que o ex-chefe de gabinete tenha participado do esquema e afirma que “o nome de nosso cliente foi usado de forma espúria” em razão da posição ocupada no gabinete de Isabel Gallotti. Também afirma que Daimler não conhecia nem mantinha contato com Andreson Gonçalves.
A posição defensiva confronta diretamente a avaliação da PGR e deverá ser examinada tanto no processo disciplinar quanto na tramitação criminal. A existência dessa divergência exige separar três planos: as referências encontradas nas mensagens, a suficiência dessas referências para uma acusação formal e a comprovação das condutas em procedimentos sujeitos ao contraditório.
Operação Sisamnes nasceu de dados encontrados após assassinato de advogado
A origem da investigação remonta ao assassinato do advogado Roberto Zampieri, morto a tiros em 5 de dezembro de 2023, em frente ao seu escritório no bairro Bosque da Saúde, em Cuiabá (MT). Dados posteriormente extraídos de seu telefone revelaram diálogos que levaram investigadores a apurar suspeitas de negociação de decisões e tráfico de influência envolvendo tribunais.
Em 26 de novembro de 2024, a Polícia Federal deflagrou a Operação Sisamnes. Entre os alvos estavam magistrados do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, advogados, intermediários e pessoas citadas em diálogos relacionados ao STJ. Andreson Gonçalves foi preso naquela fase da operação.
A partir do material apreendido, as investigações se ampliaram. O STF registrou oficialmente, em fases posteriores da operação, que a apuração buscava esclarecer possível envolvimento de servidores do STJ em vazamento de informações sigilosas e favorecimento de partes em processos. Em maio de 2025, Cristiano Zanin autorizou novas buscas, apreensões e quebras de sigilo solicitadas pela PF e apoiadas pela PGR.
Denúncia descreve acesso antecipado a minutas e vantagens financeiras
De acordo com a acusação da PGR, o grupo teria atuado mediante pagamentos e obtenção de vantagens financeiras para conseguir interferências em processos, informações internas ou acesso antecipado a minutas de decisões ainda não publicadas.
A denúncia apresentada em maio de 2026 atribuiu aos investigados, conforme a situação individual, crimes relacionados a corrupção, violação de sigilo, lavagem de capitais e organização criminosa. O documento não acusou ministros do STJ de participação no núcleo denunciado.
Em manifestação citada quando a acusação foi apresentada, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, sustentou que as condutas atribuídas a agentes públicos teriam comprometido a regularidade de pronunciamentos judiciais vinculados aos gabinetes das ministras Isabel Gallotti e Nancy Andrighi. A Polícia Federal, entretanto, já havia descartado a participação das duas ministras no esquema sob investigação.
Márcio Toledo foi demitido e outro PAD terminou arquivado
Daimler é o terceiro servidor do STJ submetido a PAD em decorrência de elementos surgidos na Operação Sisamnes. Um dos procedimentos atingiu Márcio José Toledo Pinto, que trabalhou em gabinetes de ministros da Corte e foi investigado por vazamentos de informações processuais.
Márcio foi demitido em 5 de setembro de 2025, após processo administrativo que concluiu pela ocorrência de vazamentos relacionados a processos em andamento. A investigação da PF também identificou transferências milionárias entre uma empresa ligada a Andreson Gonçalves e uma empresa registrada em nome da mulher de Márcio.
Outro PAD envolveu a servidora Waleska Bertolini Vieira Mussalem, que trabalhava no gabinete do ministro Moura Ribeiro. O procedimento foi posteriormente arquivado, porque a apuração administrativa não encontrou indícios suficientes de irregularidade em sua conduta.
STJ ainda avalia eventual apuração sobre outro ex-chefe de gabinete
A decisão que abriu o processo contra Daimler também registrou que a Presidência do STJ aguardava informações atualizadas da Polícia Federal para avaliar se existem elementos suficientes para uma investigação administrativa contra Rodrigo Falcão de Oliveira Andrade, ex-chefe de gabinete do ministro Og Fernandes.
Registros oficiais do próprio STJ confirmam que Rodrigo ocupou a chefia do gabinete de Og Fernandes por longo período. Ele deixou a função depois do início das apurações relacionadas ao caso.
O cenário demonstra que os procedimentos administrativos derivados da Sisamnes tiveram resultados distintos: houve demissão no caso de Márcio Toledo, arquivamento no procedimento contra Waleska e, agora, abertura de processo contra Daimler, enquanto a situação de Rodrigo ainda dependia de novos elementos enviados pelos investigadores.
Investigações alcançaram ministros, mas situações processuais são diferentes
Os desdobramentos da Operação Sisamnes também levaram à abertura de apurações específicas envolvendo integrantes do STJ, sem que isso implique conclusão sobre responsabilidade.
Cristiano Zanin autorizou a Polícia Federal a investigar os ministros Moura Ribeiro e Marco Buzzi em procedimentos relacionados aos desdobramentos da operação. No caso de Buzzi, a autorização foi divulgada em 24 de julho de 2026. As investigações buscavam esclarecer referências encontradas em materiais obtidos pela PF.
A situação do ministro Og Fernandes teve resultado diferente. Em 31 de julho de 2026, Zanin determinou o arquivamento do inquérito que o envolvia, acolhendo manifestação da PGR segundo a qual não havia elementos suficientes para prosseguir com a investigação criminal.
Denúncia criminal ainda depende de decisão do STF
Quando a PGR apresentou a denúncia contra os nove investigados, em maio de 2026, Zanin abriu prazo de 15 dias para as manifestações preliminares das defesas e manteve medidas cautelares existentes. Após essa etapa, cabe à Primeira Turma do STF decidir se recebe ou rejeita a acusação. Somente com o recebimento os denunciados passam formalmente à condição de réus em ação penal.
Os registros públicos do STF consultados mostram que Daimler apresentou representação por advogados e recebeu prazo para resposta escrita. O processo teve movimentações relacionadas a comunicações processuais e acesso das defesas ao material investigativo ao longo de 2026.
Parte relevante das investigações permanece sob sigilo, circunstância que limita a avaliação pública do conjunto integral das provas. Por isso, referências em mensagens, relatórios policiais, denúncias ministeriais, indiciamentos e decisões judiciais devem ser tratadas conforme sua natureza processual, sem equivaler suspeita ou acusação a responsabilidade definitivamente comprovada.
Linha do tempo dos principais acontecimentos
- 05/12/2023 — Assassinato de Roberto Zampieri: o advogado é morto a tiros em Cuiabá. A análise posterior de dados de seu telefone dá origem a linhas investigativas sobre negociação de decisões judiciais.
- 26/11/2024 — Operação Sisamnes: a PF deflagra a operação para investigar corrupção, exploração de prestígio, violação de sigilo funcional e suposta venda de decisões; Andreson Gonçalves é preso.
- 18/03/2025 — Nova fase autorizada pelo STF: Cristiano Zanin determina cautelares contra investigados em apurações sobre vazamentos e venda de decisões no STJ.
- 13/05/2025 — STF autoriza novas diligências: buscas, apreensões e medidas de obtenção de provas são determinadas a pedido da PF e com aval da PGR.
- 05/09/2025 — Márcio Toledo é demitido: processo disciplinar do STJ conclui pela responsabilidade administrativa do servidor por vazamentos de informações processuais.
- 27/05/2026 — PGR apresenta denúncia: Paulo Gonet denuncia nove pessoas, entre elas Andreson Gonçalves, Márcio Toledo e Daimler Alberto de Campos.
- 28/05/2026 — STF abre prazo para defesas: Zanin concede 15 dias para manifestações prévias antes da análise do recebimento da denúncia pela Primeira Turma.
- 24/07/2026 — Investigação sobre Marco Buzzi é autorizada: Zanin permite que a PF aprofunde apuração envolvendo o ministro do STJ.
- 31/07/2026 — Inquérito sobre Og Fernandes é arquivado: o STF acolhe manifestação da PGR pela inexistência de elementos suficientes para prosseguir.
- 19/08/2026 — Luis Felipe Salomão assume a Presidência do STJ: o ministro inicia mandato no comando da Corte para o biênio 2026-2028.
- 19/10/2026 — STJ abre PAD contra Daimler: a Presidência determina investigação disciplinar com prazo inicial de 60 dias. A defesa reafirma inocência e nega qualquer relação com o suposto esquema.
A abertura do PAD contra Daimler Alberto de Campos amplia a dimensão institucional da Operação Sisamnes porque transfere para o próprio STJ a responsabilidade de examinar, sob contraditório, fatos que anteriormente estavam concentrados nas investigações policiais e criminais. O resultado do processo será particularmente relevante diante da divergência entre a conclusão da PF, que não havia indiciado Daimler, e a decisão posterior da PGR de incluí-lo entre os denunciados.
Essa diferença deve ser observada sem simplificações. O indiciamento policial, a denúncia do Ministério Público, o recebimento judicial da acusação e a responsabilização administrativa correspondem a etapas e juízos distintos. A ausência de indiciamento não equivale a absolvição, assim como a denúncia da PGR não constitui prova definitiva de culpa. A decisão sobre eventual responsabilidade exige exame do conjunto probatório e exercício integral da defesa.
Há, ao mesmo tempo, elementos já definidos institucionalmente. Márcio Toledo foi demitido administrativamente, o procedimento contra Waleska Mussalem foi arquivado e o inquérito relativo a Og Fernandes também terminou arquivado por insuficiência de elementos. Outras linhas de investigação, entre elas as relacionadas a Moura Ribeiro e Marco Buzzi, tiveram tramitação própria. Essas diferenças impedem tratar todos os citados como integrantes de uma mesma situação jurídica.
O núcleo de interesse público está na integridade dos procedimentos internos de uma das principais Cortes do país. Se comprovado o acesso ilícito a minutas ou informações processuais antes da publicação, o episódio afeta a igualdade entre as partes, o sigilo funcional e a confiança na formação das decisões judiciais. Os próximos marcos serão a instrução e o julgamento do PAD no STJ, a definição da Primeira Turma do STF sobre a denúncia apresentada pela PGR e os resultados das diligências ainda conduzidas pela Polícia Federal, sempre com preservação da presunção de inocência e distinção entre fatos comprovados, acusações e questões ainda sob apuração.








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