Feira de Santana, domingo (25/10/2026) — O resultado das Eleições 2026 impôs ao deputado federal José Cerqueira de Santana Neto, Zé Neto (PT) uma mudança imediata de cenário político. Depois de dois mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, o parlamentar recebeu 104.550 votos na Bahia, não conquistou uma das cadeiras destinadas à Federação Brasil da Esperança e terminou a eleição como primeiro suplente. Em Feira de Santana, entretanto, preservou uma posição eleitoral significativamente mais forte: recebeu 59.127 votos, ficou em primeiro lugar entre os candidatos à Câmara Federal no município e concentrou na cidade mais da metade de toda a votação obtida no estado.
A resposta política ocorreu praticamente sem intervalo. No dia seguinte ao primeiro turno, Zé Neto declarou publicamente que sua prioridade passaria a ser a eleição presidencial e afirmou que o primeiro objetivo de sua atuação naquele momento seria trabalhar pela reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contra Flávio Bolsonaro (PL). A decisão transferiu a energia remanescente de sua campanha proporcional para a disputa nacional e manteve sua estrutura política mobilizada durante as três semanas seguintes.
O movimento não eliminou as incertezas sobre o futuro individual do parlamentar, mas alterou a dinâmica imediata. Em vez de concentrar o período posterior à eleição na discussão sobre cargos, eventual retorno à Câmara ou Eleições Municipais de 2028, Zé Neto passou a aparecer em plenárias, reuniões e caminhadas direcionadas à campanha presidencial.
A sequência permite identificar um processo de reaglutinação da base política em torno de um objetivo comum, embora não seja possível atribuir essa mobilização exclusivamente ao deputado, uma vez que PT, partidos aliados, sindicatos, movimentos sociais, parlamentares e dirigentes municipais participaram da organização.
Resultado de 2026 revela perda estadual, mas resistência da base feirense
A comparação com 2022 revela duas tendências diferentes. Na eleição anterior, Zé Neto havia recebido 128.439 votos na Bahia e conquistado a reeleição para a Câmara. Em 2026, caiu para 104.550 votos, redução de 23.889 votos, equivalente a aproximadamente 18,6%.
Em Feira de Santana, a retração foi bem menor. O parlamentar passou de 62.915 votos em 2022 para 59.127 em 2026, perda de 3.788 votos, ou aproximadamente 6%. Apesar da redução, permaneceu como o candidato a deputado federal mais votado pelos feirenses. O segundo colocado, Zé Chico (União Brasil), alcançou 34.182 votos.
Há ainda uma alteração importante na geografia eleitoral do parlamentar. Em 2022, Feira representava aproximadamente 49% de todos os votos recebidos por Zé Neto no estado. Em 2026, essa participação subiu para cerca de 56,6%. O dado não significa expansão da votação local — que, na realidade, diminuiu —, mas demonstra que Feira de Santana passou a ter peso proporcional ainda maior dentro do eleitorado do deputado, porque sua redução de votos foi mais acentuada nas demais regiões da Bahia.
Suplência aumenta importância política de Feira de Santana
Esse resultado produz uma consequência objetiva para a atuação futura de Zé Neto: independentemente dos caminhos que venha a seguir depois do término da atual legislatura, sua principal reserva eleitoral continua concentrada em Feira de Santana e nos municípios próximos.
A Câmara dos Deputados mantém Zé Neto como titular em exercício na legislatura 2023–2027. O resultado das urnas de 2026 interfere na composição da legislatura seguinte, mas não interrompe antecipadamente seu mandato atual.
Politicamente, porém, o primeiro lugar em Feira e a suplência estadual produzem uma situação singular. O parlamentar demonstrou capacidade de preservar um eleitorado municipal expressivo, mas não conseguiu reproduzir em escala estadual o desempenho necessário para assegurar diretamente a renovação do mandato.
Feira concentra mais da metade dos votos de Zé Neto
A concentração de 56,6% da votação estadual em apenas um município torna Feira ainda mais decisiva para qualquer projeto político futuro de Zé Neto.
Esse dado ajuda a explicar por que o parlamentar não se afastou da atividade eleitoral após 4 de outubro. Ao contrário, a campanha presidencial proporcionou um espaço imediato para manter contato com militantes, dirigentes partidários, movimentos sociais e eleitores que haviam participado de sua própria candidatura.
Do ponto de vista político, a continuidade da mobilização produz um efeito concreto: impede a dispersão imediata da base eleitoral depois de uma eleição proporcional adversa e preserva a presença pública de uma liderança que permanece competitiva em Feira de Santana.
Plenária da CDL marca início da reorganização no segundo turno
Um dos primeiros movimentos estruturados ocorreu em 8 de outubro, quatro dias depois do primeiro turno. Partidos aliados, sindicalistas, movimentos sociais, representantes culturais e apoiadores de Lula reuniram-se no auditório da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) para organizar a campanha presidencial em Feira.
Participaram da plenária Zé Neto, o deputado estadual Angelo Almeida (PT), o dirigente sindical Deyvid Bacelar, o presidente municipal do PT, Adriano Costa, além de representantes de outras organizações. Segundo Adriano Costa, mais de 500 pessoas participaram — número apresentado pela organização, sem aferição independente.
A reunião definiu três eixos principais: conquistar eleitores que haviam votado em outras candidaturas, reduzir a abstenção e ampliar a votação de Lula no município. Zé Neto colocou a redução das ausências eleitorais entre as prioridades e defendeu ações relacionadas ao transporte coletivo, carona solidária e diálogo institucional para facilitar o comparecimento às urnas.
Abstenção torna-se alvo da campanha
No primeiro turno presidencial, Feira de Santana registrou 74.984 abstenções, equivalentes a 17,21% do eleitorado apto naquele recorte da totalização. Houve ainda 7.027 votos brancos e 13.589 votos nulos para presidente. Lula recebeu 194.272 votos, ou 57,13% dos válidos, enquanto Flávio Bolsonaro obteve 121.727, ou 35,80%.
A diferença de 72.545 votos entre os dois candidatos transformou Feira em um território relevante para a estratégia petista na Bahia. O desafio do segundo turno, para o grupo governista, era simultaneamente conservar a vantagem existente, buscar eleitores de candidaturas eliminadas e tentar reduzir as ausências.
Nesse contexto, a campanha de Lula passou a funcionar como um ponto de convergência para diferentes componentes do campo político que haviam disputado vagas proporcionais no primeiro turno.
Campanha deixa auditórios e avança para bairros e ruas
A estratégia anunciada na plenária não ficou restrita a reuniões partidárias. As lideranças defenderam atuação em bairros, feiras livres, praças, semáforos, redes sociais e ruas, ampliando o contato presencial com eleitores.
Na reta final, Zé Neto intensificou sua presença em atividades de rua. A campanha também passou a combinar a atuação do deputado com a de outras lideranças petistas e de partidos aliados, numa configuração menos concentrada em uma candidatura proporcional individual e mais orientada para a disputa presidencial.
A mudança é politicamente relevante porque a estrutura construída durante uma campanha para deputado federal — apoiadores, cabos eleitorais, comunicação digital, lideranças comunitárias e contatos municipais — normalmente perde intensidade depois da votação. No caso de Zé Neto, o segundo turno ofereceu uma continuidade imediata para parte dessa rede.
Arrastão da Virada encerra sequência de mobilizações
A principal manifestação dessa estratégia ocorreu na manhã de sábado (24/10), quando apoiadores de Lula participaram do “Arrastão da Virada”, com concentração na região da Praça da Matriz e caminhada pelo Centro de Feira de Santana.
Zé Neto participou do ato ao lado de Angelo Almeida e de dirigentes partidários. A cobertura local registrou presença de militantes, estudantes, movimentos sociais e apoiadores. O Acorda Cidade informou participação de centenas de pessoas; outras fontes utilizaram descrições mais amplas, razão pela qual não há base independente para estabelecer uma contagem precisa de público.
Durante a manifestação, Zé Neto relacionou a campanha presidencial também a investimentos federais em Feira e citou, entre outros pontos, o Anel de Contorno, o Minha Casa, Minha Vida e grandes obras.
Rua, rede e convencimento
Zé Neto classificou o Arrastão da Virada como a maior caminhada da campanha em Feira de Santana e resumiu a mobilização em quatro frentes: convencimento, redes sociais, presença nas ruas e busca por novos votos. A avaliação sobre o tamanho do ato é uma declaração do parlamentar, não uma aferição independente.
A atividade fechou um ciclo iniciado logo depois da apuração de 4 de outubro. O que começou como uma declaração de prioridade política após a suplência evoluiu para uma sequência de reuniões, planejamento eleitoral e manifestações públicas.
A sucessão dos eventos permite afirmar que Zé Neto assumiu posição de destaque — embora não exclusiva — na mobilização pró-Lula em Feira durante o segundo turno.
Campanha de Lula também preserva capital político de Zé Neto
Sob uma perspectiva analítica, o engajamento no segundo turno apresenta pelo menos três efeitos políticos para Zé Neto.
O primeiro é a preservação da mobilização de sua própria base. Em lugar de permitir que o encerramento da candidatura proporcional produzisse desmobilização imediata, o deputado direcionou parte dessa estrutura para uma eleição que ainda estava em curso.
O segundo é a manutenção de protagonismo no campo governista municipal. Apesar de não ter garantido a próxima legislatura, Zé Neto terminou a disputa proporcional como o deputado federal mais votado de Feira. Permanecer na linha de frente da campanha presidencial mantém essa posição politicamente visível.
O terceiro efeito está relacionado à própria geografia de seus votos. Como Feira passou a representar mais da metade de sua votação estadual, fortalecer a organização local tornou-se ainda mais relevante para qualquer etapa futura de sua trajetória.
Resultado expõe desafio de reconstrução estadual
Ao mesmo tempo, os números revelam uma fragilidade que não pode ser ignorada. Entre 2022 e 2026, Zé Neto perdeu aproximadamente 18,6% de sua votação estadual, enquanto a redução em Feira ficou em torno de 6%.
Isso significa que o principal desafio político do parlamentar não está apenas em preservar Feira, mas em recuperar a presença eleitoral fora de sua principal base.
Em 2026, depois de Feira, suas maiores votações vieram de Salvador, com 5.193 votos; São Gonçalo dos Campos, com 2.703; Cruz das Almas, com 2.611; e Retirolândia, com 2.161. Feira, sozinha, respondeu por 59.127 dos 104.550 votos obtidos no estado.
Peso histórico em Feira permanece
Zé Neto possui uma trajetória política profundamente vinculada ao município. Foi vereador de Feira de Santana antes de conquistar sucessivos mandatos de deputado estadual e, posteriormente, chegar à Câmara dos Deputados em 2019. Também disputou repetidamente a Prefeitura de Feira.
Nas eleições municipais de 2024, recebeu 154.147 votos na disputa pela Prefeitura, terminando em segundo lugar. Dois anos depois, mesmo sem conseguir renovar o mandato federal, voltou a ocupar a primeira posição na votação municipal para deputado federal.
Esses resultados indicam permanência de uma base eleitoral numericamente relevante, embora insuficiente, isoladamente, para assegurar vitórias em disputas majoritárias municipais ou uma cadeira federal quando considerados os mecanismos de distribuição de vagas entre partidos e federações.
O que estará em jogo depois do segundo turno
O encerramento da eleição presidencial abre uma nova etapa. Zé Neto ainda exerce mandato na Câmara dos Deputados durante a atual legislatura e permanece como suplente da Federação Brasil da Esperança para a composição seguinte. Seu futuro dependerá tanto de decisões individuais quanto da configuração política da federação e dos governos federal e estadual.
O parlamentar evitou definir imediatamente se pretende disputar novamente a Prefeitura de Feira em 2028 ou assumir outra função pública. Depois do primeiro turno, declarou que qualquer decisão seria tomada posteriormente e que naquele momento sua prioridade era a campanha de Lula.
Por isso, interpretar as mobilizações de outubro exclusivamente como lançamento antecipado de uma futura candidatura iria além dos fatos disponíveis. O que pode ser demonstrado é que, depois de ficar na suplência, Zé Neto não se retirou do cenário político local: transferiu sua estrutura para o segundo turno, participou da organização da campanha governista, esteve nas ruas e manteve Feira de Santana como centro de sua atuação.
Reorganização ocorre dentro de uma estrutura coletiva
Também seria incorreto atribuir a campanha local exclusivamente ao deputado federal. O presidente municipal do PT, Adriano Costa, exerceu papel direto na organização das atividades; Angelo Almeida, Deyvid Bacelar, vereadores, integrantes da Federação Brasil da Esperança, sindicatos e movimentos sociais também participaram das ações.
A particularidade de Zé Neto decorre de sua combinação de fatores: é deputado federal em exercício, liderou a votação proporcional em Feira, ficou na primeira suplência de sua federação e, logo após conhecer o resultado, anunciou publicamente que faria da disputa presidencial sua prioridade.
Nesse sentido, a campanha de Lula cumpriu uma dupla função política em Feira de Santana: mobilizou o campo governista para o segundo turno presidencial e, simultaneamente, manteve articulada uma estrutura local que precisará redefinir seus caminhos depois das eleições de 2026.
Dados das Eleições 2026
104.550 votos — Zé Neto na Bahia em 2026
59.127 votos — votação de Zé Neto em Feira de Santana
56,6% — parcela de toda a votação estadual de Zé Neto concentrada em Feira
1º lugar — posição de Zé Neto entre os candidatos a deputado federal votados em Feira
−18,6% — redução da votação estadual em relação a 2022
−6,0% — redução da votação em Feira de Santana em relação a 2022
194.272 votos — 57,13% — Lula em Feira no primeiro turno
121.727 votos — 35,80% — Flávio Bolsonaro em Feira no primeiro turno
74.984 eleitores — abstenção presidencial no município no primeiro turno
Linha do tempo da reorganização
- 04/10/2026 — Zé Neto recebe 104.550 votos na Bahia e 59.127 em Feira de Santana; fica na primeira suplência da Federação Brasil da Esperança.
- 05/10/2026 — Parlamentar reconhece o resultado e anuncia que a prioridade passa a ser a campanha de Lula no segundo turno.
- 08/10/2026 — Plenária na CDL reúne Zé Neto, Angelo Almeida, Deyvid Bacelar, Adriano Costa, movimentos sociais, partidos aliados e apoiadores; redução da abstenção e conquista de novos votos entram no centro da estratégia.
- 20/10/2026 — PT municipal divulga o Arrastão da Virada, convocado para o último sábado antes da votação.
- 24/10/2026 — Zé Neto participa do Arrastão da Virada no Centro de Feira, encerrando a campanha de rua pró-Lula no município.
- 25/10/2026 — Eleitores retornam às urnas para o segundo turno da eleição presidencial.








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