A Bahia chega ao segundo turno das Eleições 2026 como um dos territórios mais importantes para a tentativa de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). No primeiro turno, Lula recebeu 5.664.771 votos, equivalentes a 66,17% dos válidos no estado, contra 2.442.585 votos, ou 28,53%, de Flávio Bolsonaro (PL). A vantagem baiana de 3.222.186 votos foi superior, isoladamente, à diferença nacional de 2,227 milhões de votos que separou Flávio, primeiro colocado, de Lula.
Esse peso eleitoral ganhou expressão visual em Salvador. Em 29/09/2026, ainda antes do primeiro turno, Lula percorreu com Jerônimo Rodrigues, Jaques Wagner e Rui Costa o circuito Ondina–Barra; a organização estimou cerca de 200 mil participantes.
Em 18/10/2026, já no segundo turno, a cantora Daniela Mercury idealizou no mesmo eixo urbano o Ato pela Democracia, acompanhado por artistas, blocos afro, movimentos sociais e apoiadores de Lula. O jornal A Tarde estimou aproximadamente 500 mil participantes.
A conexão entre essas mobilizações e a sucessão de vitórias petistas na Bahia ajuda a explicar um fenômeno político construído ao longo de mais de duas décadas. Mas a análise dos resultados de 2026 revela algo ainda mais significativo: o voto em Lula ultrapassa as fronteiras eleitorais do próprio PT. Salvador, por exemplo, deu ampla vantagem presidencial a Lula ao mesmo tempo em que concedeu maioria ao oposicionista ACM Neto na disputa pelo Governo da Bahia. O chamado “lulismo baiano”, portanto, não pode ser explicado apenas pela estrutura partidária estadual.
Da Avenida Oceânica ao Farol da Barra: dois atos, dois momentos da eleição
A fotografia política que abre esta análise está na orla atlântica de Salvador. Entre o Clube Espanhol, em Ondina, e o Farol da Barra, um dos circuitos mais conhecidos do Carnaval brasileiro foi transformado duas vezes, em menos de três semanas, em território de mobilização eleitoral e política.
A primeira manifestação ocorreu em 29 de setembro. Lula chegou a Salvador acompanhado do governador Jerônimo Rodrigues, então candidato à reeleição; dos candidatos ao Senado Jaques Wagner e Rui Costa; da primeira-dama Janja da Silva; do senador Otto Alencar e de outras lideranças. O ato havia sido inicialmente programado para Feira de Santana, mas foi transferido pela campanha para Salvador cinco dias antes do primeiro turno. Fotografias aéreas mostraram a ocupação de extensos trechos entre Ondina e Barra. A organização estimou público próximo de 200 mil pessoas.
A caminhada aconteceu na reta final do Primeiro Turno das Eleições 2026. Seu significado para a segunda etapa da eleição decorre do fato de ter antecipado a capacidade de mobilização que seria novamente acionada após 4 de outubro.
Dezenove dias depois, em 18/10, a mesma geografia urbana recebeu outra multidão. Desta vez Lula não era o protagonista presencial. O ato foi idealizado por Daniela Mercury e reuniu nomes como Gilberto Gil, BaianaSystem, Liniker, Zélia Duncan, Armandinho Macêdo, Rachel Reis, O Kannalha, Majur e Márcia Castro, além de representantes do Ilê Aiyê, Filhos de Gandhy, Banda Didá e Cortejo Afro. A concentração começou nas imediações do Clube Espanhol e seguiu pela Avenida Oceânica até o Farol da Barra.
O encontro combinou defesa da democracia, direitos sociais e manifestação eleitoral pela reeleição de Lula. Daniela resumiu uma das linhas discursivas ao afirmar: “Direitos não são privilégios”. Era uma mobilização cultural, mas seu conteúdo era inequivocamente político.
A diferença entre os dois acontecimentos é relevante. Em setembro, o centro da cena era o candidato-presidente e sua estrutura partidária. Em outubro, a mobilização partia fundamentalmente do campo cultural e da sociedade civil organizada. Juntos, os episódios permitem compreender por que Salvador se transformou em uma das vitrines nacionais da campanha de Lula.
A matemática eleitoral que torna a Bahia indispensável para Lula
No primeiro turno nacional, realizado em 04/10/2026, Flávio Bolsonaro recebeu 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos, enquanto Lula obteve 53.876.617, ou 45,16%. A diferença foi de 2.227.651 votos. O segundo turno ocorre em 25/10.
Na Bahia, a situação foi praticamente inversa. Lula abriu sobre Flávio uma vantagem de 3.222.186 votos. Em termos meramente aritméticos, a margem produzida pela Bahia foi maior que todo o déficit nacional do presidente em relação ao adversário no primeiro turno. Isso não significa que um estado possa ser isolado do resultado nacional, mas demonstra com rara nitidez o peso estratégico do eleitorado baiano.
A força eleitoral não começou em 2026. A transformação ocorreu no início deste século.
Desempenho do PT nas eleições presidenciais na Bahia
- 2002 – 2º turno
- Candidato do PT: Lula
- Votos na Bahia: 3.710.900
- Principal adversário: José Serra
- Votos do adversário: 1.937.780
- 2006 – 2º turno
- Candidato do PT: Lula
- Votos na Bahia: 5.188.314
- Principal adversário: Geraldo Alckmin
- Votos do adversário: 1.456.417
- 2010 – 2º turno
- Candidata do PT: Dilma Rousseff
- Votos na Bahia: 4.737.079
- Principal adversário: José Serra
- Votos do adversário: 1.948.584
- 2014 – 2º turno
- Candidata do PT: Dilma Rousseff
- Votos na Bahia: 5.059.228
- Principal adversário: Aécio Neves
- Votos do adversário: 2.151.922
- 2018 – 2º turno
- Candidato do PT: Fernando Haddad
- Votos na Bahia: 5.484.901
- Principal adversário: Jair Bolsonaro
- Votos do adversário: 2.060.382
- 2022 – 2º turno
- Candidato do PT: Lula
- Votos na Bahia: 6.097.815
- Principal adversário: Jair Bolsonaro
- Votos do adversário: 2.357.028
- 2026 – 1º turno
- Candidato do PT: Lula
- Votos na Bahia: 5.664.771
- Principal adversário: Flávio Bolsonaro
- Votos do adversário: 2.442.585
A série demonstra uma mudança histórica. Entre 1989 e 1998, Lula perdeu todas as eleições presidenciais na Bahia: para Fernando Collor, em 1989, e para Fernando Henrique Cardoso, em 1994 e 1998. Desde 2002, porém, o candidato presidencial do PT vence sistematicamente no estado, inclusive quando perde nacionalmente, como aconteceu com Fernando Haddad em 2018.
É essa continuidade, superior a duas décadas, que autoriza falar em um território particularmente importante para o lulismo.
Lula é maior eleitoralmente que o próprio PT na Bahia
Há, entretanto, uma conclusão que os números de 2026 tornam impossível ignorar: a força de Lula na Bahia não é simplesmente uma reprodução do voto petista estadual.
Em Salvador, por exemplo, Lula recebeu 65,26% dos votos válidos para presidente no primeiro turno, enquanto Jerônimo Rodrigues obteve 44,51% na disputa estadual. ACM Neto, principal adversário do governador, chegou a 54,32% na capital. Fenômeno semelhante ocorreu em Feira de Santana e em municípios da Região Metropolitana.
Esse voto cruzado é politicamente revelador.
Há eleitores que escolhem Lula para o Planalto e, simultaneamente, candidatos de centro ou de oposição ao Governo da Bahia. Isso significa que a relação construída pelo presidente com parcelas do eleitorado baiano adquiriu autonomia em relação à legenda.
O lulismo baiano é, nesse sentido, simultaneamente partidário e suprapartidário: apoia-se na organização petista e nos governos estaduais, mas ultrapassa suas fronteiras.
Jerônimo, Wagner e Rui formam o eixo estadual da aliança petista
O PT saiu do primeiro turno de 2026 com demonstração adicional de força institucional. Jerônimo Rodrigues foi reeleito governador no primeiro turno, com 4.626.265 votos, ou 55,80% dos válidos.
Na disputa pelo Senado, Rui Costa foi eleito com 4.335.196 votos, 30,1%, enquanto Jaques Wagner foi reeleito com 3.986.690 votos, 27,6%.
A composição é politicamente incomum pela continuidade. Wagner rompeu, em 2006, uma longa hegemonia do grupo político associado ao carlismo. Rui Costa sucedeu Wagner em 2015 e permaneceu oito anos no governo. Jerônimo assumiu em 2023 e garantiu novo mandato em 2026.
Lula funciona como o centro nacional dessa arquitetura. Wagner representa sua construção histórica e capacidade de articulação; Rui acumulou experiência administrativa estadual e federal; Jerônimo assumiu a continuidade territorial, principalmente no interior.
Não se trata, porém, de domínio absoluto. A oposição permanece competitiva em Salvador, Feira de Santana e outras áreas economicamente importantes, e o voto cruzado prova que o eleitor baiano distingue níveis de governo e candidatos.
Da chegada portuguesa à formação de uma sociedade marcada por desigualdade e resistência
A compreensão da Bahia contemporânea exige regressar muito antes da formação dos partidos atuais.
Em 1500, a expedição portuguesa comandada por Pedro Álvares Cabral alcançou o litoral do atual território baiano. Em 1549, a Coroa fundou Salvador, transformando a cidade na primeira capital da América portuguesa. A condição permaneceu até 1763, quando o centro político colonial foi transferido para o Rio de Janeiro.
A Bahia colonial foi estruturada pela produção açucareira, pelo grande latifúndio, pelo tráfico atlântico e pela exploração de africanos escravizados. Salvador tornou-se simultaneamente centro administrativo, porto comercial e um dos principais pontos de entrada da população africana submetida à escravidão.
Essa sociedade produziu hierarquias extremamente duradouras, mas também movimentos de resistência.
A Conjuração Baiana de 1798, a resistência indígena, as insurreições negras e, posteriormente, a guerra pela Independência da Bahia integram essa tradição de conflito social. A expulsão definitiva das tropas portuguesas em 2 de julho de 1823 resultou de uma campanha militar e popular que teve participação decisiva de setores pobres, negros, mestiços, indígenas e mulheres.
Seria equivocado estabelecer uma linha reta entre 1823 e o voto em Lula em 2026. Eleições contemporâneas não são determinadas mecanicamente por acontecimentos de dois séculos atrás.
O que a história permite compreender é outra coisa: a Bahia foi formada sob profundas desigualdades raciais, econômicas e territoriais, e também desenvolveu uma longa tradição de organização comunitária, cultural, religiosa, sindical e política. É nesse terreno social — e não em algum suposto destino ideológico — que o lulismo encontrou espaço para crescer.
Do sindicalismo ao PT: Lula como representação do trabalhador
A trajetória de Lula começou longe das estruturas tradicionais do poder.
O movimento sindical que emergiu no ABC paulista durante a crise da ditadura militar criou uma nova geração de dirigentes trabalhistas. Deste ambiente nasceu parte da coalizão que fundaria o Partido dos Trabalhadores, em 1980, reunindo sindicalistas, movimentos populares, militantes de esquerda, intelectuais, setores religiosos progressistas e organizações sociais. Lula esteve entre seus principais fundadores e presidiu o partido durante seus primeiros anos.
A mudança histórica ocorreu quando um trabalhador metalúrgico, sem origem nas elites políticas tradicionais, converteu sua experiência sindical em projeto presidencial.
Lula perdeu três eleições consecutivas — 1989, 1994 e 1998 — antes de vencer em 2002. Sua eleição permitiu ao PT transformar uma identidade originalmente sindical e urbana em uma coalizão nacional que progressivamente incorporou trabalhadores rurais, parcelas da população pobre, setores da classe média, movimentos negros e segmentos do empresariado.
Na Bahia, essa mudança coincidiu com uma transformação eleitoral profunda.
Políticas sociais ajudam a explicar a virada, mas não são a única causa
Entre os fatores mais importantes está a experiência material dos governos Lula.
Estudos do Ipea sobre o período de 2003 a 2011 identificaram forte crescimento da renda entre os estratos mais pobres e redução da desigualdade. Na Bahia, a expansão da renda do trabalho teve papel relevante, enquanto programas de transferência, especialmente o Bolsa Família, tiveram importância proporcional ainda maior nas regiões não metropolitanas.
O fenômeno não pode ser atribuído exclusivamente a uma política ou a um presidente. A queda da desigualdade naquele período esteve associada a uma combinação de fatores: valorização real do salário mínimo, expansão do emprego formal, transferências de renda, aumento da escolaridade, crédito, crescimento econômico e uma conjuntura externa favorável em parte dos anos 2000.
Mas, eleitoralmente, importa também a percepção.
Milhões de famílias passaram a associar aquele ciclo histórico a maior acesso a consumo, alimentação, universidade, crédito, eletricidade, habitação e serviços públicos. Essa memória social foi transmitida para gerações que sequer tinham idade para votar naquele período.
É uma das razões pelas quais o lulismo pode sobreviver politicamente às oscilações da própria economia.
A redução da jornada para 40 horas torna o trabalho novamente tema central
Em outubro de 2026, essa relação histórica com a agenda trabalhista ganhou um novo capítulo.
O Congresso Nacional promulgou em 16/10 a mudança constitucional que reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas e estabelece dois dias de descanso remunerado por semana. A medida foi aprovada no Senado por 75 votos a 1.
A mudança não significa que todos os trabalhadores já estejam, imediatamente, submetidos às 40 horas. A transição começa após 60 dias, quando a jornada passa a 42 horas, e a etapa seguinte conduz às 40 horas semanais. Dados oficiais indicam que, em dezembro de 2025, o Brasil tinha 44,5 milhões de trabalhadores formais regidos pela CLT, dos quais 14,7 milhões trabalhavam em escala 6×1.
Trata-se de uma das alterações constitucionais mais relevantes nas relações de trabalho desde 1988.
Politicamente, Lula pode incorporá-la à narrativa histórica que o conecta ao sindicalismo. Seria incorreto, contudo, apresentá-la como realização exclusiva do presidente: a aprovação exigiu maioria constitucional no Congresso e alcançou adesão muito além da bancada governista.
O significado político é maior: a questão do tempo de trabalho voltou ao centro do debate nacional justamente quando a juventude se tornou parcela decisiva da força de trabalho submetida a serviços, comércio, aplicativos e jornadas fragmentadas.
Salvador mudou, e a infraestrutura também produz memória política
As duas grandes manifestações de 2026 ocorreram em uma cidade cuja infraestrutura foi profundamente modificada desde que o PT assumiu o Governo da Bahia.
O exemplo mais evidente é o Metrô Salvador–Lauro de Freitas. Em 2013, durante o governo Jaques Wagner, o Estado assumiu a responsabilidade pela conclusão da Linha 1 e implantação da Linha 2. O sistema opera por meio de PPP e possui atualmente duas linhas, 21 estações e dezenas de quilômetros de trilhos.
Governos posteriores deram sequência a intervenções viárias, hospitais, policlínicas, contenções de encostas e projetos de mobilidade.
Sob Jerônimo Rodrigues, o VLT de Salvador e Região Metropolitana tornou-se uma das principais obras em execução. O projeto prevê investimento de aproximadamente R$ 5,4 bilhões, cerca de 40 quilômetros e dezenas de paradas, com conclusão programada para 2028. Logo, parte dessa transformação ainda é promessa em execução e não pode ser contabilizada como infraestrutura concluída.
Essa distinção entre obra entregue, obra contratada e projeto anunciado é necessária para evitar propaganda disfarçada de informação.
Agricultura familiar aproxima políticas públicas do interior baiano
A força petista também está territorialmente associada ao interior.
A Bahia possui uma das maiores estruturas de agricultura familiar do país. Entre 2023 e 2026, segundo o Governo do Estado, foram destinados R$ 2,5 bilhões a ações de desenvolvimento rural, incluindo assistência técnica, equipamentos, agroindústrias familiares, quintais produtivos e acesso à água; mais de R$ 500 milhões foram informados apenas para 2026.
Somam-se a esse sistema os financiamentos do Pronaf, programas de compras públicas, alimentação escolar e cooperativismo.
A relação eleitoral, entretanto, não deve ser descrita como troca automática entre benefício e voto. Políticas públicas podem criar reconhecimento político, mas comportamento eleitoral depende ainda de identidade, organização territorial, lideranças municipais, religião, comunicação, tradição familiar e avaliação de governo.
A predominância de Lula no interior é resultado de uma combinação desses elementos.
BYD leva o novo ciclo industrial para Camaçari
Outra dimensão importante da narrativa governista está na indústria.
Camaçari, que sofreu forte impacto econômico com o encerramento das operações da Ford, tornou-se sede do complexo industrial da chinesa BYD, dedicada a veículos eletrificados.
Em setembro de 2026, a empresa informou ter superado 8 mil empregados diretos em Camaçari e anunciou antecipação de mais 1.500 contratações para preparar um terceiro turno de produção.
O Governo da Bahia informa investimento projetado de aproximadamente R$ 5,5 bilhões. A capacidade industrial inicial foi estruturada em torno de 150 mil veículos anuais, com perspectiva de expansão para até 600 mil unidades em fases futuras. A companhia também avalia exportações a mercados latino-americanos e europeus. Essas metas devem ser entendidas como projeções industriais, não como produção já alcançada.
O projeto tem significado que ultrapassa Camaçari. Ele permite ao campo governista associar sua política industrial a transição energética, tecnologia, emprego formal e reconstrução de um polo automobilístico que perdera sua antiga montadora.
Também oferece um exemplo da tentativa de reconciliar duas bases históricas do PT: trabalho industrial e desenvolvimento regional.
O paradoxo dos jovens: por que um presidente de 80 anos continua competitivo entre eleitores de 16 a 24?
Talvez nenhum aspecto das manifestações de Salvador seja tão politicamente intrigante quanto a presença de jovens em apoio a um presidente octogenário.
Lula tem 80 anos e disputará o segundo turno de 25 de outubro apenas dois dias antes de completar 81.
Seria tentador concluir, a partir das imagens das ruas, que a juventude aderiu em massa ao presidente. Os dados recomendam maior prudência.
Pesquisa Datafolha, realizada nos dias 13 e 14/10/2026, com 2.520 eleitores em 153 municípios, mostrou Lula numericamente à frente entre os eleitores de 16 a 24 anos, com 54% dos votos válidos contra 46% de Flávio Bolsonaro. Entretanto, a margem de erro específica desse segmento era de seis pontos percentuais, caracterizando empate técnico. O levantamento foi registrado no TSE sob o número BR-00466/2026.
Portanto, um político de 80 anos permanece eleitoralmente competitivo entre os mais jovens, fato incomum em qualquer democracia. A explicação provavelmente está menos na idade biológica do candidato e mais no significado político atribuído a ele.
Para parte dos jovens, Lula está associado à expansão universitária, cotas, institutos federais, políticas de renda, direitos trabalhistas e defesa da democracia. Para outros, representa oposição ao bolsonarismo. Há ainda um mecanismo de transmissão de memória: jovens que não viveram os primeiros governos Lula receberam de pais e avós narrativas de mobilidade social ocorrida nos anos 2000.
A própria mobilização cultural amplia essa ponte geracional. Daniela Mercury, Gilberto Gil, BaianaSystem, Liniker, blocos afro, artistas populares e influenciadores transportam o debate político para ambientes distintos da estrutura partidária tradicional.
Mas existe também um paradoxo crítico: a capacidade de um líder de 80 anos continuar indispensável revela sua excepcional longevidade eleitoral e, simultaneamente, a dificuldade do campo progressista em produzir uma liderança nacional capaz de substituí-lo.
Daniela Mercury converte a tecnologia do Carnaval em manifestação política
O ato de 18 de outubro mostrou ainda uma característica singular da política baiana: o uso das estruturas culturais de massa como ferramentas de mobilização cívica.
O trio elétrico, concebido como tecnologia musical do Carnaval, tornou-se palanque móvel. O circuito Ondina–Barra, normalmente destinado à festa, converteu-se em avenida política. Blocos afro que historicamente afirmam identidade negra e cultura popular passaram a integrar uma manifestação nacional pela democracia.
Não há nisso uma novidade absoluta. Artistas baianos participaram de campanhas políticas, movimentos pela redemocratização, Diretas Já e manifestações em defesa de direitos em diferentes períodos.
O que 2026 mostrou foi a escala dessa combinação entre política e cultura.
Salvador não é politicamente homogênea, tampouco sua comunidade artística. Mas poucas cidades brasileiras dispõem de uma infraestrutura cultural de rua com capacidade semelhante de transformar música, símbolos e ocupação do espaço urbano em comunicação política de massa.
Por que a Bahia tornou-se um dos centros nacionais do lulismo?
Não existe uma única resposta.
A explicação mais consistente emerge da sobreposição de pelo menos cinco dimensões.
A primeira é material. Políticas de renda, salário mínimo, emprego, agricultura familiar, educação, infraestrutura e crédito produziram efeitos perceptíveis em uma sociedade historicamente marcada por pobreza e desigualdade.
A segunda é política. Desde a eleição de Jaques Wagner em 2006, o PT construiu uma extensa rede estadual de governos, prefeitos, parlamentares, sindicatos, movimentos sociais e alianças partidárias que atravessou os governos de Rui Costa e Jerônimo Rodrigues.
A terceira é simbólica. Lula, pernambucano de origem pobre, migrante e ex-operário, construiu um discurso biográfico que encontra identificação em segmentos populares do Nordeste.
A quarta é histórica e cultural. A Bahia desenvolveu uma sociedade com forte presença negra, organizações populares, associações religiosas, sindicatos, movimentos culturais e longa tradição de ocupação política das ruas.
A quinta é pessoal. Depois de mais de quatro décadas de vida pública, Lula construiu uma relação com o eleitorado que já não depende inteiramente do PT.
O resultado de Salvador em 2026 oferece provavelmente a melhor evidência dessa última dimensão: o eleitor pode votar em Lula para presidente e ACM Neto para governador sem enxergar contradição.
A força política convive com problemas estruturais não resolvidos
A longevidade dos governos petistas não eliminou problemas históricos da Bahia.
Segundo o IBGE, embora a taxa anual de desemprego baiana tenha caído para 8,7% em 2025, o menor resultado da série estadual iniciada em 2012, ela permaneceu entre as maiores do país. A subutilização chegou a 26,8%, a informalidade a 52,8%, e o rendimento médio real habitual do trabalho ficou em R$ 2.284, entre os menores das unidades da Federação.
Persistem ainda desafios em segurança pública, educação básica, saneamento, produtividade, pobreza e desigualdade regional.
É justamente essa contradição que impede uma interpretação meramente celebratória de duas décadas de domínio petista.
Se os governos estaduais e federais produziram mudanças reconhecidas por parcelas expressivas do eleitorado, eles também tiveram tempo suficiente para serem responsabilizados por problemas que permaneceram.
O resultado eleitoral é uma avaliação comparativa: o eleitor não decide se um governo resolveu todos os problemas; decide, fundamentalmente, quem considera mais capaz de governar diante das alternativas disponíveis.
Bahia chega ao segundo turno como reserva estratégica de votos de Lula
Faltando cerca de 24 horas para o segundo turno, a Bahia ocupa posição excepcional no mapa eleitoral brasileiro.
Lula não precisa apenas repetir sua vitória estadual. Sua campanha busca ampliar a diferença obtida no primeiro turno e mobilizar parte dos 2.246.970 baianos que não compareceram às urnas em 4 de outubro, equivalentes a quase 20% do eleitorado estadual.
É neste ponto que os dois grandes momentos da Barra se conectam.
A caminhada de 29 de setembro demonstrou a capacidade de mobilização da estrutura política reunida em torno de Lula, Jerônimo, Wagner e Rui.
O ato de 18 de outubro mostrou que essa energia também existe fora dos palanques partidários tradicionais, envolvendo música, movimentos negros, cultura, estudantes, trabalhadores e organizações sociais.
As urnas de 25 de outubro mostrarão quanto dessa mobilização de rua se converterá em votos.
Da primeira capital do Brasil ao centro contemporâneo da disputa política
Existe uma imagem histórica poderosa no fato de essa mobilização ocorrer em Salvador.
A cidade fundada em 1549 para administrar a colônia portuguesa, estruturada sobre escravidão, concentração de riqueza e rígidas hierarquias sociais, tornou-se, quase cinco séculos depois, cenário de manifestações que discutem democracia, direitos sociais, trabalho e representação política.
Não existe continuidade automática entre esses momentos. Há conflitos, rupturas e transformações profundas.
Ainda assim, o contraste ajuda a compreender a trajetória brasileira.
A Bahia foi centro do sistema colonial, palco da luta pela Independência, território decisivo da diáspora africana, espaço de revoltas populares e laboratório de experiências culturais que posteriormente se projetaram para todo o país.
Em 2026, voltou a ocupar uma posição nacional, agora pelo peso do voto.
E talvez a principal conclusão seja justamente esta: a Bahia não se tornou lulista porque sempre tenha sido petista — os resultados de 1989, 1994 e 1998 provam o contrário. Tornou-se um dos principais territórios de Lula depois de uma transformação social, política e eleitoral iniciada no começo do século XXI e aprofundada por mais de duas décadas de identificação entre políticas públicas, lideranças estaduais e memória popular.
Lula, aos 80 anos, é a síntese e também o paradoxo desse processo.
Para seus adversários, representa um ciclo político que deveria terminar.
Para milhões de seus eleitores baianos — inclusive parte de uma geração que nasceu depois de sua primeira eleição presidencial — ele continua sendo associado não apenas ao passado, mas à expectativa de futuro.
É isso que torna a Bahia, às vésperas de 25 de outubro de 2026, um dos territórios mais importantes para compreender não apenas a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas a própria permanência do lulismo como uma das maiores forças políticas da história democrática brasileira.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.








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