O governador da Bahia, Rui Costa, e o senador Jaques Wagner apresentaram a major da Polícia Militar Denice Santiago como a pré-candidata preferencial do Partido dos Trabalhadores (PT) para a disputa pela Prefeitura de Salvador nas eleições municipais de 2020. A escolha foi comunicada ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em reunião realizada em São Paulo, na terça-feira (28/01/2020).
PT busca renovação e aposta em novo perfil de candidata
A escolha de Denice Santiago simboliza uma tentativa do PT de renovar sua imagem na capital baiana, apostando em um perfil considerado fora da política tradicional. Denice é conhecida por comandar há cinco anos a Ronda Maria da Penha, um programa especializado no combate à violência contra a mulher no estado. Ela também se destaca por ser a segunda mulher promovida a major na história da Polícia Militar da Bahia.
O lançamento oficial da candidatura deve ocorrer no próximo domingo (02/02/2020), durante os tradicionais festejos de Iemanjá, evento simbólico na cidade e com forte apelo popular.
Reunião em São Paulo selou estratégia eleitoral
Além de Rui Costa e Jaques Wagner, participaram da reunião com Lula a presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, o presidente do PT na Bahia, Eden Valadares, e o deputado federal José Guimarães. Após o encontro, Gleisi divulgou uma imagem em seu perfil no Twitter e destacou que o PT disputará a Prefeitura de Salvador com candidatura própria.
Segundo fontes ligadas ao partido, o governador Rui Costa apresentou ao ex-presidente dados de pesquisas qualitativas que indicaram uma boa aceitação de Denice Santiago entre o eleitorado soteropolitano. Os números apontam que 30% dos entrevistados demonstraram intenção de voto na major, com parte desse percentual associando erroneamente sua imagem à autoria da Lei Maria da Penha.
Falhas metodológicas podem comprometer a estratégia
Apesar do entusiasmo com os dados apresentados, analistas políticos alertam para riscos estruturais na decisão. A confiança excessiva em pesquisas qualitativas pode gerar distorções, especialmente quando há erros na construção dos questionários ou quando as projeções não consideram o contexto dinâmico e volátil da política.
Além disso, o uso de uma pesquisa como único critério para escolha de um nome para disputar um cargo executivo em uma metrópole como Salvador pode não captar adequadamente as complexidades políticas, sociais e administrativas envolvidas.
A fragilidade da figura outsider
A decisão de apostar em uma outsider — ou seja, em uma figura sem histórico de militância ou trajetória consolidada dentro do partido — é frequentemente apontada como uma tentativa de atrair eleitores descontentes com a política tradicional. Contudo, a ausência de uma formação político-partidária consistente pode comprometer a governabilidade e a capacidade de articulação institucional.
Salvador apresenta uma das gestões públicas mais complexas do país, com altos índices de desigualdade social, desafios na mobilidade urbana e demandas crescentes em saúde, educação e segurança pública. A ausência de experiência administrativa direta e a falta de vivência partidária de Denice Santiago podem representar obstáculos significativos em caso de vitória eleitoral.
O paralelo com o cenário nacional
O contexto da escolha da major Denice Santiago no PT baiano suscita comparações com o processo eleitoral que elegeu Jair Bolsonaro presidente do Brasil em 2018. Militar da reserva e outsider em termos de gestão pública, Bolsonaro foi eleito com forte discurso antipolítica tradicional, mas seu governo tem sido marcado por crises institucionais, problemas de articulação com o Congresso e dificuldades na execução de políticas públicas estruturantes.
Especialistas indicam que o PT corre o risco de repetir, em escala municipal, uma estratégia que no plano nacional resultou em instabilidade e desgaste político.
PT em Salvador: entre renovação e risco
Nos bastidores, integrantes do partido avaliam que a escolha de Denice Santiago se insere em uma linha de busca por renovação e fortalecimento da presença feminina na política local. Entretanto, lideranças históricas do PT ponderam que a ausência de trajetória política da candidata e sua origem em uma instituição militar — cuja lógica hierárquica e operacional contrasta com o ideário progressista do partido — pode gerar dissonâncias com a base militante e com a sociedade civil organizada.
Ainda que bem-sucedida eleitoralmente, a aposta em uma outsider sem base partidária consolidada carrega o risco de fragilizar a governabilidade, sobretudo em um cenário polarizado e de crise institucional como o atual.
Conclusão
A decisão do PT baiano de indicar a major Denice Santiago como pré-candidata à Prefeitura de Salvador traduz uma estratégia de inovação eleitoral, mas expõe o partido a riscos significativos no campo político e administrativo. A falta de experiência da candidata na política institucional e na gestão pública é um fator que pode impactar negativamente tanto o processo eleitoral quanto uma eventual administração na capital baiana.








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