Editorial: Eleitor de Feira de Santana é conservador na escolha do prefeito e progressista no voto para governador e presidente da República

Com base em dados das eleições passadas, análise do cenário político-eleitoral de 2020 em Feira de Santana indica tendência tradicional-conservadora do eleitor.
Com base em dados das eleições passadas, análise do cenário político-eleitoral de 2020 em Feira de Santana indica tendência tradicional-conservadora do eleitor.

Com base em dados das eleições passadas, a análise do cenário político-eleitoral de 2020 em Feira de Santana aponta para uma tendência tradicional-conservadora entre os eleitores. Este ano, marcado pelas eleições municipais, vê prefeitos e vereadores disputarem não apenas a renovação de mandatos, mas a consolidação de apoios históricos. Neste contexto, o Jornal Grande Bahia (JGB) apresenta uma análise que relaciona o percurso histórico do município com o atual panorama político.

— Neste cenário, como vota o eleitor de Feira de Santana?

A partir de 1962, quando Francisco Pinto (Chico Pinto, PSD e PMDB, †1930 — ★2008) foi eleito prefeito e posteriormente deposto pelo Golpe Civil-Militar de 1964, evidencia-se que o eleitor feirense manifesta um perfil intrinsecamente conservador, aderindo ao tradicionalismo na escolha dos mandatários municipais. Embora Chico Pinto seja lembrado como um dos líderes da esquerda, sua origem no trabalhismo de Getúlio Vargas (†1882 — ★1954) difere do trabalhismo de base comunista, ressaltando que a tradição local se consolidou por meio de valores e práticas históricas que prezam pela estabilidade.

Durante os últimos 60 anos, o tradicionalismo-conservador permaneceu como a escolha predominante para a administração municipal. Nomes como José Falcão (MDB, PDS, PFL e PMN), Colbert Martins (†1932 — ★1994, PMDB) – pai do atual prefeito Colbert Filho (MDB) – e João Durval (ex-governador, militante do PDS, PFL, atual DEM e PDT) são a materialização desse legado político. A continuidade desse padrão, que se estendeu de 1961 até a eleição de 2000, culminou na ascensão de José Ronaldo (PFL, atual DEM) ao cargo de prefeito, marcando o início de uma hegemonia personalista que persiste no cenário feirense.

Desde 2001, José Ronaldo foi eleito e reeleito por quatro vezes, sempre no primeiro turno, consolidando seu apoio e definindo, também no primeiro turno, a eleição de Tarcízio Pimenta (DEM, PDT). Em 2018, com sua renúncia ao mandato, o vice-prefeito e antigo adversário Colbert Martins Filho (MDB) assumiu a prefeitura, reforçando o vínculo indissolúvel com o conservadorismo que tem moldado a política municipal. Por outro lado, as candidaturas que tentaram contestar essa hegemonia tradicional sempre obtiveram desempenho modesto, evidenciando a resistência dos eleitores a alternativas que rompam com a experiência consagrada.

A partir de 2001, o então vereador e atual deputado federal José Cerqueira Neto (Zé Neto, PT) iniciou a construção de uma hegemonia para o Partido Trabalhista de Feira de Santana – processo que se concretizou, hoje, com sua quase exclusividade, somada à presença tímida do vereador Alberto Nery, representante sindical dos rodoviários. Os ideários do trabalhismo de base socialista foram, assim, sufocados pela forte tendência ao personalismo, que se sobrepôs à construção de uma identidade de classe entre os trabalhadores locais.

Essa situação se evidencia a partir de três fatores principais:

  1. A ampla base de trabalhadores, com salários médios baixos, que não encontra nos partidos de esquerda uma identidade ideológica que lhes seja própria;
  2. A constância do voto em prefeitos conservadores e, simultaneamente, a opção por candidatos progressistas nas disputas para presidente e governador, centrados no trabalhismo;
  3. A redução da representação trabalhista na Câmara Municipal e a fragilidade do movimento sindical, que refletem a ausência de uma consciência de classe robusta, em grande medida por conta da adoção do personalismo, tanto por políticos de direita quanto de esquerda.

Além disso, a partir de 2000, as eleições municipais passaram a ser marcadas por uma polarização pró-direita, que rejeita candidaturas centristas e inviabiliza a ideia de uma terceira via. Tal conclusão é corroborada pelos resultados das últimas cinco disputas municipais.

— Em Feira de Santana, a eleição municipal de 2020 representa um cenário político-eleitoral novo?

Analisando os dados estatísticos das últimas cinco eleições municipais, em conjunto com o atual cenário político do país e da Bahia, constata-se que a polarização deverá se repetir em 2020. De um lado, um candidato que encarna o tradicionalismo-conservador; do outro, uma oposição que, em grande parte, catalisa o descontentamento com a gestão municipal, sem apresentar propostas alternativas capazes de promover um desenvolvimento socioeconômico emancipatório.

No pleito municipal, os candidatos se organizam da seguinte forma:

Os postulantes ao mandato majoritário: direita, centro-direita e extrema-direita

Colbert Martins Filho (MDB), atual prefeito, disputa as eleições de 2020 com o apoio do experiente José Ronaldo (DEM) – uma relação ambivalente entre criador e criatura. Outros nomes, como Carlos Geilson (Podemos) e José de Arimateia (Republicanos), também tentam captar o voto dos tradicionalistas, embora sem o respaldo decisivo de José Ronaldo, o que dificulta sua captação de eleitores. Na extrema-direita, a deputada federal Daniel Pimentel (PSL) ensaia uma candidatura, mas a ideologia que representa tem pouca ressonância entre os eleitores feirenses, especialmente considerando o insucesso do governo de Jair Bolsonaro, cuja própria liderança desqualificou a família do presidente da República.

Os postulantes ao mandato majoritário: centro-esquerda, esquerda e extrema-esquerda

O campo progressista, com exceção do PSOL, busca o apoio de figuras históricas como o governador Rui Costa (PT) e o senador e ex-governador Jaques Wagner (PT) para agregar forças na disputa. Contudo, não há base suficiente para mobilização trabalhista pautada em uma identidade partidária de esquerda, fato que decorre da hegemonia construída por Zé Neto ao se firmar como o único nome de destaque nesse campo durante as últimas duas décadas – exceção feita à breve candidatura de Sérgio Carneiro (PDS, PFL, PT e atual PV), que acabou por se submeter à tendência do Ronaldismo.

Zé Neto adotou uma política personalista que, ao renegar a dimensão ideológica marxista e a busca emancipatória, retardou a formação de uma oposição de classes efetiva. Em seus discursos, é nítida a influência do pensamento de Max Weber, contrapondo-se ao marxismo, o que contribuiu para a reificação dos ideais trabalhistas. O vereador Roberto Tourinho (PDS, PFL, DEM e atual PV), filho adotivo de José Falcão (†1930 — ★1997) e antigo apoiador do Ronaldismo, tenta articular uma ‘Frente Democrática Progressista’ com a participação do PV, PSB, PCdoB e REDE – um experimento no qual centro-esquerda e esquerda se unem em torno de uma base conservadora. Embora outros nomes, como Angelo Almeida (PSB), tentem se firmar, a identidade da classe trabalhadora permanece fragilizada diante dos discursos propostos. Na extrema-esquerda, o PSOL segue em intensos debates internos na busca de um candidato que possa viabilizar a candidatura do ex-prefeito Jhonatas Monteiro (Rasta) como vereador.

A escolha progressista do eleitor de Feira de Santana

Paradoxalmente, o mesmo eleitor que opta por um governante municipal conservador a partir de 2000 vota em candidatos progressistas para os cargos de governador e presidente. Exceção a essa lógica ocorreu em 2018, quando José Ronaldo (DEM) concorreu contra o governador reeleito Rui Costa (PT) e venceu no colégio eleitoral de Feira de Santana, com 147.930 votos (51,25%), frente a 133.761 votos (46,34%). No âmbito estadual, o resultado foi expressivo a favor de Rui Costa (PT), com 5.096.062 votos (75,50%), enquanto José Ronaldo (DEM) obteve 1.502.266 votos (22,26%). Já na disputa presidencial, o extremismo de Jair Bolsonaro (PSL-RJ), embora eleito, rendeu à Bahia apenas 2.060.382 votos (27,31%), em contraste com os 5.484.901 votos (72,69%) de Fernando Haddad (PT-SP). Seguindo o padrão estadual, o eleitor feirense votou em Haddad, concedendo 194.826 votos (62,85%), contra 115.118 votos (37,15%) para Bolsonaro.

Tais resultados evidenciam que, para as eleições de âmbito estadual e federal, o eleitor de Feira de Santana demonstra uma clara inclinação progressista, desde que a disputa não se trate da prefeitura. Assim, o conservadorismo-tradicionalista se mantém como referência inabalável na escolha do mandatário municipal, alinhando-se com o restante do eleitorado baiano nas demais disputas.

Conclusão

Em síntese, conclui-se que a rejeição ao tradicionalismo-conservador, por parte de uma minoria dos eleitores, deve-se mais à insatisfação com a gestão municipal do que a uma visão articulada de alternativas socioeconômicas para Feira de Santana. Isso ocorre porque as lideranças progressistas não conseguiram, ao longo do tempo, fomentar uma consciência de classe sólida capaz de promover uma mudança estrutural no poder.

Os fatos históricos e os dados estatísticos demonstram, de maneira inequívoca, que o eleitor feirense tende a optar por governantes municipais alinhados ao conservadorismo-tradicionalista, enquanto, paradoxalmente, nas disputas para presidente e governador, predomina uma escolha progressista. Essa dualidade ressalta a complexidade do eleitorado e a importância de se preservar os valores tradicionais que sempre sustentaram a estabilidade e o desenvolvimento local.

Carlos Augusto é jornalista e cientista social.


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