A Organização das Nações Unidas (ONU) condenou nesta segunda-feira (05/01/2026) de forma contundente a operação militar realizada pelos Estados Unidos em território venezuelano, classificando a ação como uma violação do direito internacional e alertando que o episódio “torna o mundo menos seguro”. As manifestações ocorreram durante entrevistas coletivas e reuniões de emergência do Conselho de Segurança realizadas nos dias 5 e 6 de janeiro de 2026, após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, em Caracas, e a transferência do casal para Nova York.
O episódio expôs uma profunda divisão no cenário internacional, contrapondo a justificativa norte-americana de “aplicação da lei” à defesa do multilateralismo, da soberania dos Estados e do respeito à Carta das Nações Unidas, princípios reiteradamente destacados por autoridades da ONU e por diversos países membros.
ONU afirma que ação “torna o mundo menos seguro” e rejeita intervenção unilateral
Em entrevista coletiva concedida na terça-feira (06/01), a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Ravina Shamdasani, rejeitou as justificativas apresentadas por Washington para a incursão militar. Embora tenha reconhecido o “longo e deplorável histórico de violações de direitos humanos do governo venezuelano”, ela foi categórica ao afirmar que a responsabilização por esses abusos não pode ocorrer por meio de intervenção militar unilateral.
Segundo Shamdasani, a operação norte-americana “está longe de ser uma vitória dos direitos humanos” e afeta diretamente a soberania da Venezuela, a Carta das Nações Unidas e a arquitetura da segurança internacional. Para a ONU, o uso da força fora dos mecanismos multilaterais não apenas agrava conflitos regionais, como também enfraquece os fundamentos do sistema internacional construído no pós-guerra.
“Essa ação torna o mundo menos seguro”, afirmou a porta-voz do Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos.
Conselho de Segurança: direito internacional no centro da controvérsia
Na reunião de emergência do Conselho de Segurança realizada na segunda-feira (05/01), a subsecretária-geral da ONU para Assuntos Políticos e de Construção da Paz, Rosemery DiCarlo, representando o secretário-geral António Guterres, abriu os debates com duras críticas à operação de 3 de janeiro.
DiCarlo declarou estar “profundamente preocupada” com o fato de que as normas do direito internacional não foram respeitadas. Ela ressaltou que a proibição do uso da força contra a integridade territorial e a independência política de qualquer Estado é um pilar da ordem internacional e não pode ser relativizada, mesmo diante de acusações graves.
“Estou profundamente preocupada que as leis do direito internacional não tenham sido respeitadas na ação militar do dia 3 de janeiro”, afirmou.
A subsecretária-geral alertou ainda para o risco de precedentes perigosos, destacando que a estabilidade global depende do compromisso dos Estados com os mecanismos multilaterais de resolução de conflitos.
Ação militar em Caracas e captura de Nicolás Maduro
Segundo os relatos apresentados, forças militares dos Estados Unidos invadiram Caracas no sábado (03/01) e retiraram à força Nicolás Maduro e Cilia Flores do território venezuelano. A operação provocou confrontos armados, mortes de integrantes das forças de segurança presidencial e explosões na capital.
O casal foi transferido para Nova York, onde passou por audiência de custódia no Tribunal Federal do Distrito Sul de Manhattan. Durante a audiência, Maduro negou todas as acusações, declarou-se inocente e afirmou ter sido sequestrado por forças estrangeiras, sustentando que permanece como presidente legítimo da Venezuela.
“Sou inocente. Não sou culpado”, declarou Maduro ao juiz responsável pela audiência.
Defesa dos Estados Unidos: “aplicação da lei” e negação de guerra
Na ONU, os Estados Unidos defenderam a operação e negaram que o país esteja em guerra ou ocupando a Venezuela. O embaixador norte-americano afirmou que a ação teve caráter jurídico, sendo uma operação de “aplicação da lei” baseada em acusações criminais que, segundo Washington, existem há décadas.
“Não há guerra contra a Venezuela nem contra o seu povo. Tratou-se de uma operação de aplicação da lei”, declarou o representante dos EUA.
O discurso norte-americano também sustentou que Nicolás Maduro não é reconhecido como chefe de Estado legítimo por dezenas de países e associou o governo venezuelano a organizações criminosas e a interesses estratégicos de adversários dos Estados Unidos, especialmente no setor energético.
Questionamentos sobre as acusações e narrativa do narcoterrorismo
Apesar das acusações apresentadas por Washington, o próprio debate internacional revelou questionamentos sobre a solidez das provas. Organizações e especialistas citados no material contestam a existência do chamado “Cartel de los Soles” e apontam que a narrativa do narcoterrorismo tem sido utilizada como instrumento político para justificar intervenções.
Também é destacado que, embora a Venezuela possa integrar rotas do tráfico internacional, o país não é produtor de cocaína, o que reforça dúvidas sobre a proporcionalidade e a legitimidade da resposta militar adotada.
Brasil condena ação e alerta para precedente perigoso
O Brasil manifestou forte reprovação à operação norte-americana. Em discurso no Conselho de Segurança, o embaixador Sérgio Danese afirmou que não é aceitável o argumento de que “os fins justificariam os meios” e que o uso da força ou a derrubada ilegal de governos com base em interesses econômicos ou estratégicos carece de legitimidade.
“Não é possível aceitar o argumento de que os fins justificariam os meios”, afirmou o diplomata brasileiro.
Danese alertou que a violação da Carta da ONU estabelece um precedente “extremamente perigoso” para a comunidade internacional e compromete o multilateralismo. Ele ressaltou ainda que a América Latina e o Caribe optaram historicamente pela paz e que intervenções armadas evocam períodos marcados por autoritarismo, repressão e graves violações de direitos humanos.
Reações regionais: condenações e apoio isolado
Colômbia e Cuba também condenaram a ação dos Estados Unidos. A representação colombiana advertiu para os impactos humanitários e migratórios da crise, enquanto Cuba acusou Washington de buscar o controle dos recursos naturais venezuelanos, especialmente o petróleo.
Em posição divergente, a Argentina foi um dos poucos países a apoiar a operação, classificando o sequestro de Maduro como um passo decisivo contra o narcoterrorismo e uma oportunidade para a restauração da democracia e do Estado de Direito na Venezuela.
China, Rússia e repercussões globais
China e Rússia condenaram duramente a ação militar e pediram a libertação imediata de Nicolás Maduro e de Cilia Flores. O embaixador chinês classificou a operação como ilegal e intimidatória, enquanto o representante russo afirmou que o episódio representa um retorno a um “mundo sem leis”, baseado na imposição da força.
A crise também gerou efeitos indiretos na Europa. Declarações do presidente norte-americano sobre a possibilidade de intervenção na Groenlândia provocaram reação da Dinamarca, da União Europeia e do Reino Unido, que reafirmaram a inviolabilidade da soberania territorial e alertaram para riscos à estabilidade da Otan.
Medidas paralelas: Suíça congela bens ligados a Maduro
Em outra frente, o governo da Suíça anunciou o congelamento de bens vinculados a Nicolás Maduro e a pessoas próximas ao líder venezuelano, como medida preventiva para impedir a transferência de ativos potencialmente ilícitos. As autoridades suíças afirmaram que acompanham a situação de perto, defenderam a desescalada do conflito e ofereceram mediação para uma solução pacífica.
Quando o “Estado de Direito” vira instrumento de força
O episódio expõe uma contradição central da política internacional contemporânea: a invocação do “Estado de Direito” como justificativa para ações militares unilaterais. Ao capturar um chefe de Estado em exercício sem autorização do Conselho de Segurança, um país sinaliza que normas internacionais podem ser relativizadas conforme interesses estratégicos, corroendo o próprio sistema que afirma defender.
Para a América Latina, o alerta feito por Brasil e Colômbia carrega peso histórico. Intervenções legitimadas por discursos morais ou de segurança deixaram um legado de instabilidade, autoritarismo e violações de direitos humanos. A normalização desse método tende a reproduzir-se, independentemente do governo ou do contexto específico.
Além disso, as dúvidas sobre a robustez das provas e sobre a consistência jurídica das acusações reforçam o caráter problemático da operação. Quando o debate se desloca do campo das evidências e do devido processo para o da força, o risco não é apenas regional, mas sistêmico, atingindo a credibilidade das instituições multilaterais e a previsibilidade das relações internacionais.










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