Caminho de Compostela 2 | Por Joaci Góes

Ao querido amigo Luiz Mendonça Filho.

Segundo a experiência acumulada pelos que fizeram os percursos peripatéticos mais longos do Caminho para Santiago de Compostela, são três os estados que se apossam dos peregrinos, sucessivamente, o físico ou corporal, o mental e o espiritual.

No momento em que escrevemos, encontramo-nos no apogeu do estado físico, em que predominam as atenções com o corpo que emite, ininterruptamente, mensagens ao cérebro, acusando a sucessão de desconfortos de frequência e intensidade até agora desconhecidas.

Os inúmeros relatos dessa experiência revelam reações as mais distintas, variando, desde os que acolhem como estímulo para a continuidade a emergência de cada dor até os que, na primeira oportunidade, iniciam o imediato retorno à velha e agradável rotina sedentária. Pelo pouco que temos testemunhado, nesta primeira de quatro semanas, atravessando os campos, grandes, médias e pequenas cidades da Espanha, o grau de compromisso ou de maturidade dos peregrinos com a dura caminhada oscila em razão da qualidade do preparo físico, a que se submeteram para empreendê-la, ao lado do nível de informações sobre as dificuldades naturais e inerentes ao trajeto escolhido.

Essa análise prévia explica porque os percursos variam tanto em sua extensão, sendo a mínima de 120 km, para receber chancela oficial e a máxima de 870 km, se, passando de Santiago de Compostela, for até a borda do mar atlântico, ponto que, por muitos séculos, foi considerado o fim do mundo, posto que passou a ser ocupado por Ushuaia, no extremo sul da Argentina.

Registre-se a diferença abissal, existente, em matéria de conforto emocional, entre fazer o Caminho só ou acompanhado. Pensamos que, com raras exceções, os que optam por cumprir a jornada solitariamente, o fazem por ignorar os consideráveis riscos embutidos nas frequentes travessias de regiões ermas sem um ponto sequer de apoio ou a visão de um ser vivo qualquer, exceções feitas a alguns poucos pássaros adaptados às infindáveis culturas do feno para alimentar a pecuária estabulada que não deixa à mostra uma visão furtiva que seja das variedades do gado confinado.

Por hoje é só, porque mais uma jornada diária de 30 km nos chama.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).


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