Caminho de Compostela 4 | Por Joaci Góes 

Ao casal amigo Cristina e Augusto Cézar Mangabeira Nunes.

Brasileiros, em geral, baianos e nordestinos, em particular, que fazem qualquer dos caminhos para Compostela, não podem deixar de refletir sobre o excepcional impacto, de múltiplas origens e dimensões, se o deslocamento a pé, entre regiões do Brasil, não fosse impedido pela infâmia da insegurança reinante, em toda parte.

Restrinjamo-nos ao caso baiano que já desfruta, ainda que de modo limitado, das badaladas caminhadas pela Chapada Diamantina, tendo como centro a histórica cidade de Lençóis. Se, como exemplo, aparelhássemos e déssemos segurança ao percurso entre Morro do Chapéu e Rio de Contas, de cerca de 300 km, é fácil compreender o crescente número de andarilhos, entre nacionais e estrangeiros, que cederiam aos apelos de percorrer aqueles vastos horizontes, em ambientes refrigerados, com temperaturas oscilantes entre 8 e 20º.

Passando para o nível do mar, os 1183 km da orla baiana, a de maior extensão no território nacional, têm tudo para se transformarem numa meca mundial dos amantes do peripatetismo. Tão grande extensão seria dividida em percursos com apoio assegurado a distâncias nunca superiores a 10 km, para alimentação e dormida. Haveria uma verdadeira explosão de pequenos negócios, aptos a assegurar um padrão de vida sensivelmente superior ao usufruído pelas populações ribeirinhas, na atualidade, a exemplo do que ocorre com os espanhóis que vivem ao longo dos caminhos para Compostela. É claro que essa possibilidade se estende a toda costa brasileira, do Oiapoque ao Chuí. A ênfase à costa nordestina decorre do singularíssimo fato de ensejar o banho de mar, em águas tépidas, a qualquer hora de cada um dos 365 dias do ano, fenômeno sem igual em qualquer outro litoral tão extenso.

É claro que nos dias atuais essa possibilidade não passa de uma quimera, assim continuando enquanto nossa população, com o silêncio culposo das elites, continuar de costas para o reconhecimento da educação como o fator básico e fundamental para o desenvolvimento dos povos na sociedade do conhecimento em que o Mundo está imerso.

No caso da Bahia essa possibilidade é ainda mais remota pela queda acentuada nos índices que medem o bem estar dos povos, de que é prova maior o fundo do poço a que chegou a educação em nosso estado que ocupa, hoje, a mais baixa posição, entre as 27 unidades da Federação.

Um dado alarmante, do qual a maior parte da população parece não se dar conta, é sua detrimentosa ocupação do primeiro posto em números absolutos de homicídios praticados em todo do Brasil. Apesar disso, o sistema penal vigorante em nosso Estado revela-se altamente leniente com o crime. Basta mencionar que dos 700 mil detentos existentes no País, a Bahia participa com, apenas, 17 mil, quando, tomando-se como referencial o percentual de 7,3% de sua população, sobre a população nacional, o número de infratores penais, na Bahia custodiados, deveria ser superior a 50 mil! Essa ostensiva e inegável impunidade praticada na Bahia, tem sido sensivelmente agravada pelo estímulo oficial à marginalidade inerente à ação do MST, associado a traficantes de drogas e assaltos na periferia dos núcleos urbanos dotados de atração turística. Esses marginais contam com o apoio de advogados que desonram a profissão.

Em nossa caminhada para Compostela, reiteradamente, inteiramo-nos das origens, escolaridade e padrão de vida dos inúmeros proprietários dos pequenos negócios que pululam à beira do percurso, para sermos assoberbados pelo desgosto de vermos a distância abissal existente entre o que somos e o que poderíamos ser, se outro fosse o nível da educação de nossa gente.

*Joaci Fonseca de Góes, advogado, jornalista, empresário, ex-deputado federal constituinte e presidente do Instituto Histórico e Geográfico da Bahia (IGHB).


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