O papa emérito Bento XVI (Joseph Aloisius Ratzinger) morreu neste sábado (31/12/2022) aos 95 anos em sua casa no Vaticano, anunciou um porta-voz da Santa Sé. Em 2013, Bento 16 se tornou o primeiro pontífice a renunciar em 600 anos.
“Lamentamos informar que o papa emérito Bento 16 morreu hoje às 9h34 no mosnastéiro Mater Ecclesiae, no Vaticano. Maiores informações serão enviadas o mais rápido possível”, informou o porta-voz do Vaticano.
O corpo descansará a partir de segunda-feira (02/01/2023) na Basílica de São Pedro, anunciou o Vaticano.
Últimos dias
Na quarta-feira, 28 de dezembro, o papa Francisco, sucessor de Bento XVI, havia comunicado a piora de seu estado de saúde, solicitando orações aos fiéis para que o Senhor “o consolasse e o apoiasse”. Sua saúde, já debilitada pela idade, agravou-se rapidamente, exigindo cuidados médicos constantes.
Joseph Ratzinger foi nomeado chefe da Igreja Católica em 2005, sucedendo João Paulo II, após um conclave que o escolheu aos 78 anos. Assim, tornou-se o primeiro papa de origem alemã da história moderna. Seu pontificado, embora curto, foi marcado por crises e desafios que o levaram, em 2013, a renunciar devido a problemas de saúde, surpreendendo o mundo.
Após a nomeação de Francisco, Ratzinger se recolheu em um mosteiro no Vaticano, onde permaneceu até seu falecimento. Nos últimos anos, o papa emérito continuava recebendo visitas, apesar das dificuldades de saúde; imagens recentes mostravam-no em cadeira de rodas, evidenciando sua fragilidade.
Primeiro papa alemão em quase 500 anos
Bento XVI foi reconhecido como um grande papa teólogo. Suas ações e discursos revelavam uma adesão profunda à tradição e aos ensinamentos milenares da Igreja. Contudo, sua autoridade teológica não o poupou de críticas, especialmente em função de seu envolvimento, ainda que indireto, nos escândalos de abusos cometidos por membros da Igreja Católica na Alemanha. Um relatório investigativo apontou para sua má conduta em quatro casos, evidenciando que falhas na administração arquidiocesana de Munique, onde atuou como arcebispo entre 1977 e 1982, possibilitaram a ação continuada de agressores.
Bento XVI não apenas escreveu um capítulo na história eclesiástica ao renunciar ao papado, mas também buscou um diálogo entre razão e fé e a revalorização da religião na modernidade. Sua origem alemã, vinda de uma nação historicamente marcada pela Reforma Protestante e pela Segunda Guerra Mundial, conferiu um significado adicional à sua figura como líder católico.
Do interior da Baviera a Roma
“Os senhores cardeais me elegeram: um simples e humilde trabalhador na vinha do Senhor” – com essas palavras, em 19 de abril de 2005, o cardeal Joseph Ratzinger surgiu na varanda da Basílica de São Pedro, após um breve conclave. Bento XVI foi um papa conservador que, ocasionalmente, surpreendia ao combinar a devoção de suas origens com a erudição acadêmica, diferenciando-se do estilo rigoroso que marcara sua atuação na Cúria Romana.
Como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Ratzinger era o guardião da ortodoxia. Em temas como o magistério e o papel da mulher, ele manteve-se inflexível, ganhando o apelido de “Panzerkardinal” (“cardeal tanque de guerra”) por sua defesa das tradições da Igreja.
Conservadorismo e algumas surpresas
Sua eleição gerou entusiasmo e orgulho na Alemanha. O tabloide local anunciou “Somos papa”, embora houvesse receios quanto à sua idade avançada e visão conservadora. Seu pontificado, embora breve, foi uma fase de transição. Ratzinger nomeou mais da metade dos cardeais que participariam da eleição de seu sucessor, Francisco, em 2013.
Bento XVI enfatizou repetidamente a primazia da Igreja Católica e sua visão de ser a única Igreja verdadeira, o que suscitou resistência dos protestantes, incomodados por serem tratados como uma “igreja de segunda classe”. Em sua tentativa de reconciliação com tradicionalistas, como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Bento XVI procurou evitar uma cisão duradoura na Igreja, sem, contudo, obter sucesso.
Além disso, Bento XVI foi criticado por seu relacionamento com outras religiões. Em seu discurso em Regensburg, em 2006, uma citação sobre o profeta Maomé gerou indignação no mundo islâmico, ainda que tenha impulsionado o diálogo cristão-muçulmano. A reação, porém, revelou a complexidade de seu papel de líder em uma Igreja cada vez mais global.
Sombras sobre um pontificado breve
O escândalo dos abusos sexuais de menores pesou sobre o pontificado de Bento XVI. A resposta da Igreja foi amplamente criticada por sua lentidão, transferindo sacerdotes agressores entre paróquias e tentando encobrir os crimes. Bento XVI buscou reparar os danos, encontrando-se com vítimas em várias viagens e endurecendo as normas para a formação de novos padres. Contudo, sob seu sucessor, Francisco, a Igreja aprofundaria sua investigação sobre esses casos.
Outro episódio crítico foi o “Vati-Leaks”, em 2012, no qual documentos internos foram vazados por seu camareiro, Paolo Gabriele. A traição abalou Bento XVI, evidenciando a fragilidade do aparato vaticano. Sua renúncia foi vista como um gesto de responsabilidade e autoconsciência, humanizando a imagem do papado.
Últimos anos e legado
Após renunciar, Bento XVI manteve um papel discreto, mas suas declarações ocasionais atraíam atenção. Em 2020, viajou à Alemanha para despedir-se de seu irmão Georg, em uma última visita à sua terra natal. As imagens revelavam um homem debilitado pela idade, mas ainda espiritualmente ativo.
Em 2022, um relatório jurídico trouxe novas acusações sobre sua atuação em casos de abuso, desgastando ainda mais sua reputação. Bento XVI defendeu-se, mas especialistas questionaram pontos cruciais de seu testemunho, o que gerou críticas.
Na memória coletiva, Bento XVI permanece como uma figura complexa, que alternou entre a tradição e a modernidade, marcado por um papado de transição e um legado de desafios.
Resumo Biográfico
A Vida e Legado de Bento XVI: A Trajetória de Joseph Ratzinger
Joseph Ratzinger, conhecido como Bento XVI, nasceu em 16 de abril de 1927, em Marktl am Inn, na Alemanha, e se destacou como uma figura central na Igreja Católica ao longo do século XX e início do XXI. Nomeado Cardeal em 1977 e Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981, Ratzinger foi Decano do Colégio Cardinalício a partir de 2002, desempenhando um papel vital na teologia e na governança da Igreja.
Filho de um comissário de polícia e de uma mãe que trabalhava como cozinheira, Ratzinger teve uma infância marcada por dificuldades econômicas, em um ambiente onde a fé e os valores cristãos foram fundamentais. Sua juventude foi marcada pela ascensão do regime nazista, experiência que moldou seu pensamento teológico e a sua compreensão do papel da Igreja em tempos de crise. Ele recordou momentos de grande hostilidade à Igreja, como a agressão ao seu pároco, e encontrou na fé uma fonte de esperança e resiliência.
Ratzinger ingressou na Escola Superior de Filosofia e Teologia de Frisinga e na Universidade de Munique, onde se destacou em filosofia e teologia, sendo ordenado sacerdote em 29 de junho de 1951. Ele começou sua carreira acadêmica na Escola de Frisinga e, ao longo de sua trajetória, lecionou em diversas universidades, incluindo Bonn e Ratisbona. Suas publicações, como “Introdução ao Cristianismo” (1968) e “Relatório sobre a fé” (1985), tornaram-se referência para estudiosos e praticantes da teologia.
A experiência no Concílio Vaticano II foi fundamental na formação de sua visão teológica, e sua nomeação como Arcebispo de Munique e Frisinga em 1977 e, posteriormente, como Cardeal, consolidou sua posição na hierarquia da Igreja. Durante sua atuação no Sínodo dos Bispos, Ratzinger abordou temas cruciais relacionados à família e à modernidade, enfatizando a importância do matrimônio e a dignidade da mulher.
Nomeado Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé por João Paulo II em 1981, Ratzinger se destacou pela defesa da doutrina católica e pela preparação do Catecismo da Igreja Católica. Sua contribuição foi significativa, tanto na formulação de respostas a questões contemporâneas quanto na articulação de um diálogo profundo sobre a fé e a moral. O seu trabalho na Igreja foi reconhecido e, em 2005, ele foi eleito Papa, adotando o nome Bento XVI.
Durante o seu papado, Bento XVI enfrentou desafios significativos, incluindo a crise de abusos sexuais dentro da Igreja, e promoveu um discurso que enfatizava a necessidade de renovação espiritual e a importância da fé em um mundo cada vez mais secular. Sua abordagem teológica foi marcada por um chamado à reconciliação e ao diálogo, tanto dentro da Igreja quanto com outras tradições religiosas.
Bento XVI também ficou conhecido por suas reflexões profundas sobre a relação entre a fé e a razão, assim como pelo seu apelo à solidariedade e à paz em um mundo repleto de conflitos. Sua mensagem enfatizava a importância do amor e da compaixão, inspirando muitos ao redor do mundo.
Após renunciar ao papado em 2013, Bento XVI se retirou, mas continuou a ser uma voz respeitada dentro da Igreja. Sua vida e obra permanecem um testemunho do compromisso com a verdade e com a fé, influenciando gerações futuras de católicos e pensadores.
*Com informações da RFI e de Christoph Strack, do DW.

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Por motivos de saúde, Papa Bento XVI vai renunciar ao pontificado no dia 28 de fevereiro de 2013
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