Anatomia do ódio entre nações: um panorama histórico e sociopolítico sob a perspectiva do escritor Joaci Góes

Publicado em 19 de setembro de 2024 no Jornal Tribuna da Bahia, o artigo “Anatomia do ódio entre nações, 2”, de autoria de Joaci Góes, explora o desenvolvimento de identidades nacionais ao longo dos séculos, e como essas formações resultaram em conflitos, tensões étnicas e movimentos de exclusão social e política. A análise se concentra nos casos da Alemanha, Áustria, Itália, Grécia e Estados Unidos.

Ao longo da Idade Média, a construção da identidade alemã baseava-se principalmente na unidade linguística, um fator que desempenhou papel central na formação do sentimento de pertencimento da população. Como descrito por Joaci Góes em seu artigo, esse sentimento evoluiu para um conceito mais abrangente: o Volkgeist, ou “espírito do povo”, que buscava reunir diferentes povos sob uma ideia comum de nação. No entanto, o nacionalismo alemão, em sua forma extrema, contribuiu diretamente para o surgimento de dois dos maiores conflitos globais da história moderna: as duas guerras mundiais. Góes enfatiza que, na Segunda Guerra Mundial, o nacionalismo alemão levou ao Holocausto, um genocídio que visava a eliminação completa do povo judeu. A palavra genocídio, que se originou em 1944 pelas mãos de Raphael Sinkim, foi uma tentativa de definir e nomear a brutalidade que não visava nenhum outro objetivo além do extermínio puro.

A intolerância étnica e o direito à cidadania

Além dos horrores do Holocausto, o artigo aponta que o nacionalismo alemão ressurgiu de forma intolerante durante os anos 1990, em atos de violência contra imigrantes e exilados políticos que buscaram refúgio na Alemanha. Trabalhadores estrangeiros, como gregos, espanhóis, turcos e italianos, desempenharam papéis fundamentais na reconstrução econômica do país no pós-guerra, no que ficou conhecido como o “milagre econômico”. Apesar disso, descendentes de trabalhadores imigrantes nascidos e educados na Alemanha continuaram a enfrentar obstáculos para obter a cidadania, sendo excluídos sob o argumento de não pertencerem à etnicidade germânica.

Góes aponta que o tratamento diferenciado entre esses descendentes e os saxões, que possuem cidadania garantida independentemente de sua relação com a cultura alemã, representa um processo de exclusão comparável às narrativas de Kafka, onde o indivíduo enfrenta uma luta burocrática interminável.

A análise também abrange a complexidade histórica da Áustria e da Alemanha, e o impacto da fusão entre os dois países em 1938, após a dissolução do Império Austro-Húngaro em 1918. Góes revela como as fronteiras nacionais da Europa se transformaram ao longo dos séculos, muitas vezes por meio de conflitos violentos e acordos políticos, moldando as identidades nacionais que conhecemos hoje.

A unificação da Itália e da Grécia: lutas por identidade nacional

A formação da identidade nacional italiana é outro ponto de reflexão no texto de Joaci Góes. A Itália, tal como a conhecemos hoje, emergiu como um estado-nação unificado apenas no século XIX, após a união de diversas regiões e reinos, como a Sicília, Nápoles e Veneza. Contudo, o autor destaca que, no momento da unificação, apenas 10% da população falava o italiano, ilustrando a diversidade linguística e cultural que permeava o país. Garibaldi, que desempenhou um papel crucial na unificação italiana, é descrito no artigo como um personagem com ligações internacionais, tendo nascido na França e se casado com a brasileira Anita.

A Grécia, outro país mencionado no artigo, teve uma trajetória semelhante. Após sua dissolução pelo Império Romano antes da era cristã, o renascimento da nação grega ocorreu no século XIX, quando a Grécia conseguiu se libertar do domínio otomano e reestabelecer sua identidade nacional.

Estados Unidos: a contradição entre ecumenismo e exclusão racial

Os Estados Unidos, uma das nações mais antigas da era moderna, representam um exemplo peculiar de como a construção de uma identidade nacional pode abrigar contradições profundas. Embora o país tenha sido fundado com base em princípios de liberdade e inclusão, o racismo e a exclusão social sempre fizeram parte de sua história.

Joaci Góes explora a ascensão da Ku Klux Klan, uma organização fundada após a Guerra Civil Americana, cujo objetivo era perpetuar a supremacia branca e combater a influência de judeus, católicos e imigrantes. A KKK atingiu seu auge na década de 1920, com milhões de membros espalhados por vários estados americanos, incluindo Califórnia, Ohio e Texas.

O autor também faz um paralelo entre o nativismo da Ku Klux Klan e o movimento anticomunista liderado por Joseph McCarthy nos anos 1950. Ambos os movimentos foram alimentados por um sentimento de superioridade racial e uma crença na pureza do nacionalismo americano. No entanto, enquanto a KKK emergiu de trabalhadores protestantes anglo-saxões, o macarthismo foi apoiado por imigrantes recém-assimilados, muitos dos quais eram católicos.

O impacto contínuo das narrativas de exclusão

A análise de Joaci Góes sobre o ódio entre nações oferece uma visão abrangente de como o nacionalismo e a intolerância étnica moldaram a história política e social do mundo. A exclusão com base em etnicidade, raça ou religião continua a ser uma força poderosa em muitas sociedades, mesmo naquelas que se orgulham de seus princípios democráticos e inclusivos.

O artigo de Góes nos lembra de que a luta pela igualdade e pela justiça social é um processo contínuo, muitas vezes desafiado por forças que buscam perpetuar divisões.


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