O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que se encontra em Nova York para participar da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), teve que cancelar sua participação em um evento promovido pela Fundação Clinton após um desentendimento com seguranças do governo norte-americano. O incidente ocorreu na noite de segunda-feira (23/09/2024), e foi noticiado pelo jornal Folha de S.Paulo. Segundo a publicação, a segurança do hotel onde o evento ocorria foi reforçada após a chegada inesperada do presidente dos Estados Unidos, Joe Biden. Em consequência, parte da equipe de Lula foi impedida de entrar no evento, e o próprio presidente brasileiro não conseguiu acessar a área restrita dos convidados, conforme havia sido acordado anteriormente.
Frustrado com a situação, Lula optou por deixar o local e expressou sua insatisfação em relação à abordagem dos seguranças norte-americanos, a qual classificou como “truculência”. A sua presença em Nova York se deve à abertura da Assembleia Geral da ONU, programada para o dia seguinte, na qual o presidente brasileiro seria um dos oradores principais.
Além do ocorrido no evento da Fundação Clinton, Lula também participou de uma premiação da iniciativa Goalkeepers, promovida pela Fundação Bill e Melinda Gates. Durante seu discurso, o presidente destacou a questão do combate à fome, ressaltando a inconcebibilidade de crianças irem para a cama sem comer em um mundo com avanços tecnológicos significativos.
“A fome não é um fenômeno da natureza, a fome é irresponsabilidade dos governantes do mundo que não querem enxergar as pessoas mais pobres”, afirmou.
Em sua fala, Lula também criticou a atuação da ONU, mencionando que, se a organização funcionasse adequadamente, teria contribuído para a criação de um Estado palestino, assim como fez com Israel. Ele expressou preocupação com os conflitos globais e reiterou que o atual formato do Conselho de Segurança da ONU, dominado por cinco países, não é adequado, defendendo a inclusão de nações do Sul Global na tomada de decisões.
Lula realiza encontros bilaterais com líderes internacionais em Nova York
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteve encontros bilaterais com o presidente da França, Emmanuel Macron, e com o Rei Abdullah II da Jordânia, em Nova York, durante a 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na reunião com Macron, realizada nesta terça-feira, 24 de setembro, os dois líderes discutiram temas relevantes como cooperação nas áreas industrial e de defesa, além da questão dos vistos na fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa. O diálogo também incluiu a celebração do Ano do Brasil na França e do Ano da França no Brasil em 2025, que marcará os 200 anos de relações diplomáticas entre os países.
Os presidentes também abordaram o conflito na Ucrânia e as respectivas implicações para a região, a situação da Venezuela e as possibilidades de cooperação com o Haiti, no que diz respeito à segurança e ao desenvolvimento. Esses temas refletem a preocupação dos dois países com a estabilidade e a segurança na América Latina e no Caribe.
Na mesma manhã, Lula se encontrou com o Rei Abdullah II da Jordânia, com o conflito no Oriente Médio como tema central da conversa. A crise humanitária decorrente da guerra entre Israel e a Faixa de Gaza, assim como a situação no Líbano, foram tópicos discutidos entre os líderes, evidenciando a preocupação mútua com a instabilidade na região e suas consequências humanitárias.
Na abertura da Assembleia Geral da ONU, Lula se tornou o primeiro chefe de Estado a discursar, ocasião em que afirmou que o Brasil não tolerará crimes ambientais, prometendo o fim do desmatamento ilegal até 2030. Durante um evento paralelo em defesa da democracia, o presidente criticou a erosão da confiança no regime democrático, atribuída à exploração capitalista crescente, que, segundo ele, proporciona espaço para o extremismo e forças totalitárias.
Lula critica a democracia liberal e defende a luta contra o extremismo em evento da ONU
Horas após seu discurso de abertura no debate de chefes de Estado da 79ª Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participou de um evento paralelo intitulado “Em defesa da democracia: lutando contra o extremismo”, organizado em conjunto com o presidente do Governo da Espanha, Pedro Sánchez. Durante o evento, Lula apresentou uma análise sobre a fragilidade do regime democrático contemporâneo, enfatizando o impacto negativo da exploração capitalista, que, segundo ele, abre espaço para o crescimento de movimentos extremistas e forças totalitárias.
Lula afirmou que a democracia liberal se revelou insuficiente e não atendeu às expectativas de milhões de pessoas, descrevendo-a como um mero ritual que se repete a cada quatro ou cinco anos. Ele argumentou que um modelo que favorece o grande capital e negligencia os trabalhadores não pode ser considerado democrático. O presidente brasileiro criticou o sistema por privilegiar determinados grupos, como os homens brancos, enquanto falha em atender às necessidades de mulheres negras, chamando a desigualdade extrema entre ricos e pobres no século XXI de uma condição que favorece a ascensão do totalitarismo. Lula defendeu a importância de restabelecer a democracia como um caminho eficaz para a conquista e a efetivação de direitos.
O evento contou com a presença de diversas figuras de destaque, incluindo os presidentes da França, Emmanuel Macron; de Cabo Verde, José Maria Neves; do Chile, Gabriel Boric; e do Conselho Europeu, Charles Michel. Também estiveram presentes os primeiros-ministros do Canadá, Justin Trudeau; de Timor Leste, Xanana Gusmão; e de Barbados, Mia Motley, além de representantes da Noruega, Colômbia, Quênia, México, Estados Unidos, Senegal e da ONU.
Em seu discurso, Pedro Sánchez, coanfitrião do evento, abordou a desestabilização promovida por redes digitais e apresentou um plano para fortalecer a democracia. Ele ressaltou a necessidade de promover a transparência e a responsabilidade nas comunicações e plataformas digitais, especialmente no que se refere ao uso da inteligência artificial. Sánchez mencionou a aprovação de um plano de ação pela democracia na Espanha, que visa melhorar a qualidade da informação e aumentar a transparência sobre os proprietários dos meios de comunicação.
Embora tenha criticado o capitalismo, Lula afirmou que não é sua intenção eliminar o livre mercado, mas sim recuperar o papel do Estado como planejador do desenvolvimento sustentável e garantidor do bem-estar e da equidade. Ele destacou que a liberdade de expressão é central em uma democracia plena, mas não deve ser absoluta. Lula defendeu a regulação das redes sociais como uma medida necessária para conter a propagação de discursos que fomentam a opressão. Ele alertou que as tecnologias digitais podem tanto promover o conhecimento quanto exacerbar os riscos à convivência civilizada, citando a propagação de discursos de ódio que afetam diariamente diversas comunidades.
A primeira-ministra de Barbados, Mia Motley, expressou preocupação com a necessidade de agir preventivamente para evitar novos conflitos globais, reconhecendo que o sistema democrático, mesmo com suas falhas, é o melhor modelo disponível. Lula e Sánchez concordaram que o encontro marca o início de uma série de atividades voltadas à defesa da democracia e ao combate ao extremismo.
Os líderes presentes enfatizaram que os movimentos extremistas promovem o discurso de ódio e a polarização, o que compromete o diálogo cívico e ameaça a coesão social. O presidente de Cabo Verde, José Maria Neves, afirmou que esses grupos buscam minar a confiança dos cidadãos nas instituições que garantem as liberdades e o Estado de Direito. O presidente do Chile, Gabriel Boric, enfatizou que líderes progressistas devem condenar o autoritarismo independentemente de sua origem ideológica, mencionando casos como os da Venezuela, Israel, Nicarágua e Rússia. Ele defendeu a necessidade de uma posição unificada entre os países progressistas na defesa dos princípios democráticos.
*Com informações da Sputnik News e Agência Brasil.









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