A persistência do nacionalismo em tempos de globalização é abordada pelo escritor Joaci Góes 

No artigo “Anatomia do ódio entre nações”, publicado na Tribuna da Bahia em 24 de outubro de 2024, Joaci Góes analisa o nacionalismo e seu impacto histórico, destacando suas contradições e persistência em um mundo cada vez mais globalizado. Embora muitos intelectuais, como Isaiah Berlin e Eric Hobsbawn, tenham previsto o declínio do nacionalismo, argumentando que ele é incompatível com o progresso e a integração global, o fenômeno continua a se manifestar em diferentes partes do mundo, desafiando essa visão.

O autor explora a origem do nacionalismo e sua função ao longo da história, lembrando que, no século XVIII, Samuel Johnson classificou o nacionalismo como “o recurso dos canalhas”. Ao mesmo tempo, Góes aponta que, embora seja frequentemente criticado, o nacionalismo foi útil no contexto da emancipação das colônias europeias após a Segunda Guerra Mundial. Movimentos de independência em países da Ásia e da África se basearam em ideais nacionalistas para romper com o domínio colonial, apesar de os resultados, na maioria dos casos, não terem correspondido às expectativas de progresso e desenvolvimento esperados.

Um dos principais argumentos do artigo é a contradição entre o internacionalismo, que visa a integração global, e o nacionalismo, que se baseia na divisão entre “nós” e “eles”. Góes lembra que, mesmo diante de uma tendência crescente de globalização, conflitos recentes, como os da antiga Iugoslávia, demonstram que o nacionalismo ainda provoca violência e divisões, longe de ser uma “aberração” em extinção, como acreditavam Berlin e Hobsbawn.

Além disso, o autor menciona a visão de pensadores como Ernest Gellner, que enxergam o nacionalismo como uma resposta às necessidades de organização das sociedades modernas, especialmente no que diz respeito à educação e à divisão do trabalho. Para Gellner, o nacionalismo não desaparecerá completamente, mas perderá sua virulência com o tempo.

Góes também aborda o papel da Revolução Francesa na formação do pensamento nacionalista, inspirado pelas ideias de Rousseau e outros pensadores iluministas. A crença romântica na pureza do homem natural, idealizada a partir da figura do índio brasileiro, influenciou o pensamento europeu e ajudou a moldar os ideais nacionalistas que emergiriam nos séculos seguintes. No entanto, o autor destaca que essa idealização não se concretizou na realidade dos países que se libertaram do colonialismo.

Ao final, Joaci Góes questiona se o estudo da história realmente nos torna mais sábios ou apenas mais tristes, refletindo sobre os erros repetidos ao longo do tempo. Ele conclui que, embora o nacionalismo tenha desempenhado um papel importante em várias etapas da história, seus efeitos continuam a ser problemáticos, especialmente em contextos de conflito e intolerância.


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