Com o colapso da União Soviética, surgiram movimentos nacionalistas nos países dos Bálcãs e no Leste Europeu, marcando uma ruptura com a ordem geopolítica que, por décadas, manteve essas nações sob controle político e territorial, conforme observa Joaci Góes em sua análise “Anatomia do Ódio entre as Nações” (Tribuna da Bahia, 31 de outubro de 2024). Góes destaca que esse despertar de identidades reprimidas alimenta ressentimentos profundos, os quais continuam a influenciar conflitos atuais em escala global.
Na avaliação de Joaci Góes, um dos componentes principais desses conflitos é o ressentimento. Para ele, é a ausência de uma identidade sólida, combinada com sentimentos de fraqueza, que muitas vezes motiva nações a adotar posições antiamericanas, como ocorre em países da América Central (Panamá, Costa Rica, Honduras, El Salvador e Guatemala). Esse ressentimento, sugere Góes, leva a uma rejeição das influências dos Estados Unidos, mais como uma expressão de resistência do que como uma afirmação de uma identidade nacional forte.
Góes explora como o século XX foi marcado por guerras cujas causas estão associadas a nacionalismos exacerbados. O autor cita exemplos históricos para ilustrar sua análise: a Primeira Guerra Mundial teve origem no nacionalismo sérvio; a Segunda, no desejo germânico de restaurar seu império e expandir suas fronteiras; enquanto o nacionalismo britânico refletia seu domínio marítimo e fomentava a divisão da Europa continental. O nacionalismo francês, por sua vez, buscava vingança territorial ao reivindicar a Alsácia e a Lorena. Outros casos emblemáticos de tensões nacionalistas incluem a invasão do Kuwait pelo Iraque sob o regime de Saddam Hussein e os movimentos palestino e israelense, com cada lado defendendo suas respectivas reivindicações territoriais e históricas.
Em sua análise, Joaci Góes destaca um ponto central: o perigo do nacionalismo reside na crença de que a busca pela identidade nacional justifica o sofrimento de outros povos. “O nacionalismo visa alcançar a vitória de povos sobre outros povos, enquanto o internacionalismo democrático conduz ao avanço e à paz entre as civilizações”, afirma Góes. Em sua visão, a democracia oferece o antídoto necessário para mitigar o ódio nacionalista. Ele observa que, embora o mundo ainda enfrente conflitos e divisões, a tendência global é de uma crescente desaprovação da violência, embora muitas vezes sua manifestação ainda seja legitimada em determinados contextos, como se vê nas atuais disputas entre Rússia e Ucrânia, ou nos conflitos que envolvem Palestina e Israel.
O autor também reflete sobre o papel do Brasil na geopolítica atual, avaliando que o país, em lugar de adotar uma postura vantajosa frente às disputas globais, escolhe uma posição de alinhamento com potências autoritárias como Rússia e China. Para Joaci Góes, essa postura “suja” do Brasil reflete um apelo eleitoreiro voltado para uma ala esquerda interna, em vez de adotar uma posição construtiva e alinhada aos valores democráticos do Ocidente, liderado pelos Estados Unidos e Europa.
Além do cenário externo, Góes também aborda desafios locais. Em sua análise, ele aponta que a Bahia exemplifica uma situação de “atraso” no que diz respeito a índices de qualidade de vida, como saúde, educação, segurança e liberdade de expressão. Como exemplo, ele menciona uma tentativa recente da Secretaria de Cultura de restringir o financiamento ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB), com o intuito de limitar o acesso ao programa cultural da instituição. A reação da sociedade civil, contribuindo financeiramente para apoiar o IGHB, é interpretada por Góes como uma demonstração de resistência ao que considera um “despotismo”, ecoando o espírito do Hino da Independência: “Nunca mais, nunca mais o despotismo, regerá, regerá nossas ações”.









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