Ex-ministro Mangabeira Unger defende ruptura com modelo econômico atual e diálogo político amplo para futuro do Brasil

Ex-ministro Mangabeira Unger sugere que, para romper com décadas de estagnação, o Brasil deve superar tabus políticos e adotar um projeto produtivista baseado na capacitação nacional e no diálogo amplo.
Ex-ministro Mangabeira Unger sugere que, para romper com décadas de estagnação, o Brasil deve superar tabus políticos e adotar um projeto produtivista baseado na capacitação nacional e no diálogo amplo.

Roberto Mangabeira Unger, filósofo e professor de longa data em Harvard, além de ex-ministro de Assuntos Estratégicos dos governos Lula e Dilma, é uma figura que desafia consensos. Aos 77 anos, Unger segue articulando ideias sobre o futuro do Brasil, desta vez em uma entrevista concedida a Letícia Mori, da BBC News Brasil, publicada em 17 de junho de 2024.

A conversa explora sua crítica à convergência programática entre Lula e Bolsonaro, sua visão de um projeto nacional produtivista e suas controvérsias políticas, incluindo o recente contato com Jair Bolsonaro e o questionamento sobre a atuação de figuras como Marina Silva. A seguir, os principais temas abordados e as ideias do ex-ministro, com destaque para suas frases emblemáticas.

Crítica ao modelo econômico atual

Mangabeira Unger argumenta que o Brasil vive uma estagnação provocada por um consenso econômico nocivo. Ele critica o que chama de “rentismo financeiro” e “rentismo social”.

  • Rentismo financeiro: O modelo de superávits e juros altos, segundo Unger, reflete uma dependência do mercado financeiro que impede o Brasil de ousar no desenvolvimento. Ele afirma:

    “Fazemos o que os financistas querem, privilegiando a política de superávits e dos juros altos […] Nenhum país na história moderna do mundo se desenvolveu dessa forma.”

  • Rentismo social: Ele reconhece a importância das transferências assistenciais, mas as critica como insuficientes:

    “Há uma diferença entre uma política de transferência que está a serviço do desenvolvimento das capacidades econômicas e uma política assistencial que é o fim em si mesma.”

Como solução, Unger defende que o Brasil mobilize instrumentos como bancos públicos e entidades técnicas (Embrapa, Sebrae, Senai) para qualificar o aparato produtivo e desenvolver uma economia baseada no conhecimento.

Polarização política e consenso programático

Segundo Unger, a polarização política entre Lula e Bolsonaro é ilusória, já que ambos compartilham o mesmo modelo econômico. Ele sugere que essa polarização tem como objetivo mascarar a falta de alternativas reais:

“O problema não é a polarização política. O problema é usar a polarização política para esconder o consenso.”

Unger acredita que a saída está em um projeto produtivista e capacitador, rompendo com a lógica assistencial e financista.

Diálogo amplo: a busca por consensos produtivos

Para Unger, “ninguém é inconversável”. Sua recente iniciativa de dialogar com Jair Bolsonaro reflete essa crença:

“O primeiríssimo passo para construir essa alternativa produtivista é recusarmos os tabus que nos impedem de conversar uns com os outros.”

Ele argumenta que as forças políticas existentes, como Lula e Bolsonaro, devem ser tratadas como realidades a serem trabalhadas e transformadas.

Alternativas eleitorais para 2026

Sobre o futuro político do Brasil, Unger defende que Lula deve abdicar de uma reeleição e preparar sucessores. Ele cita o nome de Rafael Fonteles, governador do Piauí, como uma possível liderança com capacidade de abraçar um projeto de desenvolvimento sustentável.

Em relação a Bolsonaro, que considera inelegível, Unger sugere que ele apoie alguém fora de seu círculo íntimo, como Tarcísio de Freitas ou Ronaldo Caiado.

“Quanto mais longe do círculo íntimo, maior a chance de ganhar e maior a chance de resolver o nosso problema nacional.”

Conflito com Marina Silva e a visão sobre a Amazônia

Mangabeira também revisitou os atritos com Marina Silva durante sua gestão na Secretaria de Assuntos Estratégicos, criticando o projeto ambiental da ministra como uma “fantasia ideológica”. Segundo ele, a sustentabilidade deve ser compatível com o desenvolvimento produtivo e econômico do país.

A minoria evangélica e o diálogo social

Outro tema destacado por Unger é a necessidade de incorporar a “grande minoria evangélica” no projeto nacional. Ele descreve os evangélicos como participantes de uma “pequena burguesia subjetiva”, cujos valores e aspirações devem ser compreendidos e integrados:

“Nós não vamos poder construir o país contra essa minoria. Temos que lhe oferecer alternativas.”

Reforma da elite nacional e mobilização da sociedade

Para superar os desafios históricos do Brasil, Unger propõe a formação de uma “contra-elite”, dissidente da elite rentista predominante, que possa liderar um projeto nacional capaz de engajar a maioria popular. Ele enfatiza que o desenvolvimento deve incluir capacitação e alternativas econômicas para a população.

*Com informações da BBC Brasil.


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