Domingo (04/05/2025) — As tarifas de 25% impostas pelo governo dos Estados Unidos à importação de aço, sob a liderança do presidente Donald Trump, provocaram uma reconfiguração do comércio internacional do setor. Em entrevista concedida à revista VEJA, o presidente da Gerdau, Gustavo Werneck, destacou os impactos da política protecionista norte-americana, ao mesmo tempo em que criticou a concorrência desleal promovida pelo Estado chinês no mercado brasileiro. Segundo Werneck, a situação compromete a viabilidade da indústria nacional e ameaça futuros investimentos no país.
Nos últimos anos, a participação do aço importado da China no mercado interno brasileiro subiu de 10% para 25%, mesmo após a adoção de cotas e tarifas pelo governo brasileiro em 2024. Werneck afirma que a medida não surtiu efeito, pois o excedente da produção chinesa, fortemente subsidiado, continua inundando o mercado. Segundo ele, a China tem um excedente de 400 milhões de toneladas de vergalhão — o tipo mais utilizado na construção civil — o que representa uma ameaça direta à produção nacional.
A Gerdau, com presença há mais de 30 anos nos Estados Unidos, opera atualmente com 30% de capacidade ociosa no território norte-americano, o que lhe permite ampliar a produção local com agilidade, sem grandes investimentos adicionais. Werneck reconhece que a empresa pode se beneficiar das políticas de incentivo à produção interna adotadas por Trump, enquanto a insegurança regulatória, o desmonte da reforma trabalhista e a complexidade tributária no Brasil freiam novos aportes.
“Se o Brasil continuar criando cada vez mais dificuldades para as empresas, vamos buscar outros lugares para investir”, afirmou Werneck.
Falhas na proteção comercial e guerra entre setores industriais
Werneck denuncia que, no Brasil, a defesa comercial não é coordenada entre os setores produtivos, o que gera disputas internas e fragilidade institucional. Enquanto outros países articulam toda a cadeia para defender suas indústrias, no Brasil há resistência entre segmentos como o de máquinas e equipamentos, que, segundo ele, enxergam erroneamente o aumento de tarifas como prejudicial.
Entradas estratégicas do aço importado: brechas e isenções
O presidente da Gerdau listou três principais vias pelas quais o aço importado penetra o mercado nacional com isenção ou tributação reduzida:
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Zona Franca de Manaus, que registrou aumento na entrada de aço sem correspondente crescimento industrial local.
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Acordo bilateral com o Egito, que permite tarifa reduzida mesmo sem comprovação de origem.
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Isenção de ICMS em Santa Catarina, favorecendo importações frente à produção nacional.
Críticas ao sistema de investigação de dumping e aos custos operacionais
O executivo também criticou a lentidão dos processos de investigação de dumping no Brasil, que podem levar até três anos para conclusão. Enquanto isso, o aço chinês continua entrando a preços abaixo do custo de produção local. Ele defende tarifas maiores para importações da China e mecanismos ágeis de resposta comercial.
Em relação aos preços, Werneck esclareceu que as siderúrgicas não têm interesse em usar as tarifas como justificativa para aumento de preços, destacando que o país adota regime de livre mercado. A preocupação da Gerdau, segundo ele, é com a diluição de custos fixos de unidades paralisadas.
Investimentos travados e infraestrutura estagnada
A Gerdau anunciou investimentos de R$ 6 bilhões para 2025, mas Werneck adverte que os aportes poderão ser revistos caso não haja proteção efetiva à indústria nacional. A empresa inaugurou recentemente uma nova planta em Minas Gerais, resultado de projeto iniciado há quatro anos, mas enfrenta falta de demanda interna.
O caso da Gerdau Summit, empresa criada para fornecer aço à indústria de energia eólica, foi citado como exemplo de políticas públicas não concretizadas: apesar do incentivo ao setor, a produção de equipamentos cessou e a unidade permanece sem compradores.
Estrutura tributária e custos energéticos comprometem competitividade
A disparidade de estrutura entre as operações da Gerdau no Brasil e nos EUA também foi abordada. Enquanto nos Estados Unidos a área tributária da empresa tem três funcionários, no Brasil são 123 profissionais dedicados apenas à área fiscal, devido à complexidade do sistema. Além disso, o custo do gás natural no Brasil é quatro vezes maior do que o praticado nos EUA, segundo o executivo.
Cenário de incerteza e alerta para o futuro da indústria nacional
Werneck conclui a entrevista com uma avaliação pessimista do cenário brasileiro. Segundo ele, nenhum dos setores industriais onde a Gerdau atua apresenta desenvolvimento claro, e a perspectiva de desindustrialização se torna cada vez mais concreta.
“Estamos mais preocupados do que nunca com o futuro da indústria brasileira”, resumiu o presidente da Gerdau.
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