Crise entre Brasil e EUA: Tarifa de Trump, reação do Senado, resposta de Lula e risco de guerra comercial elevam tensão diplomática

Sexta-feira (25/07/2025) — Um grupo de 11 senadores democratas dos Estados Unidos encaminhou uma carta oficial ao presidente Donald Trump acusando-o de “claro abuso de poder” ao vincular tarifas de 50% sobre produtos brasileiros a interesses pessoais, em especial, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na carta, os parlamentares alertam que a decisão coloca em risco os interesses econômicos americanos e pode aproximar o Brasil da China, em prejuízo à estratégia geopolítica dos EUA na América Latina.

“Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação”, afirmam os senadores.

Os parlamentares destacam ainda que o comércio com o Brasil sustenta cerca de 130 mil empregos nos EUA e que retaliações tarifárias podem afetar diretamente consumidores e exportadores americanos.

Haddad orienta empresas a acionar Justiça americana

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, declarou que o governo está recomendando que empresas brasileiras processem os EUA em tribunais americanos, com base na legislação interna dos Estados Unidos, para contestar o tarifaço.

Em entrevista à Rádio Itatiaia, Haddad informou que um plano de contingência está sendo elaborado para apoiar setores produtivos impactados. Entre as medidas estudadas estão linhas de crédito emergenciais, incentivos fiscais e apoio à exportação.

“O governo americano está cometendo um erro que prejudica seus próprios consumidores. Essa medida afeta mais de 10 mil empresas brasileiras e desorganiza cadeias globais importantes”, reforçou o ministro.

Lula: tarifa é chantagem e viola soberania nacional

Durante evento em Minas Novas (MG), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou duramente a tarifa imposta por Trump, chamando-a de “chantagem inaceitável” e denunciando tentativa de ingerência externa sobre a Justiça brasileira.

“Trump mandou uma carta pedindo para pararem de perseguir Bolsonaro. Isso é um desaforo desrespeitoso com o Brasil e a nossa soberania jurídica”, afirmou Lula.

O presidente ainda acusou aliados de Bolsonaro de dificultarem o diálogo diplomático com Washington. Segundo Lula, o Brasil está pronto para negociar, mas não aceita imposições.

Brasil denuncia violação na OMC e recebe apoio internacional

Durante reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), o diplomata Philip Fox-Drummond Gough, do Itamaraty, denunciou a tarifa americana como violação das regras multilaterais do comércio internacional.

“Tarifas unilaterais e arbitrárias desorganizam as cadeias de valor e colocam a economia global em risco”, disse o diplomata.

A manifestação brasileira obteve apoio formal de cerca de 40 países, incluindo União Europeia, China, Rússia, Índia e Canadá, que consideram as medidas dos EUA uma afronta ao sistema baseado em regras.

Crescimento dos investimentos brasileiros nos EUA amplia tensão

Segundo estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), os investimentos produtivos brasileiros nos Estados Unidos atingiram US$ 22,1 bilhões em 2024, com alta de 52,3% em dez anos.

Setores como alimentos e bebidas (28%), plásticos (12,4%), produtos de consumo (9,8%), tecnologia e metais têm liderado essa expansão. Empresas como JBS, Embraer, CSN, Bauducco e Sustainea estão entre as principais investidoras.

A CNI destaca que essa integração econômica é fundamental para o crescimento bilateral e que as tarifas podem comprometer relações consolidadas e postos de trabalho nos dois países.

Íntegra da carta dos senadores democratas dos EUA

“Prezado Presidente Trump,

Escrevemos para expressar sérias preocupações sobre o claro abuso de poder presente em sua recente ameaça de iniciar uma guerra comercial com o Brasil. Os Estados Unidos e o Brasil têm questões comerciais legítimas que devem ser discutidas e negociadas. No entanto, a ameaça de tarifas feita por sua administração claramente não se refere a isso.

Tampouco se trata de um déficit comercial bilateral, já que os EUA tiveram um superávit de US$ 7,4 bilhões em bens com o Brasil em 2024 e não registram déficit comercial com o país desde 2007.

Na verdade — como o senhor afirma explicitamente em sua carta ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva — a ameaça de impor tarifas de 50% sobre todas as importações do Brasil e a ordem para que o Representante de Comércio dos EUA inicie uma investigação sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 têm como principal objetivo forçar o sistema judiciário independente do Brasil a interromper a acusação contra o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro.

Interferir no sistema legal de uma nação soberana estabelece um precedente perigoso, provoca uma guerra comercial desnecessária e coloca cidadãos e empresas americanas em risco de retaliação. O Sr. Bolsonaro é um cidadão brasileiro sendo processado nos tribunais brasileiros por ações alegadamente cometidas sob jurisdição nacional. Ele é acusado de tentar minar os resultados de uma eleição democrática no Brasil e de planejar um golpe de Estado.

Usar todo o peso da economia americana para interferir nesses processos em favor de um amigo é um grave abuso de poder, enfraquece a influência dos EUA no Brasil e pode prejudicar nossos interesses mais amplos na região.

Suas ações aumentariam os custos para famílias e empresas americanas. Os americanos importam mais de US$ 40 bilhões por ano do Brasil, incluindo quase US$ 2 bilhões em café. O comércio entre EUA e Brasil sustenta cerca de 130 mil empregos nos Estados Unidos. O Brasil também prometeu retaliar, e o senhor prometeu retaliar em resposta, o que significa que os exportadores americanos sofrerão.

Uma guerra comercial com o Brasil também aproximaria o país da República Popular da China em um momento em que os EUA precisam combater agressivamente a influência chinesa na América Latina. Empresas estatais chinesas estão investindo fortemente no Brasil, inclusive em projetos portuários e ferroviários.

Os objetivos principais dos EUA na América Latina devem ser o fortalecimento de relações econômicas mutuamente benéficas, a promoção de eleições democráticas livres e justas e o combate à influência da RPC. Instamos o senhor a reconsiderar suas ações e a priorizar os interesses econômicos dos americanos, que desejam previsibilidade — não outra guerra comercial.”

Assinam a carta: Tim Kaine, Jeanne Shaheen, Adam B. Schiff, Richard J. Durbin, Peter Welch, Kirsten Gillibrand, Mark R. Warner, Catherine Cortez Masto, Michael F. Bennet, Jacky Rosen e Raphael Warnock.


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