Crise diplomática e tarifaço dos EUA: impacto bilionário expõe custo do populismo na política externa brasileira, avalia Joaci Góes

A decisão do governo federal de destinar R$ 30 bilhões para socorrer pequenas e médias empresas afetadas pelo tarifaço de 50% imposto pelos Estados Unidos a produtos brasileiros representa apenas a primeira etapa de uma crise de grandes proporções na relação bilateral. Especialistas apontam que a medida é consequência direta de recentes declarações do presidente Luiz Inácio Lula da Silva contra o presidente Donald Trump e a hegemonia do dólar, gerando desgaste diplomático sem precedentes na história recente do Itamaraty.

Montante bilionário e impacto social potencial

Segundo análise do escritor e jornalista Joaci Góes, o valor anunciado pelo governo equivale a recursos suficientes para construir 300 mil casas populares, capazes de abrigar 1,5 milhão de pessoas com acesso a saneamento básico e segurança. Dados da Oxfam indicam que metade da população brasileira não dispõe de saneamento adequado, fator que compromete o desenvolvimento intelectual e reduz a expectativa de vida média de 79 para 54 anos em regiões mais carentes.

“Esse é apenas o início de uma série de medidas para tentar conter os efeitos da crise. O custo econômico e social é comparável a uma vitória de Pirro, onde se ganha no discurso e se perde no resultado prático”, observa Góes.

Estratégia política e desgaste diplomático

A avaliação é que Lula teria explorado o sentimento antiamericano ainda presente no Brasil para ampliar seu apoio político, mesmo diante de advertências de diplomatas e economistas sobre a impossibilidade de reverter o quadro. A recusa em manter contato com Trump agravou o cenário, reduzindo as chances de negociação.

Paralelamente, a crise comercial teria deslocado a atenção pública de outros escândalos, como o rombo bilionário no INSS, que afetou milhares de aposentados. Para críticos, a cobertura seletiva da imprensa, favorecida por volumosos contratos de publicidade oficial, contribui para minimizar a percepção negativa sobre o governo.

Comparações históricas e cenário eleitoral

Góes compara a postura de Lula à frase atribuída a Madame de Pompadour ao rei Luís XV em 1757, diante da iminente derrota francesa: “Après nous, le déluge” (“Depois de nós, o dilúvio”). Para ele, qualquer articulação visando a substituição de Lula como candidato em 2026 é prematura e politicamente imprópria.

O analista também ressalta que a deterioração das áreas de educação, saúde, infraestrutura e segurança pública permanece um problema crônico. Na Bahia, por exemplo, dados recentes indicam a presença de 25 facções criminosas ativas, o maior número do país, seguida por Pernambuco, com 18.

Personalização da política externa

A crise provocada pelo tarifaço norte-americano não é apenas uma questão comercial, mas um sintoma da crescente personalização da política externa brasileira. Ao priorizar gestos simbólicos e confrontos ideológicos, o governo arrisca prejudicar setores estratégicos da economia e comprometer décadas de construção diplomática pautada na moderação. O custo imediato já é mensurável — bilhões em recursos públicos — mas o passivo reputacional e as barreiras comerciais que podem surgir nos próximos anos ainda são incalculáveis.

*Joaci Góes é advogado, jornalista, escritor, empresário e político brasileiro, nascido em Ipirá (BA), em 1938. Figura de destaque na vida intelectual e pública da Bahia, ele preside o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB) — instituição fundada em 1894 e considerada a mais antiga e uma das mais relevantes entidades culturais do estado, com sede em Salvador. Sua trajetória combina atuação nas áreas jurídica, política, empresarial e literária, refletindo uma vida dedicada ao pensamento crítico, à defesa da cultura baiana e ao fortalecimento das instituições democráticas.

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