O historiador econômico britânico Niall Ferguson afirmou em entrevista à Bloomberg Línea que a Argentina sob Javier Milei pode ser lembrada como “um dos milagres econômicos da década de 2020”. Para ele, a transformação em curso não se limita a ajustes fiscais, mas representa uma mudança completa de regime político e econômico, condição essencial para romper sete décadas de fracassos e crises recorrentes.
Ferguson destacou que a Argentina enfrenta, desde a Segunda Guerra Mundial, um histórico de inflação crônica, crises financeiras e baixo crescimento, muitas vezes agravados por políticas populistas. “Quando escrevi The Ascent of Money, em 2006-2007, usei a Argentina como exemplo de um país que se sabotava por meio de políticas ruins, apesar do imenso potencial econômico”, afirmou.
Segundo ele, a diferença atual está na disposição de Milei em alterar todos os pilares da política econômica. “Essa é a melhor chance que a Argentina teve em nossas vidas para mudar seus rumos e voltar aos bons velhos tempos”, disse, citando o economista Thomas Sargent, Prêmio Nobel, para quem somente uma mudança integral de regime pode encerrar ciclos inflacionários persistentes.
Reformas e apoio político
Ao contrário de experiências anteriores na Argentina, Ferguson vê Milei como um “caso atípico” no cenário internacional. Enquanto várias democracias adotam políticas protecionistas, o libertário argentino aposta na abertura comercial, redução do déficit e desregulamentação.
“Margaret Thatcher levou dez anos para reduzir a dívida pública em 5% do PIB; Milei fez isso em menos de um ano. Para mim, ele é o libertário mais radical já visto no governo em qualquer país”, destacou Ferguson.
Esse movimento se sustenta em um apoio popular incomum, mesmo em meio ao aumento da pobreza e à recessão.
“Os eleitores entenderam que era o fim do jogo para o peronismo e o kirchnerismo”, acrescentou o acadêmico.
Relações internacionais e efeito Trump
Ferguson também analisou a política tarifária de Donald Trump, que em seu segundo mandato voltou a impor tarifas de até 50% contra países como o Brasil. Para o historiador, essas medidas funcionam como sanções econômicas disfarçadas.
“O mais importante é ter um bom relacionamento com o presidente Trump, e Milei tem isso. Ficarei surpreso se a Argentina fizer um mau negócio”, afirmou.
Ele ressaltou que, nesse cenário, a aproximação entre Milei e Trump funciona como blindagem diante da política comercial americana.
Sobre a influência da China, Ferguson argumentou que a Argentina pode manter equilíbrio entre Washington e Pequim.
“Na Segunda Guerra Fria, a América Latina pode jogar suas cartas para ter o melhor dos dois mundos”, afirmou.
Commodities, energia e o futuro econômico
Outro ponto central é o potencial da Argentina em energia e recursos naturais.
“Com enormes reservas inexploradas de hidrocarbonetos e a crescente demanda global de energia impulsionada pela Inteligência Artificial, o país está em posição muito promissora”, avaliou Ferguson.
O historiador também ressaltou o papel das startups e fintechs argentinas. Ele integra o conselho da Ualá, avaliada em mais de US$ 1 bilhão. “A tecnologia argentina será parte da nova história econômica do país”, afirmou, defendendo que investidores internacionais deixem a postura de “esperar para ver”.
Estilo político e popularidade
Embora críticos apontem o estilo agressivo de Milei como fator de polarização, Ferguson relativiza:
“Há dois Mileis. O do Twitter, provocador, e o intelectual sofisticado que discute ideias e livros. Essa combinação é rara e poderosa.”
Para o historiador, o êxito inicial das reformas também se explica pelo contexto político.
“É notável que a popularidade de Milei tenha resistido ao primeiro ano de ajuste. O surpreendente não é a economia, mas a política”, avaliou.
Contexto histórico e inflação desde Milei
A trajetória econômica argentina ao longo do século XX foi marcada por alternância entre liberalização e intervencionismo, do Consenso de Washington nos anos 1990 ao kirchnerismo nas décadas seguintes. Esse pêndulo, segundo Ferguson, tende a criar consensos de curta duração.
No campo da inflação, o país entrou em 2023 com índices que beiravam a hiperinflação, acima de 200% ao ano. Desde a posse de Milei, medidas como o ajuste fiscal, a contenção da emissão monetária e a eliminação de subsídios reduziram a pressão inflacionária. Em meados de 2025, as taxas anuais caíram para a casa dos 60%, ainda elevadas, mas em trajetória de queda contínua.
Esse movimento, segundo analistas, fortalece a percepção de que a Argentina pode iniciar um ciclo de estabilização, embora o custo social — desemprego e aumento da pobreza — continue elevado.
As contradições possíveis
A avaliação de Ferguson projeta um futuro otimista para a Argentina, mas minimiza riscos estruturais. A sustentabilidade das reformas depende de Milei manter maioria no Congresso e apoio popular em meio ao agravamento da desigualdade. A forte dependência de commodities expõe o país a choques externos, e a resiliência da inflação, mesmo em queda, continua sendo obstáculo para a consolidação do “milagre”. O entusiasmo de investidores estrangeiros não elimina a incerteza diante de um país cujo risco-país permanece o dobro da média latino-americana.
Teoria e a abordagem econômica do presidente Javier Milei
A teoria e a abordagem econômica de Javier Milei podem ser compreendidas como a aplicação prática de uma agenda ultraliberal ou libertária dentro de um Estado nacional historicamente marcado por populismo, intervencionismo e inflação crônica. Ele próprio se define como um “anarcocapitalista” em termos filosóficos, embora como presidente adote políticas que se aproximam mais de um liberalismo radical com forte viés fiscalista e monetarista.
Fundamentos teóricos
- Escola Austríaca de Economia
- Milei inspira-se em autores como Ludwig von Mises e Friedrich Hayek, que defendem a supremacia do mercado sobre o Estado.
- O ponto central é a rejeição ao intervencionismo: preços, câmbio e salários devem ser determinados pela livre interação entre oferta e demanda.
- Monetarismo
- Influenciado por Milton Friedman, Milei sustenta que a inflação é sempre resultado da expansão da base monetária.
- Daí sua obsessão em eliminar o déficit fiscal e impedir a emissão de moeda pelo Banco Central.
- Choque de regime
- Em vez de reformas graduais, Milei propõe uma mudança completa do regime econômico, algo alinhado à teoria do Nobel Thomas Sargent, para quem acabar com inflação crônica exige alterar não apenas a política monetária, mas toda a arquitetura institucional e fiscal.
Abordagem prática no governo Milei
- Ajuste fiscal radical
- Corte massivo de subsídios (energia, transporte, programas sociais).
- Redução de ministérios e enxugamento da máquina pública.
- Busca de superávit primário para demonstrar solvência internacional.
- Política monetária restritiva
- Fim da emissão monetária para financiar gastos públicos.
- Atuação do Banco Central voltada exclusivamente para conter a inflação.
- Longo prazo: Milei defende a eliminação do Banco Central e até a dolarização da economia, embora isso ainda esteja em debate.
- Reformas estruturais
- Desregulamentação de mercados e simplificação normativa.
- Privatizações de empresas estatais.
- Abertura comercial, reduzindo barreiras tarifárias e não tarifárias.
- Reforma trabalhista para flexibilizar contratos e reduzir custos de contratação.
Resultados iniciais (2024–2025)
- Inflação: caiu de mais de 200% ao ano em 2023 para cerca de 60% em meados de 2025, segundo dados oficiais.
- Pobreza e desemprego: aumentaram no curto prazo, reflexo do ajuste fiscal e da retração do consumo.
- Confiança do investidor: voltou parcialmente, com valorização de títulos argentinos e interesse em setores como energia e tecnologia.
- Popularidade: manteve-se surpreendentemente estável, apesar do impacto social negativo, sustentada pelo discurso contra o peronismo e as elites políticas.
Diferenças em relação ao passado argentino
- Ao contrário de Carlos Menem nos anos 1990, que adotou reformas liberais com apoio do FMI mas perdeu fôlego político diante do desemprego e da crise de 2001, Milei adota um choque de austeridade mais imediato e sustenta que não existe alternativa além de quebrar o ciclo inflacionário.
- Seu projeto rompe com o kirchnerismo, que privilegiou políticas de subsídios, gasto público e intervenção estatal para manter consumo e emprego no curto prazo.
Síntese da visão mileísta
Para Javier Milei:
- O Estado é parte do problema, não da solução.
- A inflação é um imposto perverso que corrói salários e poupança.
- O mercado, se livre, é capaz de gerar prosperidade de forma mais eficiente do que qualquer política pública.
- É preferível suportar dor social imediata em troca de uma trajetória de crescimento e estabilidade a longo prazo.
Situação econômica da Argentina
- Inflação em 2023: superior a 200% ao ano, próxima da hiperinflação.
- Inflação em meados de 2025: cerca de 60% ao ano, em trajetória de queda.
- Pobreza e desemprego: em alta devido ao ajuste fiscal e corte de subsídios.
- Risco-país: ainda o dobro da média latino-americana.
Reformas e políticas de Milei
- Ajuste fiscal radical: corte de gastos e subsídios.
- Redução da emissão monetária para controlar a inflação.
- Abertura comercial e busca por investimentos externos.
- Reforma trabalhista e desregulamentação da economia.
- Aproximação estratégica com EUA e Donald Trump.
Potencial econômico e projeções
- Reservas inexploradas de hidrocarbonetos com alta demanda global.
- Perspectiva de se tornar exportador de energia e commodities além da agricultura.
- Crescimento do setor tecnológico e de fintechs, com destaque para a Ualá.
- Possibilidade de reposicionamento estrutural na economia global.
Contexto histórico
- Alternância entre liberalização (Consenso de Washington nos anos 1990) e intervencionismo kirchnerista nas décadas seguintes.
- Histórico de setenta anos de crises financeiras, inflação crônica e políticas populistas.
- Eleição de Milei em 2023 vista como “fim do jogo” para o peronismo e o kirchnerismo.
Comparativo de Modelos Econômicos na América Latina
| Modelo / Líder | Período | Abordagem | Políticas principais | Resultados e legado |
|---|---|---|---|---|
| Chile (Pós-Pinochet) | Anos 1980–1990 | Neoliberalismo radical (Chicago Boys) | Privatizações em massa, abertura comercial, reforma previdenciária, disciplina fiscal | Crescimento sustentado por décadas, mas com forte desigualdade e tensões sociais que explodiram em protestos (2019). |
| Carlos Menem (Argentina) | 1989–1999 | Liberalização e convertibilidade | Abertura comercial, privatizações, atrelamento do peso ao dólar (1:1), reformas do mercado de trabalho | Estabilidade inicial, mas desemprego alto e crise terminal em 2001. Modelo visto como insustentável. |
| Kirchnerismo (Néstor e Cristina) | 2003–2015 | Estatismo e populismo distributivo | Expansão de subsídios, aumento do gasto público, intervenção no câmbio e nas tarifas, protecionismo | Crescimento inicial (boom das commodities), mas inflação crônica, déficit e desconfiança de investidores. |
| Mauricio Macri (Argentina) | 2015–2019 | Gradualismo liberal | Tentativas de ajuste fiscal, abertura a investidores, negociação com FMI, redução de subsídios de forma lenta | Resistência política, inflação persistente, dívida crescente. Modelo fracassou sem entregar estabilização. |
| Javier Milei (Argentina) | 2023–presente | Ultraliberalismo / libertarianismo radical | Choque fiscal imediato, redução drástica de subsídios, defesa de dolarização, privatizações, abertura comercial, desregulamentação | Inflação caiu de 200% (2023) para cerca de 60% (2025), mas pobreza aumentou. Popularidade surpreendentemente estável; país ainda em transição. |
Perfil de Niall Ferguson
Niall Ferguson, 60 anos, é considerado um dos mais influentes historiadores econômicos do mundo. Formado em Oxford, lecionou em Cambridge, Harvard e Stanford. É autor de obras de referência, como The Ascent of Money e Civilization: The West and the Rest, que analisam a evolução do capitalismo, crises financeiras e o poder das instituições.
Atualmente, é pesquisador sênior no Hoover Institution, em Stanford, e sócio da consultoria Greenmantle, especializada em geopolítica e macroeconomia. Reconhecido por seu estilo provocador e análises ousadas, Ferguson mantém influência significativa entre investidores, acadêmicos e formuladores de políticas.
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