O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), historicamente beneficiado por forte apoio no Nordeste, enfrenta agora um enfraquecimento estrutural nessa base eleitoral. Segundo o cientista político Andrei Roman, CEO da AtlasIntel, o “bônus Nordeste” — vantagem tradicional que dava ao PT votações expressivas na região — está em processo de erosão.
Esse enfraquecimento decorre de três fatores principais: perda de relevância de programas sociais como o Bolsa Família, queda da popularidade de governadores de esquerda na região e agravamento da crise de segurança pública em capitais e periferias nordestinas. Confira, a seguir, os principais aspectos da entrevista concedida à BBC Brasil nesta quinta-feira (22/08/2025).
O teto da aprovação de Lula
Roman avalia que, mesmo após a melhora recente na avaliação do governo por causa do confronto diplomático com Donald Trump, Lula enfrenta um limite estrutural. Segundo ele, é improvável que a aprovação ultrapasse 55%, considerando a polarização e a força consolidada do antipetismo.
A combinação de um eleitorado fiel ao bolsonarismo, estimado em cerca de 33%, somado a outros 10% de antipetistas, cria um contingente resistente a Lula. Isso gera um teto que impede o presidente de repetir desempenhos eleitorais expressivos como em 2006 ou 2010.
O papel da Classe C
Mudança cultural e econômica
A Classe C, outrora símbolo da ascensão social promovida pelo lulismo, migrou politicamente para o campo da direita. Roman explica que esse grupo hoje busca prosperidade por mérito próprio e rejeita soluções baseadas em programas de transferência de renda.
O Bolsa Família já não exerce o mesmo peso eleitoral, pois foi absorvido como política de Estado. Programas como o Pé-de-meia, voltados a jovens, também não criam mais vínculos políticos duradouros. Nesse espaço, a direita oferece discursos de empreendedorismo, liberdade econômica e redução de impostos, mais atrativos ao eleitorado emergente.
Fenômenos culturais e políticos
O avanço da direita também se manifesta culturalmente. Pastores evangélicos, cantores sertanejos e influenciadores digitais, como Pablo Marçal, ganharam forte penetração na Classe C, transmitindo valores alinhados ao PL de Jair Bolsonaro. Esse movimento consolidou a identificação partidária da direita em níveis inéditos, competindo diretamente com o PT.
Tarcísio de Freitas e a sucessão de Bolsonaro
O candidato mais competitivo da direita
Entre os nomes cogitados pelo bolsonarismo, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, é visto como o mais competitivo. Roman destaca que ele tem capacidade de dialogar com eleitores moderados e de expandir o alcance da direita além da base radical de Bolsonaro.
Disputas internas e fortalecimento
Conflitos dentro da família Bolsonaro, como críticas de Eduardo Bolsonaro a Tarcísio, não fragilizam o governador paulista. Pelo contrário, reforçam sua imagem de candidato com autonomia política e capacidade de atrair segmentos mais amplos do eleitorado.
Governadores alternativos e os limites da direita não bolsonarista
Roman também avalia nomes como Ronaldo Caiado (União Brasil-GO), Eduardo Leite (PSDB-RS) e Ratinho Jr. (PSD-PR), governadores com alta aprovação regional. Embora fortes em um eventual segundo turno, esses líderes encontram barreiras para se viabilizar nacionalmente, pois não ocupam espaço relevante dentro da estrutura do bolsonarismo hegemônico.
A única forma de romper esse quadro seria por meio da construção de um centro político alternativo, semelhante ao que Emmanuel Macron realizou na França. No entanto, Roman considera esse cenário de difícil concretização no Brasil.
Economia: limites da recuperação na popularidade
Apesar de indicadores relativamente positivos — como baixo desemprego e crescimento moderado do PIB —, o governo Lula não tem conseguido converter números em aprovação. Para a população, sobretudo a Classe C, custo de vida alto, juros elevados e inflação pesam mais do que estatísticas macroeconômicas.
Questões práticas como moradia e endividamento continuam sendo obstáculos. A alta da Selic e os custos de financiamento tornam distante o sonho da casa própria, limitando a sensação de prosperidade. Segundo Roman, essa desconexão entre indicadores e vida real explica parte da insatisfação.
Segurança pública e crise urbana no Nordeste
Um dos pontos centrais para o desgaste da esquerda no Nordeste é a insegurança. O avanço de facções criminosas em capitais como Salvador e Fortaleza transformou a violência em realidade cotidiana, com chacinas e disputas territoriais.
Roman afirma que a falta de respostas efetivas das polícias estaduais e a ausência de políticas federais estruturadas enfraquecem a percepção de competência da esquerda em lidar com o tema. Essa crise mina a confiança no PT em sua base mais tradicional.
O fator internacional: Trump e o tarifaço
A tensão com os Estados Unidos, após o tarifaço de 50% imposto por Donald Trump, produziu uma leve recuperação da popularidade de Lula, segundo pesquisas recentes. No entanto, Roman acredita que esse ganho já atingiu seu limite.
Se a retaliação americana se intensificar, o governo poderá transformar o embate em discurso de soberania nacional. Porém, se mal administrado, o episódio pode ampliar as dificuldades econômicas e prejudicar ainda mais o governo na reta final do mandato.
Eleições de 2026: entre estrutura e conjuntura
Roman classifica a eleição de 2026 como estruturalmente difícil para Lula, devido à perda do “bônus Nordeste” e ao avanço da direita entre a Classe C. Em termos conjunturais, a decisão dependerá da escolha do candidato bolsonarista e da capacidade do governo de se comunicar em meio às crises.
Segundo o cientista político, “há hoje uma chance maior de Lula perder do que de ganhar”, mas a eleição será competitiva, polarizada e decidida por margens estreitas.
Dialogar com o eleitor emergente
A análise da AtlasIntel evidencia mudanças estruturais no eleitorado brasileiro. O lulismo, que se sustentava em políticas sociais e no apoio maciço do Nordeste, encontra dificuldades diante da transformação cultural da Classe C e da ascensão da direita como força política consolidada.
Entretanto, reduzir o cenário a tendências estruturais pode ser simplista. Eventos imprevisíveis, como novas crises internacionais, mudanças na economia global, desgaste de lideranças oposicionistas ou até fatores ligados à Justiça — como a situação jurídica de Bolsonaro — podem reconfigurar o tabuleiro político. O desafio central do PT está em reconstruir um discurso capaz de dialogar com o eleitor emergente, que deixou de ver nas políticas sociais um diferencial exclusivo da esquerda.
Cenário político
- Lula não é favorito em 2026, segundo Andrei Roman (AtlasIntel).
- Eleição será altamente competitiva e polarizada.
- Há mais chances de Lula perder do que ganhar em condições normais.
- O fator decisivo será a escolha do candidato apoiado por Jair Bolsonaro.
Nordeste e perda do “bônus eleitoral”
- Nordeste representava cerca de 27% do eleitorado.
- Apoio tradicional ao PT está em declínio.
- Governadores de esquerda na região apresentam baixa aprovação (exceto Piauí).
- Fatores da perda:
- Menor relevância do Bolsa Família e programas sociais.
- Falta de lideranças fortes como Rui Costa e Camilo Santana.
- Crise de segurança pública, marcada por avanço de facções e violência urbana.
Classe C
- Segmento não se identifica mais com programas sociais tradicionais.
- Busca prosperidade por mérito próprio e rejeita discurso assistencialista.
- Direita capturou o discurso cultural dessa classe, reforçado por:
- Pastores evangélicos.
- Cantores sertanejos.
- Influenciadores digitais como Pablo Marçal.
- O PL de Bolsonaro rivaliza com o PT em identificação partidária.
Aprovação de Lula
- Teto estimado em 55% de aprovação.
- 33% do eleitorado se declara bolsonarista.
- Outros 10% são antipetistas.
- Conjunto cria um bloco resistente ao presidente, limitando expansão.
Economia
- PIB com crescimento moderado.
- Desemprego baixo, mas insatisfação persiste.
- Problemas centrais:
- Custo de vida elevado.
- Inflação persistente.
- Juros altos (Selic em torno de 15%).
- Dificuldade de acesso à moradia e crédito.
- População percebe desconexão entre números e realidade cotidiana.
Segurança pública
- Avanço de facções criminosas em capitais como Salvador e Fortaleza.
- Violência e chacinas se tornaram realidade cotidiana.
- Falta de resposta efetiva das polícias estaduais.
- Tema é considerado um ponto frágil da esquerda.
Bolsonarismo e sucessão
- Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) é o nome mais competitivo da direita.
- Pode atrair eleitores moderados.
- Conflitos internos da família Bolsonaro (ex.: Eduardo criticando Tarcísio) não reduzem competitividade.
- Outros nomes viáveis regionalmente (Caiado, Leite, Ratinho Jr.) enfrentam barreiras por não representarem o núcleo bolsonarista.
Fatores internacionais
- Tarifaço de Donald Trump (50%) deu impulso temporário a Lula.
- Possível uso do tema como discurso de soberania nacional.
- Ganhos de aprovação com esse embate já teriam atingido o limite.








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