No tradicional discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta terça-feira (23/o9/2025) que a democracia brasileira saiu fortalecida após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal (STF).
“Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado a todos os candidatos a autocratas e àqueles que os apoiam: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis”, disse Lula, sob aplausos. O presidente destacou que “não há pacificação com impunidade” e que qualquer tentativa de enfraquecer o Judiciário representa ataque direto à independência nacional.
Segundo Lula, “o autoritarismo se fortalece quando nos omitimos frente à arbitrariedade” e, por isso, o Brasil continuará atuando como nação soberana, livre de “tutelas externas ou pressões unilaterais”.
Críticas às sanções americanas
O discurso ocorreu em meio à escalada de tensões entre Brasília e Washington. Na véspera da Assembleia, o governo dos Estados Unidos anunciou novas sanções contra Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, e contra a empresa Lex – Instituto de Estudos Jurídicos, administrada pela família.
O Departamento de Estado justificou a medida no âmbito da Lei Global Magnitsky, que permite punir estrangeiros acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Moraes já havia sido sancionado em julho, tornando-se a primeira autoridade brasileira a figurar nessa lista.
Em resposta, o Itamaraty divulgou nota classificando a medida como “ofensa aos 201 anos de amizade entre os dois países” e “ataque à soberania brasileira”.
Lula também abordou o tema em entrevista à emissora pública americana PBS, na qual classificou como “inacreditável” que o presidente dos EUA tenha vinculado tarifas e sanções a decisões do Judiciário brasileiro. “É inacreditável que o presidente Trump tenha esse tipo de comportamento com o Brasil devido ao julgamento de um ex-presidente que tentou um golpe de Estado contra o Estado Democrático de Direito”, afirmou.
Trump adota tom cordial e elogia Lula
Apesar da retórica dura contra instituições brasileiras em semanas anteriores, o presidente Donald Trump surpreendeu ao adotar uma postura amistosa na ONU. Após seu discurso, declarou que Lula é “um cara legal” e revelou que pretende se reunir com o líder brasileiro na próxima semana.
“Ele gostou de mim, eu gostei dele. Tivemos uma química excelente. Eu só faço negócios com pessoas de quem gosto”, disse Trump. Segundo ele, o contato com Lula durou “uns trinta segundos”, mas foi suficiente para “abrir caminho para uma conversa mais longa”.
A assessoria da Presidência confirmou o encontro rápido, ressaltando que ainda não há definição sobre data, local ou formato da reunião.
Multilateralismo em debate
Enquanto Trump reforçou seu estilo unilateral, exaltando tarifas e “acordos comerciais históricos”, Lula defendeu a necessidade de reforma do sistema multilateral. O presidente brasileiro destacou que a ONU vive uma “nova encruzilhada” e que a sua autoridade está em xeque.
“Atentados à soberania, sanções arbitrárias e intervenções unilaterais estão se tornando a regra”, afirmou Lula, em crítica indireta aos EUA. Ele também pediu maior participação do Sul Global nas decisões internacionais e defendeu que o Conselho de Segurança da ONU seja ampliado.
Além disso, destacou que o Brasil sediará a COP30 em Belém, considerada “a COP da verdade”. “Será o momento de os líderes mundiais provarem a seriedade de seu compromisso com o planeta”, disse Lula.
Posições sobre conflitos internacionais
No campo internacional, Lula condenou os atentados terroristas do Hamas, mas classificou como “genocídio” a resposta militar israelense em Gaza. “Nada, absolutamente nada, justifica o massacre em curso”, declarou.
Sobre a guerra da Ucrânia, o presidente afirmou que “não haverá solução militar” e defendeu negociações, destacando a atuação conjunta de Brasil e China no Grupo de Amigos da Paz.
Trump, em contrapartida, adotou discurso focado no público interno. Atacou imigrantes ilegais, criticou a União Europeia e voltou a afirmar que encerrou “sete guerras”, sem apresentar detalhes. Ele também ironizou a ONU, dizendo que a organização só lhe havia oferecido “uma escada rolante ruim e um teleprompter quebrado”.
Repercussão entre bolsonaristas
Entre apoiadores de Jair Bolsonaro, a aproximação entre Trump e Lula gerou expectativa. O deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que a fala de Trump demonstrou “firmeza estratégica combinada com inteligência política”.
Aliados esperam que o republicano pressione por medidas de anistia a investigados do 8 de Janeiro e que questione condenações aplicadas pelo STF.
Especialistas veem riscos e oportunidades
Analistas ouvidos pela imprensa destacam que o gesto de Trump pode abrir espaço para redução de tensões comerciais, mas alertam que o brasileiro terá de lidar com um líder de perfil imprevisível.
Para Oliver Stuenkel, da Fundação Getulio Vargas (FGV), a cena evidencia o valor de fóruns multilaterais como a ONU. “É impossível prever o resultado, mas o simples fato de abrir diálogo já é significativo.”
O professor Lucas Leite, da FAAP, ressaltou que Trump conduz relações internacionais “de forma personalista, fora dos padrões tradicionais da diplomacia”.
Já Paulo Velasco, da UERJ, avaliou que o gesto pode colocar o Brasil em situação delicada: “Se a reunião não ocorrer, parecerá que o Brasil rejeitou o diálogo; se ocorrer, Trump poderá vender como vitória política.”
Estilos diferentes
O contraste entre os discursos de Lula e Trump revelou mais do que estilos diferentes: expôs visões antagônicas sobre a ordem mundial. Lula defendeu instituições multilaterais, soberania nacional e democracia, reforçando a imagem do Brasil como ator global em defesa do Sul Global. Trump, em contrapartida, manteve sua narrativa de supremacia americana e ceticismo em relação à ONU.
O aceno amistoso pode abrir espaço para negociações sobre tarifas e sanções, mas especialistas alertam que os riscos de exploração política por parte de Trump são elevados. Em um momento de crise diplomática sem precedentes desde 1964, o Brasil enfrenta o desafio de equilibrar diálogo estratégico e defesa intransigente de suas instituições.
*Com informações da ONU News e BBC Brasil.











Deixe um comentário