Gustavo Marques Gaspar, ex-assessor e aliado de confiança do senador Weverton Rocha, assinou procuração em 12/03/2025 que concedeu amplos poderes bancários ao consultor Rubens Oliveira Costa, identificado pela Polícia Federal (PF) como operador financeiro do Careca do INSS na fraude de descontos indevidos em benefícios do INSS. Um mês depois, a PF deflagrou a Operação Sem Desconto, e o inquérito alcançou o STF e a CPMI do INSS.
Contexto: a engrenagem financeira da “Farra do INSS”
Procuração e alcance dos poderes
A procuração, registrada em cartório de Brasília, autorizou abrir, movimentar e encerrar contas, depositar, retirar e transferir valores, realizar aplicações, além de emitir, assinar, endossar e descontar cheques em nome da GM Gestão Ltda., empresa de Gaspar. O documento também habilitou representação diante de órgãos públicos e empresas privadas, com faculdade para assinatura de contratos.
Rubens Oliveira, citado como facilitador do esquema, teria a partir daí capacidade formal de movimentar recursos associados à rede de pagamentos indevidos. Defesas negam qualquer transação ilícita ou saques efetivos por Rubens na GM Gestão.
Defesas e contrapontos
A defesa de Rubens Oliveira afirma que ele não participou de repasses de propina e que prestou serviços de consultoria por curto período. Gustavo Gaspar alega vínculo estritamente profissional, nega movimentações por Rubens e diz não ter recebido vantagens indevidas. O senador Weverton não se manifestou até o fechamento deste texto.
Vetor político: gabinete, nomeações e rede de influência
Recepção ao lobista e sigilo de registros
O senador admitiu ter recebido Antonio Antunes em seu gabinete, sob a justificativa de discussão sobre o mercado de cannabis (o lobista atua no setor). Após questionamentos jornalísticos, registros de entrada do operador no Senado ficaram sob sigilo.
Indicação ao INSS e convênios suspeitos
Apontado como indicador de André Fidelis à Diretoria de Benefícios do INSS, Weverton vê seu entorno aproximar-se do núcleo decisório onde convênios possibilitaram R$ 142 milhões em descontos apenas em 2024, segundo reportagens. Fidelis é investigado por suposto recebimento de R$ 1,4 milhão em propina no período.
O “homem da mala” e as inconsistências financeiras
Movimentações em espécie e lastro declarado
A PF descreve Rubens Oliveira como “facilitador”, “intermediário” e “operador financeiro” do Careca do INSS. Entre os atos mapeados está o saque de R$ 949 mil em dinheiro vivo. Relatórios indicam incompatibilidade entre a capacidade financeira declarada e o montante efetivamente movimentado, chegando a diferença dez vezes maior.
Malha empresarial e possível lavagem
Rubens teria poderes de representação em empresas como a ACCA Consultoria Empresarial Ltda., vinculada ao Careca, descritas como “canalizadoras de fundos” junto a outras, a exemplo de Brasília Consultoria Empresarial S.A. e Prospect Consultoria Empresarial Ltda.. A PF suspeita de dispersão de recursos e falsificação de receitas para ocultar a origem do dinheiro.
Conafer, emendas e as rotas do dinheiro público
Emendas parlamentares e ONG subcontratante
O deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) direcionou R$ 2,5 milhões em emendas ao Instituto Terra e Trabalho (ITT), ONG ligada à Conafer. Indícios apontam que o ITT subcontratou empresas próximas ao núcleo da confederação, com simulações de concorrência e pagamentos que somam mais de R$ 2,1 milhões para a Agropecuária PKST Ltda., de Ingrid Pikinskeni, esposa de Cícero Marcelino, ligado ao presidente da Conafer.
Suspeita de licitações simuladas e rede societária
Concorrentes “fake”, como Agropecuária e Mineração Lagoa Alta Ltda., associada à esposa do presidente da Conafer, Bruna Braz, teriam convalidado processos licitatórios. Relatórios da PF apontam circularidade de recursos entre Conafer, dirigentes e empresas associadas, sugerindo lavagem de dinheiro.
Aviões, superfaturamento e indícios de laranjas
Compras e vendas com valorização atípica
Negócios de aeronaves envolvendo Vinícius Ramos da Cruz (presidente do ITT), Silas da Costa Vaz (secretário da Conafer) e o deputado Euclydes Pettersen revelam saltos abruptos de preço em curto prazo — como um Beech 58P adquirido por R$ 1 milhão e revendido por R$ 2,5 milhões em cinco meses.
Silas Vaz e o perfil econômico
Silas Vaz, morador de baixa renda e recebedor do auxílio emergencial durante a pandemia, tornou-se “proprietário” de aeronaves avaliadas em mais de R$ 3 milhões. Ao ser questionado, afirmou não se lembrar de ter assinado documentos e disse que buscará advogados. A Conafer alega que o ITT não pertence à confederação, mas é associado.
Careca do INSS: viagens, offshore e patrimônio no exterior
20 viagens internacionais em dois anos
Entre maio/2023 e abril/2025, o Careca do INSS realizou 20 viagens internacionais (EUA, Panamá, Colômbia, Portugal e Espanha, entre outros). Em 17/04/2024, viajou a Lisboa, cinco dias antes da 1ª fase da Operação Sem Desconto, retornando em 26/04/2024. Foi preso em 12/09/2025, com a PF citando risco de fuga aos EUA.
Apartamento em Miami, cannabis e offshore
Em fev/2024, adquiriu apartamento na Flórida por cerca de US$ 610 mil (≈ R$ 3,3 milhões). Expandiu negócios de fitoterapia/cannabis por meio da Word Cannabis (Brasília, São Paulo, Bogotá, Miami, Lisboa) e abriu a Candango Consulting no Porto (PT), capital € 50 mil. Mantém offshore nas Ilhas Virgens Britânicas (Dau&be Investments LLC).
CPMI do INSS e trilhas institucionais
Quebras de sigilo e pedidos de informações
A CPMI do INSS aprovou quebras de sigilo bancário de dirigentes da Conafer, requisições de inquéritos e convocações para depoimentos. O inquérito principal migrou ao STF pela presença de autoridades com foro. A AGU retirou, em maio/2025, a Conafer e outras entidades de ação cautelar específica, mas apurações administrativas e penais seguem abertas.
Posições públicas e notas oficiais
A Conafer sustenta não ser “uma das principais envolvidas”, nega recebimento direto de emendas e afirma possuir 2,8 mil CNPJs associados e base de 8 milhões de CPFs, contestando inferências sobre a origem da receita. Enfatiza que filiações são por entidades (CNPJ), não por pessoas (CPF).
Padrão de captura institucional
Os elementos expostos compõem um padrão de captura institucional que combina poder político, entidades paraestatais e intermediários financeiros. Procurações amplas funcionam como instrumentos de blindagem para movimentações em espécie, compatíveis com dinâmica de lavagem (dispersão, circularidade e subcontratações “carrossel”). A zona cinzenta entre emendas parlamentares, ONGs subcontratantes e associações amplia a assimetria de fiscalização e dificulta o rastreamento do gasto público. A internacionalização patrimonial do lobista — viagens, offshore e imóvel nos EUA — sugere estratégia de diversificação e ocultação. A resposta institucional (CPMI, PF, STF, CGU) precisa acelerar medidas cautelares, aprimorar due diligence de convênios e estreitar o controle de acesso a órgãos do Estado, sob pena de normalizar a rotina de captura.
Principais dados
1) Pessoas e cargos
- Weverton Rocha (PDT-MA) – senador; admitiu reunião com o lobista.
- Gustavo Marques Gaspar – ex-assessor de Weverton; outorgante da procuração; dono da GM Gestão Ltda.
- Rubens Oliveira Costa – consultor; apontado pela PF como operador financeiro (“homem da mala”).
- Antonio Carlos Camilo Antunes – Careca do INSS; lobista; preso em 12/09/2025.
- André Fidelis – ex-diretor de Benefícios do INSS; indicado pelo senador; sob investigação.
- Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) – deputado; autor de R$ 2,5 mi em emendas ao ITT.
- Vinícius Ramos da Cruz – presidente do ITT; negociou aeronaves.
- Silas da Costa Vaz – secretário da Conafer; aviões em seu nome; perfil de baixa renda.
- Cícero Marcelino / Ingrid Pikinskeni – núcleo empresarial ligado à PKST; relacionam-se à Conafer.
- Bruna Braz – sócia da Lagoa Alta; esposa do presidente da Conafer.
- Carlos Roberto Ferreira Lopes – presidente da Conafer.
2) Entidades e empresas
- INSS – foco da fraude de descontos indevidos em benefícios.
- Conafer – confederação de produtores; nega ser protagonista; base de 2,8 mil CNPJs.
- Instituto Terra e Trabalho (ITT) – ONG ligada à Conafer; recebeu R$ 2,5 mi em emendas.
- GM Gestão Ltda. – empresa de Gustavo Gaspar, alvo da procuração.
- ACCA, Brasília Consultoria, Prospect – empresas citadas como “canalizadoras de fundos”.
- Agropecuária PKST e Lagoa Alta – envolvidas em subcontratações e licitações simuladas.
3) Valores e operações
- R$ 142 milhões – descontos indevidos atribuídos a convênios assinados por André Fidelis (2024).
- R$ 1,4 milhão – suposta propina a Fidelis.
- R$ 949 mil – saque em espécie atribuído a Rubens Oliveira.
- R$ 2,5 milhões – emendas de Pettersen ao ITT.
- R$ 2,1 milhões – pagamentos à PKST via subcontratações.
- US$ 610 mil (≈ R$ 3,3 mi) – apartamento do Careca em Miami.
- € 50 mil – capital da Candango Consulting (Porto, PT).
- R$ 1 mi → R$ 2,5 mi em 5 meses – valorização de aeronave Beech 58P.
4) Datas-chave
- 12/03/2025 – registro da procuração em Brasília.
- Abril/2024 – Operação Sem Desconto; Careca estava em Lisboa quando estourou.
- 12/09/2025 – prisão do Careca do INSS.
- 2019–2025 – período de descontos indevidos e expansão de entidades/convênios.
5) Fatos investigativos e medidas
- CPMI do INSS – quebras de sigilo, convocações e requisições de inquéritos.
- STF – foro por prerrogativa para agentes políticos.
- CGU – auditorias; estimativas sobre arrecadação da Conafer.
- PF – descreve Rubens como operador, mapeia saques e rede empresarial.
6) Rotas internacionais do Careca
- EUA (Miami, Orlando, Newark), Portugal (Lisboa), Espanha (Madri), Panamá, Colômbia (Bogotá), Alemanha (Frankfurt), Peru (Lima) — 20 viagens entre 2023–2025.
*Com informações do site Metrópoles.








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