Presidente Lula defende ação global imediata contra “tragédia climática do presente” na abertura da COP30 em Belém

Em discurso realizado nesta segunda-feira (10/11/2025) durante abertura da 30ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que as mudanças climáticas deixaram de ser uma ameaça futura e se tornaram uma “tragédia do presente”. Realizada pela primeira vez na Amazônia, a conferência reúne chefes de Estado, cientistas e representantes da sociedade civil em busca de soluções globais para o aquecimento planetário.

Lula destacou que “a COP30 será a COP da verdade”, defendendo a retomada do espírito de cooperação que marcou a Rio-92, quando o conceito de desenvolvimento sustentável ganhou centralidade na agenda internacional. O presidente cobrou que os países cumpram suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) e reforcem o apoio financeiro e tecnológico aos países em desenvolvimento, especialmente os mais afetados por desastres climáticos.

Segundo Lula, “trazer a COP para o coração da Amazônia foi uma tarefa árdua, mas necessária”, enfatizando que o bioma não é uma abstração, mas o lar de quase 50 milhões de pessoas e 400 povos indígenas espalhados por nove países. O evento marca, segundo o presidente, “o retorno da Convenção do Clima à sua terra natal”, três décadas após a histórica Cúpula da Terra no Rio de Janeiro.

O discurso também ressaltou os investimentos em infraestrutura realizados em Belém para a conferência, que deverão permanecer como legado para a população local. Lula afirmou que, ao deixar a cidade, “o mundo poderá, enfim, dizer que conhece a realidade da Amazônia”.

Compromissos e metas lançados na Cúpula de Belém pelo Clima

Nos dias anteriores à COP30, foi realizada a Cúpula de Belém pelo Clima, onde foram anunciadas iniciativas bilionárias e compromissos coletivos. Entre eles, o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, que arrecadou US$ 5,5 bilhões em um único dia, voltados à preservação das florestas tropicais. Também foram assumidos compromissos sobre:

  • Manejo integrado do fogo;
  • Garantia da posse da terra a povos indígenas e tradicionais;
  • Quadruplicação da produção de combustíveis sustentáveis;
  • Criação de uma coalizão para mercados de carbono;
  • Combate ao racismo ambiental e à fome.

Essas medidas, segundo o presidente, “representam um chamado à ação global” que o Brasil pretende levar adiante durante sua presidência do G20 e do BRICS.

Crise climática e enfrentamento ao negacionismo

Em tom crítico, Lula afirmou que “os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo”. O presidente associou o avanço da desinformação e o controle de algoritmos à erosão das instituições e das universidades, destacando que é preciso “impor uma nova derrota aos negacionistas”.

O chefe do Executivo alertou que o planeta ainda caminha rumo a um aumento superior a 1,5 °C na temperatura média global, mesmo após o Acordo de Paris, o que ameaça provocar catástrofes ambientais e humanitárias. “Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada”, resumiu.

Proposta de criação de um Conselho do Clima na ONU

Lula apresentou a ideia de criação de um Conselho do Clima vinculado à Assembleia Geral das Nações Unidas, destinado a coordenar políticas internacionais e “assegurar que palavras se traduzam em ações”. O presidente afirmou que a emergência climática exige uma governança global mais robusta, capaz de monitorar compromissos e promover a justiça ambiental.

O discurso também abordou a necessidade de colocar as pessoas no centro da agenda climática, considerando os efeitos desproporcionais do aquecimento global sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e povos tradicionais. Lula observou que “a emergência climática é uma crise de desigualdade”, pois aprofunda assimetrias históricas entre o Norte e o Sul global.

O papel do Brasil e dos povos indígenas

O presidente ressaltou que 13% do território brasileiro está demarcado para povos indígenas, reconhecendo o papel dessas comunidades na preservação ambiental e na mitigação de emissões de carbono. Ainda assim, admitiu que “talvez ainda seja pouco”, defendendo o fortalecimento das políticas de proteção aos territórios tradicionais.

Lula concluiu o discurso citando o líder indígena Davi Kopenawa, que descreve o pensamento urbano como “obscuro e esfumaçado”. Segundo o presidente, a serenidade da floresta deve inspirar “a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito”, encerrando com o desejo de “uma boa COP30” a todos os participantes.

O simbolismo político e o desafio da execução

A abertura da COP30 em Belém simboliza o retorno do Brasil ao protagonismo ambiental, mas também expõe os desafios concretos para transformar o discurso em políticas efetivas. O tom de liderança internacional adotado por Lula contrasta com as dificuldades domésticas de conciliar preservação ambiental e desenvolvimento econômico, sobretudo na Amazônia Legal, onde o desmatamento e a pobreza persistem.

A proposta de um Conselho do Clima na ONU representa ambição diplomática, porém enfrenta resistência de grandes potências econômicas que ainda dependem de combustíveis fósseis. O discurso reforça o papel histórico da Rio-92 e a continuidade da diplomacia ambiental brasileira, mas o sucesso do país dependerá da capacidade de articular compromissos reais entre os países do G20 e do BRICS.


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