Presidente Lula detalha medidas de segurança, combate ao crime e protagonismo ambiental do Brasil às vésperas da COP30 em Belém

Em entrevista coletiva à imprensa estrangeira, realizada na terça-feira, (04/11/2025) na Base Naval de Val de Cães, em Belém (PA), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou um panorama abrangente das ações do governo federal na área de segurança pública, integração internacional e política ambiental, às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30). O chefe de Estado destacou o uso de inteligência policial, a atuação das Forças Armadas, a cooperação sul-americana no combate ao crime e o protagonismo do Brasil na transição energética global.

O presidente iniciou a entrevista enfatizando que o Brasil se preparou de forma rigorosa para receber a COP30, evento que reunirá mais de 140 delegações estrangeiras e 50 chefes de Estado e de Governo em Belém. Lula destacou que o governo federal investiu em infraestrutura de segurança e inteligência policial não apenas na capital paraense, mas também nas fronteiras amazônicas e em áreas estratégicas do território nacional.

Segundo ele, a prioridade é assegurar uma conferência pacífica, segura e tecnicamente organizada, diante do volume de autoridades, ativistas, cientistas e organizações civis que participarão dos debates sobre a agenda climática global.

“Precisamos investir na área de inteligência da polícia para que a gente possa combater o crime e proteger nossas fronteiras”, afirmou Lula.

Ele ressaltou que a segurança da COP30 envolve cooperação inédita entre forças policiais e militares, com apoio de sistemas de monitoramento digital, reconhecimento facial e patrulhamento aéreo e fluvial, coordenados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.

Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI)

Entre as iniciativas mais emblemáticas está a inauguração do Centro de Cooperação Policial Internacional da Amazônia (CCPI Amazônia), em Manaus (AM), criado com o apoio da Polícia Federal, Interpol e nove países da América do Sul que compartilham a floresta amazônica.

O centro, em operação desde setembro de 2025, funciona como base de intercâmbio de informações estratégicas sobre narcotráfico, tráfico de armas, crimes ambientais e organizações transnacionais. Também atua no monitoramento de rotas ilícitas e na coordenação de operações conjuntas em regiões de fronteira.

Lula afirmou: “Estive em Manaus inaugurando o CCPI, um centro coordenado pela Polícia Federal com participação de policiais de todos os países da América do Sul que têm floresta amazônica, além da Interpol. É um esforço conjunto para combater o narcotráfico e o crime organizado nas nossas fronteiras, e já está mostrando resultados concretos.”

Segundo o governo, o CCPI Amazônia será mantido de forma permanente, tornando-se uma plataforma regional de segurança cooperativa voltada à proteção da Amazônia e ao enfrentamento de redes criminosas que atuam de forma transnacional.

Operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e proteção de infraestruturas críticas

O presidente confirmou a assinatura do decreto que autoriza o emprego das Forças Armadas em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) entre 2 e 23 de novembro de 2025, período que compreende as principais atividades da COP30.

A medida foi adotada a pedido do governador Helder Barbalho e abrange os municípios de Belém, Altamira e Tucuruí, onde estão localizadas infraestruturas críticas como usinas hidrelétricas, portos, aeroportos, estações de tratamento de água e vias de acesso logístico.

As Forças Armadas atuarão em coordenação com a Polícia Federal, a Força Nacional e as polícias estaduais, sob a supervisão do Gabinete de Segurança Institucional (GSI). O objetivo é garantir a integridade de delegações, autoridades e cidadãos, bem como preservar a ordem pública.

“O trabalho será integrado e preventivo. A presença das Forças Armadas é uma medida de precaução, não de exceção”, disse Lula.

Investimentos em inteligência e combate ao crime organizado

O presidente enfatizou o avanço das investigações e das operações federais contra organizações criminosas estruturadas em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, citando o caso da fábrica clandestina de rifles desmontada pela Polícia Federal.

“Descobrimos uma fábrica que produzia mais de 3 mil rifles, operando em São Paulo e Minas Gerais. Essas armas abasteciam o crime organizado no Rio de Janeiro. Isso mostra que o crime está industrializado e exige ação coordenada entre estados”, observou.

Lula defendeu que o governo federal deve reforçar as capacidades de investigação e análise financeira, com ampliação de quadros técnicos e investimento em tecnologia de rastreamento.

“O crime hoje é digital e globalizado. Se a polícia tiver os incentivos e os meios certos, os resultados aparecem rapidamente”, concluiu.

PEC da Segurança Pública: novo pacto federativo

Entre as medidas estruturais, Lula destacou a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, enviada ao Congresso Nacional, que cria um sistema nacional de integração entre União, estados e municípios, com financiamento estável e compartilhado, e padronização da coleta e cruzamento de dados criminais.

O objetivo é superar a fragmentação das políticas de segurança e permitir uma gestão coordenada e baseada em evidências, com o uso de tecnologia e bancos unificados de informação.

“Queremos definir como a União pode participar do combate ao crime sem ferir a autonomia dos estados. A PEC será um marco para o fortalecimento institucional da segurança pública no Brasil”, declarou o presidente.

Lei Antifacção Criminosa e endurecimento penal

Outro ponto abordado foi a aprovação do Projeto de Lei Antifacção Criminosa, que endurece as penas para líderes de facções, prevê até 12 anos de prisão por conspiração e cria o Banco Nacional de Organizações Criminosas.

A nova legislação também reforça a proteção a agentes públicos, amplia o uso de cooperação internacional em investigações e permite confisco automático de bens de origem ilícita.

“Mandamos uma lei antifacção que aumenta a punição e dá mais instrumentos para as autoridades enfrentarem as facções. Estamos trabalhando para que a sociedade viva com paz e segurança”, afirmou Lula.

Diplomacia de paz e tensões com os EUA

A entrevista também abordou o quadro geopolítico regional, com Lula defendendo a América Latina como uma zona de paz. O presidente manifestou preocupação com a presença de navios de guerra norte-americanos no litoral da América do Sul e defendeu o diálogo como solução para as tensões.

“Conversei com o presidente Donald Trump e disse que a América Latina é uma região livre de armas nucleares e que deve continuar assim. O problema da Venezuela é político e deve ser resolvido pela política, não pela força”, afirmou.

Lula propôs a reedição de um Grupo de Amigos da Venezuela, iniciativa que coordenou em 2003 com o ex-presidente George W. Bush, para promover a mediação internacional e evitar o isolamento diplomático.

“Somos uma região de paz, não precisamos de guerra. O Brasil acredita no diálogo e na soberania”, completou.

Brasil como liderança ambiental e anfitrião da COP30

Na segunda parte da entrevista, Lula destacou que a realização da COP30 em Belém simboliza o reencontro do Brasil com a liderança ambiental mundial e o reconhecimento da Amazônia como “patrimônio da humanidade e laboratório da sustentabilidade”.

Segundo o presidente, o país está preparado para “fazer a melhor COP de todas as COPs”, apoiando-se em quatro pilares: infraestrutura adequada, segurança eficiente, acolhimento do povo paraense e riqueza cultural e gastronômica.

“O local está preparado, a estrutura é boa, o povo é acolhedor e a culinária é extraordinária. Os estrangeiros sairão daqui impressionados com a diversidade e a hospitalidade do Brasil”, afirmou.

Infraestrutura e inclusão social na Amazônia

Nos dias anteriores à entrevista, Lula percorreu obras e comunidades na região amazônica, incluindo a requalificação do Porto de Outeiro, a modernização do Aeroporto Internacional de Belém e visitas a aldeias indígenas, comunidades ribeirinhas e quilombolas.

O presidente destacou que as intervenções visam deixar um legado duradouro de infraestrutura, inclusão e valorização da cultura local, reforçando que a COP30 “não é apenas um evento, mas uma oportunidade de transformação estrutural da Amazônia”.

Transição energética e novos biomas em destaque

Lula reforçou que o Brasil chega à COP30 como líder global em energia limpa, com 87% da matriz elétrica proveniente de fontes renováveis, e como um dos maiores produtores de biocombustíveis e energia eólica do planeta.

“O Brasil é um ator decisivo nas negociações multilaterais. Temos uma matriz quase totalmente renovável e lideramos a transição energética no mundo em desenvolvimento”, disse.

O presidente também lembrou que o evento permitirá ao país apresentar seis biomas estratégicos — Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga, Pantanal e Pampa —, destacando sua biodiversidade e potencial econômico sustentável.

Petróleo na Margem Equatorial: entre prudência e realismo

Questionado sobre a exploração de petróleo na Margem Equatorial, Lula reiterou que o governo só autorizará avanços após estudos técnicos rigorosos e licenciamento ambiental transparente.

“Temos autorização apenas para o teste. Se houver petróleo, o processo de licenciamento começa do zero. Faremos tudo com o máximo de responsabilidade”, assegurou.

Contudo, o presidente ponderou que nenhum país pode abrir mão do petróleo de imediato, considerando as limitações energéticas globais. “Seria incoerente e irresponsável dizer que o Brasil vai abandonar o petróleo. A transição precisa ser gradual e planejada”, explicou.

Segurança pública, diplomacia regional e política ambiental

A entrevista de Lula reforça a estratégia do governo de unir segurança pública, diplomacia regional e política ambiental sob um discurso de soberania e liderança internacional. O presidente buscou demonstrar controle institucional e credibilidade, apresentando a COP30 como vitrine do Brasil moderno, capaz de equilibrar crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental.

Ao mesmo tempo, o discurso revelou as contradições da política brasileira contemporânea: a conciliação entre defesa ambiental e exploração energética, entre cooperação internacional e afirmação soberana, entre pacificação e enfrentamento militarizado do crime. A consolidação dessas agendas dependerá da capacidade de implementação e da estabilidade política interna durante e após a COP30.


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