O ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes manteve ao menos cinco contatos diretos, incluindo seis ligações telefônicas realizadas em um único dia, com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, para tratar da operação de venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB). A informação foi revelada pelo jornal O Estado de S. Paulo em reportagem publicada na terça-feira (23/12/2025), assinada pelos jornalistas David Friedlander e Eliane Cantanhêde.
Os contatos ocorreram justamente no período em que a autoridade monetária analisava a operação, apresentada como tentativa de salvamento da instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. O negócio, contudo, não se concretizou, e o Banco Master acabou sendo liquidado pelo Banco Central, sob suspeitas de fraudes estimadas em R$ 12,2 bilhões, conforme apurações em curso.
As revelações do Estadão contrastam frontalmente com notas oficiais divulgadas anteriormente, segundo as quais as conversas entre o ministro do STF e o presidente do Banco Central teriam se limitado “exclusivamente” às consequências institucionais das sanções impostas a Alexandre de Moraes com base na Lei Global Magnitsky. Caso as informações publicadas sejam confirmadas, o episódio pode, em tese, caracterizar advocacia administrativa, com indícios de conflito de interesses e potencial enriquecimento ilícito.
O quadro se torna ainda mais sensível diante do fato de que a advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro, firmou contrato no valor de R$ 129 milhões com a instituição envolvida, sem comprovação pública da efetiva prestação dos serviços correspondentes. Esse elemento amplia a gravidade institucional do caso e reforça a necessidade de apuração rigorosa, transparente e independente, em um suposto caso de advocacia administrativa com fins de enriquecimento ilícito.
Relatos obtidos junto a fontes do meio jurídico e do mercado financeiro indicam que Moraes telefonou seis vezes no mesmo dia a Galípolo para acompanhar o andamento da operação BRB–Master. No total, teriam ocorrido ao menos cinco interações diretas, incluindo uma reunião presencial, o que evidencia a intensidade e a persistência da interlocução durante um processo regulatório particularmente sensível.
A atuação do ministro teria ocorrido em um momento de divergência interna no Banco Central sobre a aprovação ou rejeição da aquisição. Segundo apurações, Moraes teria reiterado a Galípolo argumentos apresentados por Daniel Vorcaro, segundo os quais grandes bancos estariam resistindo à atuação do Banco Master por temor de aumento da concorrência no mercado financeiro.
Contradições nas versões oficiais
Em notas divulgadas no dia 23/12, Moraes afirmou que os contatos tiveram como objetivo exclusivo tratar dos efeitos das sanções econômicas impostas pelos Estados Unidos, notadamente a manutenção de contas bancárias, cartões e operações financeiras. O Banco Central confirmou a abordagem relacionada às sanções, mas não utilizou o termo “exclusivamente”.
Após a publicação da reportagem, Moraes divulgou nova nota detalhando datas e quantidade de encontros, afirmando que não realizou ligações telefônicas e que não tratou do Banco Master nas reuniões. As versões anteriores mencionavam genericamente “reuniões”, sem detalhamento.
Linha do tempo e revelações cruzadas
A existência de conversas fora da agenda pública foi inicialmente revelada por Malu Gaspar, de O Globo, que apontou quatro encontros, sendo um presencial. O Estadão confirmou ao menos cinco interações, com base em relatos de pessoas que ouviram versões de um dos envolvidos.
A compra do Master pelo BRB foi anunciada no fim de março e rejeitada pelo BC em 3 de setembro. Moraes foi sancionado pela Lei Magnitsky em 30 de julho, e sua esposa, Viviane Barci de Moraes, em 22 de setembro. O Banco Master foi liquidado em 18 de novembro.
Conflito de interesses e valores em jogo
O episódio ganha maior gravidade diante dos vínculos financeiros entre o Banco Master e a família do ministro. O escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes firmou contrato com o banco prevendo R$ 3,6 milhões mensais entre 2024 e 2027, totalizando R$ 129 milhões se integralmente executado. O contrato vigorou enquanto Moraes mantinha contatos com o presidente do BC e foi encerrado com a liquidação da instituição.
A revelação ampliou a reação política. O senador Alessandro Vieira anunciou a coleta de assinaturas para instaurar uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) destinada a apurar o contrato e eventual advocacia administrativa junto ao Banco Central.
Sanções, diplomacia e recuos
Oficialmente, Moraes sustenta que sua preocupação se restringia aos efeitos da Lei Magnitsky, aplicada em julho pela Casa Branca, no contexto de pressões internacionais relacionadas ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro. Em setembro, Viviane Barci também foi incluída na lista de sanções.
Em 12 de dezembro, o então presidente dos EUA, Donald Trump, retirou Moraes e sua esposa da lista de sancionados, em gesto interpretado como reaproximação diplomática com o governo Lula. Nem as notas do ministro nem as do BC mencionaram o Banco Master.
Pressão institucional e erosão de credibilidade
O caso expõe tensões profundas entre Poder Judiciário e autoridade monetária, ao revelar contatos reiterados de um ministro do STF em um processo regulatório de alto impacto financeiro. A insistência, medida pelo número de ligações em curto espaço de tempo, fragiliza a narrativa de interlocução meramente institucional e reforça dúvidas sobre interferência indevida.
A presença de interesse econômico direto de familiar do magistrado amplia o problema, deslocando o debate para o campo do conflito de interesses e da ética pública. Mesmo que não haja comprovação de ilegalidade, a situação compromete a confiança nas instituições, sobretudo no momento em que o Banco Central precisava preservar autonomia e rigor técnico.
Por fim, as contradições nas versões oficiais e a ausência de transparência inicial aprofundam a crise reputacional. Em democracias consolidadas, a separação entre influência política, Judiciário e regulação financeira é um pilar histórico. Quando essa fronteira se torna opaca, o dano institucional tende a ser duradouro.
Principais Dados
Personagens centrais
- Alexandre de Moraes — Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)
- Gabriel Galípolo — Presidente do Banco Central do Brasil
- Viviane Barci de Moraes — Advogada, esposa do ministro
- Daniel Vorcaro — Controlador do Banco Master
- Alessandro Vieira — Senador (autor da iniciativa de CPI)
Contatos e pressão institucional
- 6 ligações telefônicas em um único dia entre Moraes e Galípolo
- Ao menos 5 conversas no total, incluindo 1 encontro presencial
- Contatos ocorreram durante a análise regulatória da venda do Banco Master ao BRB
- Conversas fora da agenda oficial do Banco Central
Operação financeira (BRB – Banco Master)
- Negócio: Venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB)
- Anúncio da operação: Março de 2025
- Decisão do BC: Rejeição da compra em 3 de setembro de 2025
- Desfecho: Banco Master liquidado em 18 de novembro de 2025
Fraudes e valores envolvidos
- Suspeita de fraudes: R$ 12,2 bilhões (estimativa do Banco Central)
- Contrato do escritório de Viviane Barci:
- R$ 3,6 milhões por mês
- Vigência: 2024 a 2027
- Valor total potencial: R$ 129 milhões
- Contrato estava vigente durante os contatos entre Moraes e o BC
- Encerramento do contrato ocorreu com a liquidação do banco
Conflito de interesses e ética pública
- Relação financeira direta entre o Banco Master e a família do ministro
- Questionamentos sobre advocacia administrativa
- Pressão sobre autoridade monetária em processo decisório sensível
- Debate sobre autonomia do Banco Central e separação institucional
Sanções internacionais (Lei Magnitsky)
- Alexandre de Moraes sancionado: 30 de julho de 2025
- Viviane Barci sancionada: 22 de setembro de 2025
- Justificativa oficial dos contatos: tratar efeitos das sanções financeiras
- Retirada das sanções: 12 de dezembro de 2025, por decisão de Donald Trump
Versões oficiais e contradições
- Moraes afirmou que tratou exclusivamente da Lei Magnitsky
- Banco Central confirmou o tema das sanções, sem usar o termo “exclusivamente”
- Em nota posterior, Moraes:
- Negou ter feito ligações
- Negou ter tratado do Banco Master
- Apurações jornalísticas confirmam ligações e múltiplos contatos
Reação política e institucional
- Anúncio de coleta de assinaturas para CPI no Senado
- Tema envolve:
- STF
- Banco Central
- Sistema financeiro
- Relações diplomáticas Brasil–EUA
- Caso amplia debate sobre credibilidade institucional e governança pública
Impacto institucional
- Abalo na percepção de independência do Banco Central
- Questionamentos sobre conduta de ministros do STF fora da jurisdição judicial e de suposta advocacia administrativa com fins de enriquecimento ilícito
- Reforço do debate público sobre limites éticos, transparência e controle de poder
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