O colapso do Banco Master trouxe à tona fragilidades relevantes no Banco de Brasília (BRB), que passou a ser alvo de rebaixamentos em suas notas de crédito e de questionamentos sobre capitalização, liquidez e gestão de riscos, após a revelação de que a instituição adquiriu quase R$ 13 bilhões em créditos considerados suspeitos ou fraudulentos.
A liquidação do Banco Master, determinada no mês anterior, desencadeou uma crise de confiança no BRB, banco controlado pelo Governo do Distrito Federal. Segundo autoridades e agências de classificação de risco, parte relevante da carteira adquirida junto ao Master apresentava indícios de irregularidades, exigindo substituições e liquidações emergenciais.
De acordo com informações divulgadas pelo próprio banco, mais de R$ 10 bilhões desses ativos já foram substituídos ou liquidados. Ainda assim, permanecem dúvidas no mercado quanto à qualidade dos novos ativos incorporados ao balanço e ao impacto residual da operação sobre a solidez financeira da instituição.
Para analistas, o episódio expõe falhas estruturais. “O que chama atenção é o tamanho da carteira que precisou ser substituída, um sinal claro de deficiência em controles internos e gerenciamento de risco”, afirmou Daniel Girola, analista sênior da Moody’s, em entrevista à Bloomberg News.
Rebaixamentos de rating e pressão das agências de risco
Após uma sequência de rebaixamentos nas notas de crédito, o BRB passou a figurar sob revisão negativa para novos cortes. A Moody’s retirou as classificações do banco de sua lista de ratings no início de dezembro, a pedido da própria instituição, ampliando a incerteza sobre a avaliação de risco.
Segundo a agência, a carteira adquirida do Master representava ao menos 21% do portfólio total do BRB em junho de 2025, proporção considerada elevada para um banco de médio porte. A substituição ocorreu por ativos como empréstimos corporativos, fundos de investimento em ações, títulos públicos federais e carteiras originadas pelo próprio Master e pelo Will Bank, fintech controlada majoritariamente pelo grupo de Daniel Vorcaro.
A Moody’s alertou que essas mudanças podem aumentar o risco de concentração e deteriorar o perfil de qualidade dos ativos, em um banco cuja carteira historicamente era composta por créditos mais pulverizados e operações com garantias.
Capitalização frágil e baixa capacidade de absorção de perdas
Outro ponto central das preocupações do mercado está na estrutura de capital do BRB. O índice de capital principal (CET1) do banco era de 8,1% em junho, apenas 1,1 ponto percentual acima do mínimo regulatório de 7%. Para efeito de comparação, o Itaú registrava 13,1% e o BTG Pactual, 12% no mesmo período.
As agências de rating avaliam que a baixa rentabilidade recorrente e os níveis modestos de capitalização reduzem a capacidade do BRB de absorver perdas adicionais decorrentes do escândalo. A S&P Global Ratings destacou que um prolongamento das investigações tende a pressionar a lucratividade, limitar a geração de negócios e restringir a flexibilidade financeira da instituição.
Investigações, mudanças na gestão e resposta institucional
Os problemas se agravaram com a prisão do presidente e controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, acusado de fraude. Embora Vorcaro negue irregularidades, o episódio acelerou a liquidação da instituição e ampliou os reflexos sobre parceiros e compradores de suas carteiras.
No BRB, o então presidente Paulo Henrique Costa foi dispensado após a liquidação do Master. Ele afirmou estar disposto a colaborar com as autoridades, mas não concedeu entrevistas sobre o caso. O banco informou que contratou uma investigação independente para apurar os fatos e declarou que o Banco Central acompanhou o processo de substituição dos ativos.
Além disso, o conselho de administração do BRB aprovou um pedido para que o banco atue como assistente de acusação nos processos relacionados ao Banco Master, reforçando a estratégia de distanciamento institucional do escândalo.
Expansão acelerada e retorno aquém do esperado
Nos últimos anos, o BRB passou por uma expansão agressiva, especialmente a partir de 2019, quando Paulo Henrique Costa assumiu a presidência por indicação do governador Ibaneis Rocha. Tradicionalmente focado na folha de pagamento dos servidores do DF, o banco ampliou sua atuação nacional com crédito consignado, financiamento imobiliário e captação via depósitos judiciais e investidores pessoa física.
Apesar do crescimento do balanço, a estratégia não se traduziu em aumento estrutural de lucratividade. A S&P estima que o retorno sobre patrimônio líquido divulgado no primeiro semestre de 2025, de cerca de 26%, cairia para algo próximo de 6% se fossem excluídos os efeitos pontuais de vendas de carteira realizadas para sustentar os índices de capital.
O banco chegou a anunciar uma oferta pública de ações em janeiro de 2024, que acabou fracassando. Posteriormente, realizou aumentos de capital de R$ 1 bilhão, em duas etapas, com investidores não revelados.
Papel do Governo do DF e incertezas sobre apoio estatal
Como acionista majoritário, o Governo do Distrito Federal admitiu que poderá realizar um aporte de capital, caso fique comprovada a necessidade após a conclusão das investigações. Em nota enviada à Bloomberg News, o governo afirmou que “não envidará esforços” para preservar a instituição, se necessário.
A Fitch Ratings, contudo, avalia que qualquer suporte estatal será politicamente sensível, mais custoso e complexo, diante das investigações em curso e do escrutínio público sobre o caso. Para a agência, permanecem incertezas quanto a timing, escopo e coordenação de um eventual resgate.
Efeitos sistêmicos e desdobramentos no mercado financeiro
Os efeitos do colapso do Master extrapolaram o BRB. O Will Bank enfrentou dificuldades, mas escapou da liquidação e segue em processo de negociação para venda, com interesse do Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi. Já o Banco Pleno, antigo Banco Voiter, chegou a oferecer títulos pagando 165% do CDI, patamar muito acima do praticado pelos grandes bancos, o que acendeu alertas no mercado.
Embora essas instituições afirmem operar dentro das normas do Banco Central, o episódio reacendeu o debate sobre falhas de supervisão, transparência na originação de ativos e o uso do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como elemento de incentivo a estratégias excessivamente arriscadas.
Um alerta estrutural para o sistema bancário
O colapso do Banco Master e seus desdobramentos sobre o BRB revelam fragilidades profundas na governança, no gerenciamento de riscos e na supervisão prudencial de instituições financeiras de médio porte. A aquisição de uma carteira equivalente a mais de um quinto do portfólio do banco, sem mecanismos eficazes de verificação, aponta para falhas que extrapolam um episódio isolado.
Embora o BRB tenha reagido com substituição de ativos, investigações independentes e cooperação com autoridades, o caso deixa dúvidas legítimas sobre a eficácia dos controles internos e o papel do acionista estatal na definição de estratégias de crescimento. O risco reputacional, nesse contexto, tende a ser tão relevante quanto o financeiro.
Mais do que um problema pontual, o episódio reforça a necessidade de revisão rigorosa das práticas de expansão, da dependência de captações garantidas pelo FGC e da fiscalização de operações entre instituições, sob pena de novos choques de confiança no sistema bancário brasileiro.
*Com informações da Bloomberg.








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