O Governo da Bahia reinaugurou nesta segunda-feira (08/12/2025) o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, instalado no antigo Engenho Freguesia, após ampla reforma que modernizou a estrutura, restaurou peças históricas e inaugurou novas exposições multimídia. O espaço, que integra o patrimônio cultural do Recôncavo, abre as portas com a mostra temporária “Encruzilhadas”, reunindo 40 artistas brasileiros e africanos, e um acervo permanente com peças restauradas que narram a formação histórica, social e cultural da região.
O evento reuniu moradores, pesquisadores, autoridades estaduais e representantes culturais em uma cerimônia que celebrou a preservação da memória baiana. Edificado no século XVI, o antigo engenho foi restaurado para receber novas salas expositivas, iluminação cênica e recursos tecnológicos, tornando o conteúdo mais acessível ao público visitante. O governador Jerônimo Rodrigues destacou o caráter educativo do equipamento e sua relevância na formação histórica.
Segundo o chefe do Executivo, o museu cumpre função social ao promover a leitura crítica do passado.
“Este museu não é apenas um prédio restaurado. Ele representa nossa luta por reconhecer histórias que sempre estiveram aqui. Queremos que estudantes venham, conheçam e façam sua própria leitura desse passado”, afirmou.
O ato de reinauguração marca o início de um novo ciclo institucional, voltado à valorização da identidade negra, indígena e popular. O museu passa a concentrar atividades pedagógicas, ações comunitárias e visitas guiadas, ampliando o potencial de difusão histórica e cultural no Recôncavo Baiano.
Impacto econômico e valorização do território
A reabertura do equipamento não apenas resgata memória — também movimenta a economia local. A comerciante Dalila Ramos, moradora de Candeias, comemorou o fluxo turístico esperado.
“Quando o museu abre as portas, abre também para o nosso trabalho. Visitantes conhecem nossa história e também nossa comida, nosso artesanato e nossa comunidade”, relatou.
Com investimento aproximado de R$ 42 milhões via Prodetur Nacional Bahia, o projeto executado pela Secretaria de Turismo (Setur) incluiu restauração completa da estrutura, urbanização do entorno e instalação de 136 câmeras de segurança. Um novo atracadouro permite o acesso marítimo pela Baía de Todos-os-Santos, inserindo o museu em rotas de turismo náutico.
A chefe de gabinete da Setur, Giulliana Brito, destacou o potencial estratégico.
“Esta requalificação coloca o Recôncavo no mapa do turismo cultural do Brasil e do mundo”, declarou.
A Secretaria de Infraestrutura (Seinfra) pavimentou 2,18 km de vias, conectando o museu ao distrito de Caboto, com investimento de R$ 4,5 milhões, facilitando o trânsito de visitantes e reforçando a integração territorial.
Arte, representatividade e educação
A nova fase institucional prioriza narrativas históricas antes marginalizadas pela historiografia oficial. A exposição “Encruzilhadas” exibe obras de Mestre Didi, Pierre Verger, Rubem Valentim, Alberto Pitta, entre outros, propondo diálogo entre Brasil e África. A curadoria privilegia identidades negras e indígenas e busca ampliar o debate sobre ancestralidade, escravidão e resistência.
O acervo permanente conta com 260 peças, das quais 141 foram restauradas, incluindo imagens sacras dos séculos XVII ao XIX, documentos, objetos litúrgicos e peças ligadas ao ciclo do açúcar. Para o secretário de Cultura, Bruno Monteiro, o museu torna-se instrumento vivo de reflexão.
“Estamos entregando um espaço de crítica e diálogo com as comunidades. Aqui fala o Recôncavo, fala o povo negro que construiu este país”, afirmou.
Memória, patrimônio e permanência histórica
O restauro do Museu do Recôncavo Wanderley Pinho revela uma escolha política e cultural relevante: preservar o passado não apenas como registro, mas como ferramenta de leitura do presente. Em um país que frequentemente negligencia sua memória material, iniciativas de conservação representam um compromisso civilizatório. A reabertura do museu indica retomada de valorização do patrimônio histórico, ainda que marcada por desafios de manutenção e continuidade.
A incorporação de narrativas negras e indígenas corrige omissões constatadas na historiografia tradicional, fortalecendo pluralidade de vozes e ampliando o repertório interpretativo. Permanecem, contudo, questionamentos sobre políticas de longo prazo para financiamento cultural, capacitação de mediadores e integração com a rede de ensino. A efetividade deste investimento dependerá de ocupação contínua, acesso democrático, manutenção técnica e articulação com a comunidade.
Como guardião de memórias do Recôncavo, o museu reafirma seu papel de ponte entre passado e futuro. O valor histórico do espaço não está apenas nas paredes restauradas, mas na permanência da lembrança — porque um povo que preserva sua memória preserva também sua identidade.









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