A Doutrina Monroe não é um artefato do passado. Ela é uma estrutura mental. Um modo de organizar o espaço. Um princípio simples, repetido com instrumentos diferentes ao longo de dois séculos. A ideia central nunca mudou. O hemisfério não é neutro. Ele é vital. E, sendo vital, não admite concorrência estrutural. A história da Venezuela permite acompanhar essa lógica em movimento, desde o momento em que os Estados Unidos se percebem como potência até o instante atual em que precisam reafirmar essa condição diante de um mundo que já não aceita hierarquias implícitas.
No século XIX, o problema americano era a permanência europeia. A disputa do Essequibo expôs o limite da velha ordem colonial e o nascimento de uma nova. Quando Washington intervém na controvérsia entre a Venezuela e o Império Britânico, não o faz por solidariedade republicana, mas por cálculo estratégico. O gesto é inaugural. Pela primeira vez, os Estados Unidos afirmam que não apenas rejeitam interferência europeia, mas que possuem autoridade para arbitrar conflitos no continente. A nota de Olney não cria essa pretensão. Ela a verbaliza. O laudo arbitral que se segue não resolve apenas uma fronteira. Ele inaugura uma hierarquia.
Ao longo do século XX, essa hierarquia se consolida por repetição. Intervenções no Caribe. Tutelas financeiras. Operações políticas. Depois, contenção ideológica. A Doutrina Monroe deixa de ser citada porque já não precisa ser. Ela está incorporada na prática. O hemisfério funciona. A Venezuela, integrada ao circuito energético e ao mercado americano, ocupa lugar previsível. Não há fricção relevante. A ordem parece natural. É justamente aí que se instala a ilusão liberal do pós-Guerra Fria: a crença de que a história havia superado as esferas de influência; de que mercados e normas substituiriam o poder bruto; de que a geopolítica havia sido domesticada.
Essa ilusão começa a ruir no final do século XX e colapsa definitivamente no início do XXI. A Venezuela reaparece como problema não porque muda sua ideologia, mas porque muda o sistema. O chavismo coincide com a emergência de uma China capaz de oferecer financiamento, infraestrutura e tecnologia sem submeter seus parceiros à arquitetura normativa ocidental. Coincide também com uma Rússia disposta a romper o consenso tácito que mantinha potências extra-hemisféricas afastadas do Caribe. O que antes era desvio torna-se padrão. O que antes era exceção torna-se risco sistêmico.
Aqui ocorre a mutação decisiva da Doutrina Monroe. Ela deixa de ser antieuropeia. Deixa de ser anticomunista. Passa a ser explicitamente antissistêmica. O alvo não é um regime. É uma estrutura alternativa de poder. A China não ameaça o hemisfério com navios de guerra; ameaça com portos, linhas de transmissão, redes digitais, financiamento de longo prazo, controle de ativos e cadeias produtivas. A Rússia não ameaça com comércio; ameaça com presença militar, símbolos e a lembrança de que o Caribe nunca deixou de ser sensível. Juntas, introduzem no entorno americano a possibilidade mais perigosa de todas: a perda de controle do ambiente.
É nesse ponto que a nova estratégia americana deve ser lida. Não como documento programático comum, mas como ajuste ontológico da política externa. O texto recentemente publicado abandona o léxico universalista que dominou o discurso americano por décadas. Democracia, governança global e multilateralismo aparecem esvaziados ou subordinados. Em seu lugar surgem palavras antigas, agora assumidas sem pudor: interesse, domínio, ativos, cadeias, negação, controle. O hemisfério é descrito como espaço a ser organizado, não persuadido.
A reafirmação explícita da Doutrina Monroe não é retórica. É confissão. O documento reconhece que o maior risco não é a agressão direta, mas a consolidação silenciosa de presenças adversárias. Por isso, o foco se desloca para infraestrutura crítica, energia, portos, telecomunicações, finanças e dados. A estratégia entende que quem controla esses elementos controla decisões futuras. A política externa torna-se engenharia preventiva: não se reage a crises; evita-se que elas amadureçam.
A noção de condicionalidade assume papel central. Alianças deixam de ser pactos abstratos e transformam-se em contratos funcionais. Ajuda, cooperação, acesso a mercados e investimentos passam a depender do alinhamento estrutural. Reduzir a influência de competidores não é sugestão; é critério. O documento não esconde esse ponto. Ele o normaliza. Países do hemisfério são convocados a atuar como extensões da ordem americana, controlando migração, crime, rotas e fluxos. A soberania permanece formal; a autonomia torna-se negociada.
O componente energético e financeiro dá ao texto sua espessura filosófica mais profunda. Energia barata é apresentada como base da civilização industrial e da superioridade tecnológica. A dominância financeira é tratada como instrumento legítimo de poder nacional. Não há preocupação com a harmonia do sistema, mas com a sobrevivência em um mundo competitivo. O abandono explícito de agendas climáticas universais revela a prioridade absoluta da vantagem relativa. O documento não promete um mundo melhor; promete um mundo funcional aos interesses americanos.
Nesse contexto, a Venezuela do século XXI desempenha papel semelhante ao da Venezuela do século XIX. Funciona como catalisador. No passado, para afirmar a autoridade americana diante da Europa; agora, para reafirmá-la diante da China e da Rússia. O padrão se repete. A reação não é invasão clássica, mas cerco sofisticado: sanções calibradas, licenças seletivas, interdição marítima, pressão diplomática e presença militar dissuasória. A Doutrina Monroe não reaparece como espetáculo; reaparece como método.
A densidade histórica do momento reside exatamente nisso. A Monroe retorna não por nostalgia, mas porque o sistema internacional voltou a operar segundo lógicas que nunca desapareceram. A diferença é que agora o poder se exerce menos pela ocupação e mais pelo desenho das regras; menos pelo discurso e mais pela arquitetura. O documento é claro ao assumir essa transição.
Para o Brasil, essa leitura é inescapável. O país não é Venezuela, mas não está fora do campo gravitacional da Monroe contemporânea. Sua relação com a China, sua ambição tecnológica, sua posição energética e seu papel regional são observados à luz dessa estratégia. A margem de manobra existe, mas não é retórica: depende de capacidade material, densidade industrial e clareza estratégica. Em um mundo que abandona ilusões universalistas, a autonomia só sobrevive onde há poder para sustentá-la.
A história que se inicia no Essequibo e desemboca na nova estratégia americana ensina uma lição antiga, mas frequentemente ignorada. As grandes potências não precisam declarar hostilidade; basta organizar o espaço. Quando isso ocorre, os demais não escolhem entre confronto e submissão. Escolhem entre compreender o sistema ou serem moldados por ele.
*Zilan Costa e Silva, advogado e professor.











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