Operação Unha e Carne avança, prende desembargador do TRF-2 e expõe rede de vazamentos institucionais ligados ao Comando Vermelho no Rio de Janeiro

A Polícia Federal deflagrou nesta terça-feira (16/12/2025) a segunda fase da Operação Unha e Carne, aprofundando uma investigação de grande envergadura sobre o vazamento de informações sigilosas de operações policiais e judiciais que teriam beneficiado diretamente a facção criminosa Comando Vermelho (CV). A ofensiva culminou na prisão preventiva do desembargador federal Macário Ramos Judice Neto, do Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF-2), e no cumprimento de mandados de busca e apreensão contra o deputado estadual licenciado Rodrigo Bacellar (União Brasil), ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).

As ordens foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e cumpridas no Rio de Janeiro e no Espírito Santo, evidenciando o caráter interestadual da apuração. Segundo a PF, o foco da investigação é a existência de um esquema estruturado de acesso privilegiado e repasse indevido de informações sensíveis, envolvendo agentes públicos de diferentes Poderes e com impacto direto no andamento de investigações contra o crime organizado.

O eixo central da investigação e o caso TH Joias

O caso tem como núcleo a Operação Zargun, deflagrada em setembro, que resultou na prisão do então deputado estadual Thiago Raimundo dos Santos, conhecido como TH Joias. De acordo com as investigações, ele atuava como operador político do Comando Vermelho dentro da Alerj, utilizando o mandato parlamentar para facilitar atividades ilícitas da facção.

A Polícia Federal aponta que informações estratégicas sobre a operação teriam sido vazadas previamente, permitindo a obstrução das apurações, a eliminação de provas e o ajuste de rotas por integrantes da organização criminosa. Esse fluxo de informações indevidas é o elo que conecta o núcleo político, o núcleo judicial e o braço operacional do crime organizado.

Prisão de desembargador expõe fragilidade institucional no Judiciário

A prisão de Macário Ramos Judice Neto, desembargador em exercício do TRF-2 e relator do processo envolvendo TH Joias, representa um dos pontos mais sensíveis da operação. Segundo a PF, o magistrado teria antecipado dados sigilosos da investigação, favorecendo diretamente o grupo criminoso.

As suspeitas se baseiam em mensagens e registros telemáticos obtidos durante a apuração, especialmente a partir de material apreendido na primeira fase da operação. A PF sustenta que o vazamento comprometeu medidas investigativas e interferiu na eficácia da repressão estatal ao crime organizado.

A trajetória do magistrado é marcada por episódios controversos. Ele permaneceu afastado da magistratura por aproximadamente 18 anos, em razão de denúncias relacionadas à suspeita de venda de sentenças, quando atuava como juiz federal no Espírito Santo. Apesar de ter sido absolvido em ação penal e reintegrado por decisões administrativas, seu retorno à ativa e posterior promoção a desembargador em 2023 sempre foram acompanhados de críticas e questionamentos institucionais.

Atualmente, Judice Neto encontra-se preso na sede da Polícia Federal no Rio de Janeiro, enquanto sua defesa sustenta que a medida seria desproporcional e afirma que buscará sua revogação nos autos.

Rodrigo Bacellar e o núcleo político do vazamento

O deputado estadual Rodrigo Bacellar, um dos nomes mais influentes da política fluminense recente, voltou a ser alvo direto da Polícia Federal. Preso na primeira fase da Operação Unha e Carne, ele foi solto por decisão do plenário da Alerj, passando a responder em liberdade mediante uso de tornozeleira eletrônica.

As investigações indicam que Bacellar teria acesso antecipado a informações internas das apurações e que esses dados teriam sido repassados a terceiros, interferindo diretamente no curso das investigações que miravam o Comando Vermelho. Segundo a PF, há indícios de que o parlamentar teria alertado TH Joias sobre a iminência da operação policial, inclusive com orientações para destruição de provas.

Em depoimento, Bacellar nega relação além da institucional com TH Joias, afirmando que o contato ocorreu apenas após a posse do então deputado. A Polícia Federal, no entanto, sustenta que elementos documentais e técnicos contradizem essa versão.

Infiltração do Comando Vermelho no aparelho do Estado

O caso TH Joias revelou um quadro mais amplo de infiltração do crime organizado em estruturas formais do Estado. De acordo com a investigação, o ex-deputado utilizava o mandato para facilitar o tráfico de drogas, a negociação de fuzis e a aquisição de equipamentos antidrones, destinados principalmente ao Complexo do Alemão, uma das principais bases do Comando Vermelho no Rio de Janeiro.

As apurações identificaram conexões diretas entre TH Joias e lideranças da facção, além do envolvimento de policiais militares, um delegado federal, ex-secretários e ex-subsecretários estaduais. No conjunto das operações Bandeirante, Zargun e Unha e Carne, a força-tarefa integrada por órgãos federais e estaduais cumpriu dezenas de mandados e determinou o sequestro de aproximadamente R$ 40 milhões em bens, evidenciando a dimensão econômica do esquema.

Conexões institucionais e contexto constitucional

Outro ponto sensível revelado pela operação é a existência de conexões familiares e institucionais dentro da estrutura do poder público. A esposa do desembargador preso, Flávia Judice, atuava até o início de novembro no gabinete da diretoria-geral da Alerj, período em que as investigações contra TH Joias já estavam em curso.

Até o momento, não há imputação penal formal contra ela, sendo citada apenas como conexão institucional no inquérito. Ainda assim, o dado reforça questionamentos sobre ambientes permissivos, conflitos de interesse e falhas de controle interno.

A operação também se insere no contexto do julgamento da ADPF nº 635/RJ, que determinou a atuação da Polícia Federal em investigações estruturais sobre organizações criminosas violentas e suas conexões com agentes públicos, ampliando o alcance institucional das apurações e concentrando o caso no Supremo Tribunal Federal.

Tensões entre os Poderes

A Operação Unha e Carne expõe, de forma inequívoca, a gravidade da infiltração do crime organizado em instâncias estratégicas do Estado, inclusive no Judiciário e no Legislativo. A prisão de um desembargador em exercício rompe um tabu institucional e evidencia falhas profundas nos mecanismos de controle e supervisão.

O caso também revela tensões entre os Poderes, especialmente quando decisões políticas — como a soltura de um parlamentar por deliberação do plenário legislativo — confrontam medidas judiciais fundamentadas em investigações criminais robustas. Essa dinâmica fragiliza o sistema de freios e contrapesos e alimenta a percepção de autoproteção corporativa.

Persistem lacunas relevantes quanto à extensão total da rede de colaboradores, à responsabilidade administrativa de órgãos de controle e à velocidade das respostas institucionais. A credibilidade do sistema dependerá da consolidação das provas, da transparência processual e do julgamento célere, reafirmando o princípio de que nenhuma autoridade está acima da lei.

Principais dados organizados por categorias

Operação policial

  • Nome: Operação Unha e Carne (2ª fase)
  • Órgão responsável: Polícia Federal
  • Autoridade judicial: Supremo Tribunal Federal
  • Estados atingidos: Rio de Janeiro e Espírito Santo

Principais investigados

  • Macário Ramos Judice Neto – desembargador do TRF-2 (preso)
  • Rodrigo Bacellar (União Brasil) – deputado estadual licenciado e ex-presidente da Alerj
  • Thiago Raimundo dos Santos (TH Joias) – ex-deputado estadual (preso)

Condutas investigadas

  • Vazamento de informações sigilosas
  • Obstrução de investigações policiais
  • Favorecimento ao Comando Vermelho
  • Uso indevido de cargos públicos

Crime organizado

  • Facção envolvida: Comando Vermelho
  • Atividades atribuídas: tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro
  • Área de atuação destacada: Complexo do Alemão

Medidas judiciais e valores

  • Prisões preventivas e buscas
  • Uso de tornozeleira eletrônica
  • Aproximadamente R$ 40 milhões em bens sequestrados

Contexto institucional

  • Investigação vinculada à ADPF das Favelas
  • Atuação conjunta de órgãos federais e estaduais
  • Caso centralizado no Supremo Tribunal Federal

*Com informações da Polícia Federal, Veja, UOL, Folha de S.Paulo, Metrópoles. Estadão e Agência Brasil.


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