A persistência da corrupção estrutural no Brasil, associada à percepção crescente de sua infiltração nos próprios órgãos incumbidos de conter o abuso de poder, aprofunda a desesperança social e mina o vínculo essencial entre governantes e governados. Quando instituições concebidas para limitar excessos — como o Poder Judiciário e o Ministério Público — passam a ser percebidas como participantes do desequilíbrio que deveriam corrigir, instala-se uma crise de legitimidade que transcende governos e conjunturas. Nesse cenário de erosão institucional, a metáfora da guilhotina ressurge não como apologia à violência, mas como símbolo de limite moral, de exigência de consequência e de repúdio à impunidade, elemento corrosivo que dissolve lentamente os fundamentos da República.
A tradição republicana sempre reconheceu que o poder tende ao abuso quando não encontra freios eficazes. A História ensina que nenhuma sociedade suporta indefinidamente a dissociação entre autoridade e responsabilidade. Há um ponto em que a tolerância deixa de ser virtude cívica e se converte em cumplicidade silenciosa. A guilhotina, na memória política do Ocidente, não deve ser compreendida como fetiche de violência, mas como símbolo extremo de ruptura institucional diante da corrupção, do privilégio e da impunidade convertida em norma. No Brasil contemporâneo, sua evocação reaparece não como proposta literal — o que seria inaceitável —, mas como metáfora severa de um anseio coletivo por responsabilização efetiva, igualdade perante a lei e superação da leniência estrutural com o poder corrompido.
A engrenagem da impunidade e a crise de confiança nos freios institucionais
A corrupção brasileira não é episódica nem circunstancial. Ela se organiza como método, atravessa governos, partidos e instituições, adapta-se às mudanças normativas e sobrevive graças a uma engrenagem previsível: investigações seletivas, processos intermináveis, nulidades artificiais e prescrições oportunas. O resultado é recorrente: sanções recaem sobre a periferia do sistema, enquanto o núcleo do poder permanece protegido por um labirinto jurídico que confunde garantias constitucionais com privilégios de casta. Essa distorção subverte o princípio republicano segundo o qual a lei deve ser geral, impessoal e igualmente vinculante.
O quadro se agrava quando a percepção pública — alimentada por escândalos sucessivos, decisões controversas e opacidade institucional — é a de que a corrupção não se limita ao Executivo ou ao Legislativo, mas alcança também as instâncias encarregadas de fiscalizar e julgar. Quando os freios deixam de conter e passam a ser vistos como parte do problema, rompe-se o equilíbrio delicado entre poder e controle. A lei deixa de ser referência moral e passa a ser interpretada como instrumento de conveniência, moldável conforme a posição de quem a invoca. Nesse ambiente, floresce um sentimento perigoso: a crença difusa de que apenas uma ruptura com a ordem estabelecida poderia interromper o ciclo de abusos percebido como permanente.
A guilhotina como linguagem simbólica da República em crise
É nesse contexto que a guilhotina simbólica se impõe como linguagem política incômoda, porém reveladora. Não corta corpos, mas deveria cortar vínculos espúrios entre o público e o privado; não derrama sangue, mas precisa derrubar mandatos e carreiras erguidos à sombra do ilícito; não ameaça o Estado de Direito, mas o reivindica em sua forma substancial, resgatando-o da erosão provocada pela impunidade reiterada. Trata-se, em essência, de um chamado à aplicação rigorosa, previsível e universal da lei — algo que, paradoxalmente, ainda soa radical no Brasil.
A tradição republicana sempre foi inequívoca ao afirmar que onde não há consequência, não há República, mas simulacro. O problema brasileiro não reside na ausência de normas, mas na recusa sistemática em aplicá-las aos mesmos de sempre. Consolidou-se um ambiente em que a punição se tornou exceção e a absolvição, regra tácita para os bem relacionados. Essa inversão corrói a confiança social, desmoraliza instituições e alimenta o cinismo político, sentimento que precede, historicamente, a decadência das ordens republicanas.
A guilhotina, enquanto metáfora, cumpre um papel que a retórica institucional já não consegue cumprir. Ela lembra que nenhuma ordem política se sustenta indefinidamente sobre a impunidade. Lembra que a paciência social tem limites. Lembra que discursos morais perdem legitimidade quando não são acompanhados de atos concretos. Mais do que isso, expõe o fracasso de um sistema que promete justiça, mas entrega acomodações — especialmente quando os órgãos de controle falham em exercer autocontenção, transparência e responsabilidade.
Advertência final à República
O Brasil não necessita de soluções messiânicas, nem de justiçamentos simbólicos para consumo ocasional. Necessita de instituições previsíveis, de freios reais ao poder, de órgãos de controle imunes a pressões políticas e corporativas, de um Judiciário consciente de seu papel histórico e de um Ministério Público fiel à legalidade, e não a projetos de poder. Precisa, sobretudo, de uma regra simples e civilizatória: quem corrompe, responde; quem abusa, cai; sempre.
Enquanto a guilhotina permanecer confinada ao campo da ficção e da metáfora, persistirá no Brasil um déficit moral e institucional profundo. Não se trata de exaltação da violência, mas de constatação histórica: símbolos extremos só sobrevivem onde as instituições falham reiteradamente. O dia em que essa imagem deixar de ser evocada não será o do terror, mas o da maturidade republicana.
Esse dia somente chegará quando a Lei deixar de falhar como prática cotidiana, quando a ética pública deixar de ser episódica e quando a moralidade institucional deixar de servir como retórica legitimadora para se tornar norma efetiva de conduta. Até lá, a República seguirá vivendo sob um simulacro de legalidade, no qual normas existem, mas não vinculam; instituições funcionam, mas não corrigem; autoridades governam, mas não respondem.
A História demonstra que Repúblicas não colapsam apenas por golpes ou revoluções, mas por acumulação de concessões morais, por conivência reiterada com o ilícito e por autoproteção corporativa travestida de legalidade. Onde não há responsabilização efetiva, há decadência. E onde a decadência se normaliza, o colapso deixa de ser hipótese para se tornar questão de tempo.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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