O Banco Central do Brasil identificou seis fundos de investimento suspeitos de integrarem um esquema de fraudes financeiras e lavagem de dinheiro associado ao Banco Master, controlado pelo banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo documentos obtidos pela Folha de S.Paulo, os mesmos fundos também aparecem em investigações que apuram a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) na economia formal, a partir do cruzamento de dados realizado por autoridades federais.
De acordo com a denúncia encaminhada pelo BC ao Ministério Público Federal (MPF) em 10 de novembro de 2025, os fundos Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna concentram, juntos, patrimônio líquido estimado em R$ 102,4 bilhões, conforme registros da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). As informações embasaram as investigações que culminaram na prisão preventiva de Daniel Vorcaro, decretada sete dias após o envio da denúncia.
Todos os fundos listados são administrados pela Reag, empresa parceira de longa data do banqueiro, e figuram também na megaoperação Carbono Oculto, deflagrada em agosto de 2025, que teve como foco o núcleo financeiro do PCC e sua atuação em setores da economia formal, como combustíveis e sistema financeiro.
Fundos investigados e conexões patrimoniais
O levantamento aponta que o fundo Astralo 95 possui, entre seus ativos, participação no Fundo Galo Forte, por meio do qual Daniel Vorcaro detém interesses no Clube Atlético Mineiro, de Belo Horizonte. A estrutura dos fundos investigados também conduz a imóveis utilizados pelo banqueiro em Brasília, a debêntures emitidas pela Reag e a CDBs do próprio Banco Master, segundo apurações da reportagem.
Outro ponto de atenção é a presença, na carteira do Astralo 95, de certificados de ações do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). Conhecidos como cártulas, esses documentos físicos representam ações do banco estadual incorporado pelo Banco do Brasil em 2008, ativos considerados de baixa liquidez e valor econômico limitado.
A operação Carbono Oculto, conduzida pela Receita Federal, teve cerca de 350 alvos e resultou em busca e apreensão na sede da Reag. À época, a empresa afirmou colaborar com as investigações e declarou ter “certeza de que todos os fatos serão devidamente esclarecidos”.
Relatórios do BC e falhas graves na gestão de fundos
Em relatório complementar enviado ao MPF, o Banco Central apontou falhas graves em operações realizadas entre julho de 2023 e julho de 2024 em dois fundos estruturados em parceria entre o Master e a Reag: o Bravo 95 Fundo de Investimento Multimercado Crédito Privado e o D Mais Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC).
As irregularidades integram um conjunto mais amplo de denúncias feitas pela autoridade monetária contra o Banco Master. A primeira delas envolveu a revenda ao Banco de Brasília (BRB) de R$ 12,2 bilhões em créditos considerados inexistentes pelos investigadores, operação que motivou a prisão preventiva de Vorcaro quando ele se preparava para deixar o país.
Estrutura do esquema e suspeita de lavagem de dinheiro
Segundo o BC e o MPF, o esquema com fundos de investimento funcionava a partir de empréstimos concedidos pelo Banco Master a empresas ligadas ao grupo, utilizados para alimentar uma ciranda financeira destinada a inflar artificialmente o patrimônio dos fundos.
Os investigadores descrevem um modelo no qual ativos de baixo valor e baixa liquidez eram adquiridos por preços elevados, sendo registrados nos balanços dos fundos com valores superestimados. Esses ativos circulavam entre diferentes fundos, em operações sucessivas e, por vezes, realizadas no mesmo dia, ampliando artificialmente o patrimônio declarado.
A suspeita central é que os fundos tenham como beneficiários finais laranjas ligados a Daniel Vorcaro, utilizados para lavagem de dinheiro. A denúncia estima que ao menos R$ 11,5 bilhões tenham sido lavados por meio dessa estrutura.
Passo a passo do esquema, segundo os investigadores
- O Banco Master concedia empréstimos a empresas formalmente independentes, mas integradas ao esquema.
- As empresas aplicavam os recursos obtidos em fundos administrados pela Reag.
- Nos sistemas de supervisão do BC, as operações aparentavam cumprir as exigências regulatórias e limites da Basileia.
- Os gestores dos fundos adquiriam ativos de baixa qualidade, pagando valores muito superiores ao real.
- Esses ativos eram contabilizados com preços inflados, elevando artificialmente o patrimônio dos fundos.
- O dinheiro retornava ao sistema por meio de novas aplicações em outros fundos, até alcançar carteiras controladas por laranjas ligados ao grupo Master.
Posicionamento das partes
Procurado, o Banco Master não respondeu aos questionamentos da reportagem. A Reag informou que não comentaria o caso, alegando não ter tido acesso formal ao teor da denúncia encaminhada pelo Banco Central ao MPF.
Riscos institucionais e impacto sistêmico
As investigações envolvendo o Banco Master e os fundos administrados pela Reag expõem fragilidades relevantes nos mecanismos de supervisão do sistema financeiro, sobretudo no monitoramento de fundos estruturados e na rastreabilidade do beneficiário final dos ativos. A dimensão dos valores sob suspeita e a complexidade das operações indicam riscos sistêmicos que extrapolam o caso individual.
A conexão das estruturas financeiras investigadas com apurações sobre a infiltração do PCC na economia formal amplia a gravidade institucional do episódio. O cruzamento entre crime organizado, mercado financeiro e instrumentos sofisticados de investimento reforça a necessidade de maior rigor regulatório e integração entre órgãos de controle.
Persistem, contudo, lacunas relevantes, como a ausência de manifestações públicas detalhadas das instituições envolvidas e a dificuldade de transparência sobre a governança dos fundos. O desfecho das investigações deverá testar a capacidade do Estado de responsabilizar agentes financeiros e preservar a credibilidade do sistema bancário brasileiro.
*Com informações dos jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Revista Veja, site Metrópoles e Agência Brasil.








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