O Caso Banco Master passou a ocupar lugar central no debate público brasileiro ao extrapolar o campo estritamente jurídico-financeiro e alcançar o plano da legitimidade institucional do Supremo Tribunal Federal (STF). À medida que decisões judiciais, disputas regulatórias e questionamentos sobre transparência se acumularam, analistas passaram a recorrer à crítica marxista do Estado e do Direito para interpretar o episódio como sintoma de tensões estruturais entre poder econômico, Judiciário e confiança pública, e não apenas como controvérsia episódica.
O Caso Banco Master e sua projeção institucional
O Banco Master tornou-se objeto de atenção nacional em meio a disputas regulatórias, decisões judiciais sensíveis e debates sobre a atuação de autoridades responsáveis pela fiscalização do sistema financeiro. O caso ganhou densidade política quando passou a ser associado, por críticos, a interferências institucionais, à opacidade decisória e à dificuldade de escrutínio público de decisões tomadas nos níveis mais altos do Judiciário.
Esse deslocamento do debate — do plano técnico para o institucional — ampliou o escopo da controvérsia. O STF, tradicionalmente apresentado como guardião da Constituição, passou a ser citado como ator central em um conflito que envolve interesses econômicos relevantes, decisões de alto impacto e expectativas sociais por imparcialidade.
Ainda que não haja consenso sobre irregularidades específicas, a percepção pública tornou-se elemento-chave. Em democracias consolidadas, a autoridade judicial depende tanto da legalidade formal quanto da confiança social na neutralidade de suas decisões.
Estado, Direito e classe: a base marxista da crítica institucional
Na tradição inaugurada por Karl Marx e Friedrich Engels, o Estado não é concebido como árbitro neutro, mas como estrutura atravessada por relações materiais de poder. O Direito, nesse quadro, cumpre a função de organizar conflitos sociais preservando a ordem econômica dominante.
Aplicada ao Caso Banco Master, essa leitura ajuda a compreender por que decisões envolvendo grandes agentes econômicos tendem a gerar suspeitas recorrentes de seletividade. Não se trata, na análise marxista, de imputar intenções individuais, mas de identificar padrões estruturais que favorecem determinados interesses.
Essa perspectiva ganha força quando a atuação judicial é percebida como distante do ideal de impessoalidade, ainda que formalmente amparada pela lei.
Personalização do poder judicial e o protagonismo decisório
No debate público recente, críticas dirigidas ao ministro Alexandre de Moraes apontam para uma concentração de poder decisório e para o uso frequente de decisões monocráticas em temas de elevado impacto político e econômico.
Embora tais decisões estejam previstas no ordenamento jurídico, a crítica marxista interpreta sua centralidade como sintoma de personalização institucional. Em vez de um órgão colegiado plenamente deliberativo, a Corte passa a ser percebida como espaço de exercício individual de autoridade.
Essa percepção não decorre apenas do conteúdo das decisões, mas de sua frequência, alcance e repercussão, fatores que influenciam diretamente a legitimidade simbólica do tribunal.
Compadrio e regressão patrimonial do Direito
A teoria de Evgeny Pashukanis oferece chave interpretativa adicional. Para o autor, o Direito burguês preserva ao menos a aparência de impessoalidade; quando essa aparência se rompe, o sistema jurídico tende a operar por relações pessoais e de proximidade, aproximando-se de formas patrimoniais de poder.
Nesse contexto, surgem questionamentos públicos envolvendo Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, citada em reportagens e artigos de opinião em razão de vínculos profissionais e institucionais que, segundo críticos, demandariam maior transparência.
Do ponto de vista analítico, não se trata de imputar ilegalidades, mas de observar como relações familiares no entorno do poder judicial alimentam narrativas de compadrio e autoproteção corporativa, recorrentes na crítica marxista ao Estado moderno
Crise de hegemonia e erosão da confiança pública
A leitura de Antonio Gramsci aprofunda o diagnóstico ao situar o caso em um cenário de crise de hegemonia. Para Gramsci, instituições mantêm autoridade não apenas pela coerção legal, mas pela capacidade de produzir consenso moral.
Quando decisões judiciais envolvendo grandes interesses econômicos coincidem com suspeitas persistentes — ainda que não comprovadas — de relações pessoais ou políticas, a capacidade do Judiciário de gerar consenso se enfraquece.
Instala-se, assim, uma crise orgânica: as instituições continuam funcionando, mas já não convencem amplos setores da sociedade quanto à sua neutralidade
Captura interna e fechamento institucional
A contribuição de Nicos Poulantzas permite compreender o Judiciário como campo de disputas internas, no qual frações de poder podem influenciar agendas, decisões e ritmos processuais.
No Caso Banco Master, essa abordagem sustenta a interpretação de que o problema central não reside apenas no mérito das decisões, mas na percepção de blindagem interna e dificuldade de controle institucional efetivo.
Quando um tribunal superior passa a ser visto como incapaz de julgar seu próprio entorno com independência visível, a crise extrapola o caso concreto e atinge o modelo de governança do sistema de justiça.
STF, legitimidade e crise estrutural
O Caso Banco Master evidencia como controvérsias jurídicas podem se converter em crises institucionais amplas quando envolvem decisões de alto impacto e agentes econômicos relevantes. A incorporação da crítica marxista não busca substituir a análise jurídica, mas complementá-la, iluminando dimensões simbólicas e políticas frequentemente negligenciadas.
Os principais desdobramentos apontam para uma tensão persistente entre legalidade formal e legitimidade social. Mesmo na ausência de comprovação de ilícitos, a dificuldade do STF em dissipar suspeitas por meio de transparência e controle institucional reforça narrativas de fechamento corporativo.
Sob essa ótica, o desgaste da Corte não decorre de episódios isolados, mas de um modelo institucional que, ao concentrar poder e restringir mecanismos de escrutínio, compromete sua autoridade moral — elemento central para a estabilidade democrática.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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A guilhotina para os corruptos do Brasil | Por Carlos Augusto
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