A crise envolvendo o Banco Master entrou em uma nova fase institucional nesta sexta-feira (02/01/2026), com a decisão do Tribunal de Contas da União (TCU) de instaurar uma inspeção formal no Banco Central do Brasil (BCB) para apurar os fundamentos técnicos, administrativos e documentais que levaram à liquidação extrajudicial da instituição financeira, decretada em novembro de 2025. A medida ocorre em meio a investigações criminais conduzidas pela Polícia Federal e pelo Ministério Público Federal, questionamentos sobre a condução do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF), críticas de juristas quanto aos limites da atuação judicial na fase investigativa e articulações políticas no âmbito do próprio TCU, revelando um caso que extrapola o sistema financeiro e expõe tensões sensíveis entre órgãos de controle, Judiciário e poder político.
Inspeção do TCU e questionamentos ao Banco Central
A inspeção foi determinada pelo presidente do TCU, Vital do Rêgo, a pedido do relator do caso, Jhonatan de Jesus, e integra o rito ordinário de fiscalização após o envio das primeiras informações pelo Banco Central. Segundo o presidente da Corte de Contas, o objetivo é permitir acesso direto da unidade técnica aos documentos e pareceres que embasaram a decisão de encerrar as atividades do banco.
Nos bastidores, o relator manifestou insatisfação com o conteúdo inicial encaminhado pelo BC, que consistiu em uma nota técnica de 18 páginas, sem a íntegra dos documentos internos, relatórios de supervisão e pareceres jurídicos que sustentaram a medida extrema. Diante disso, o processo foi remetido à área técnica do tribunal para aprofundamento da análise.
O Banco Central sustenta que a liquidação decorreu de uma “profunda e crônica crise de liquidez”, associada a reiterados descumprimentos regulatórios e à constatação de irregularidades graves que comprometeram a solvência da instituição, administrada pelo banqueiro Daniel Vorcaro.
Fraudes financeiras e comunicações de crime ao MPF
Em documentos enviados ao TCU, o Banco Central relatou indícios de reciclagem de recursos por meio de cadeias de fundos e sociedades interpostas, mecanismo que teria sido utilizado para dar aparência de legalidade a operações com a mesma origem e o mesmo beneficiário final. O regulador informou ter feito três comunicações formais de crime ao Ministério Público Federal, incluindo uma após a decretação da liquidação.
As investigações apontam que o Banco Master vendeu cerca de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao Banco de Brasília (BRB) entre janeiro e maio de 2025. Em um período mais amplo, as transferências do banco público ao Master teriam alcançado R$ 16,7 bilhões. Parte desses valores segue sem recuperação, segundo depoimento do ex-presidente do BRB.
Outro eixo sensível envolve operações estimadas em R$ 11,5 bilhões, relacionadas a fundos suspeitos de inadequado gerenciamento de risco, ausência de lastro e ativos sobrevalorizados. As apurações também alcançam cadeias de fundos investigadas por possível lavagem de dinheiro, embora gestoras citadas neguem qualquer vínculo com organizações criminosas.
STF, condução do inquérito e críticas de juristas
O caso ganhou contornos institucionais mais amplos após sua remessa ao STF, em razão da menção ao deputado federal João Carlos Bacelar, que possui foro por prerrogativa de função. A investigação passou a ser relatada pelo ministro Dias Toffoli, que determinou a realização de depoimentos e acareação entre o dono do banco, o ex-presidente do BRB e um diretor de fiscalização do Banco Central.
Juristas ouvidos pela imprensa especializada apontaram risco de extrapolação do papel do Judiciário, ao relatar que o ministro teria roteirizado perguntas e interferido na dinâmica dos depoimentos, o que poderia tensionar o modelo acusatório previsto na Constituição, no qual a investigação cabe à Polícia Federal sob controle externo do Ministério Público.
Especialistas alertam que mudanças informais de rito e comunicações não formalizadas fragilizam a segurança jurídica e podem abrir espaço para questionamentos futuros das defesas, inclusive pedidos de nulidade.
Articulações políticas e pressões no TCU
Paralelamente, o processo no TCU é marcado por forte componente político. Levantamentos sobre a agenda pública do relator Jhonatan de Jesus indicam frequentes encontros com parlamentares do Centrão e lideranças de Roraima, seu reduto político. O ministro foi indicado à Corte em 2023, em articulação liderada pelo então presidente da Câmara, Arthur Lira.
Integrantes do TCU avaliam, sob reserva, que uma eventual liminar para reverter a liquidação do Master, concedida monocraticamente durante o recesso, poderia ser derrubada pelo plenário, o que levaria à redistribuição da relatoria. Esse cenário explica a cautela adotada até o momento, mesmo diante de críticas do relator à atuação do Banco Central.
Autonomia do Banco Central e impacto sistêmico
O Banco Central afirma ter esgotado todas as alternativas legais, incluindo monitoramento intensivo, termos de compromisso e assistência via Fundo Garantidor de Créditos (FGC), antes de decretar a liquidação. Segundo o regulador, a medida foi indispensável para proteger o sistema financeiro nacional e a poupança popular.
Especialistas do mercado destacam que o caso se tornou um teste prático da autonomia do Banco Central, aprovada por lei, diante de pressões políticas e institucionais. A eventual reversão da liquidação, sem fundamentos técnicos robustos, poderia gerar precedente negativo, elevar o risco sistêmico e comprometer a credibilidade da supervisão bancária.
Um caso-limite entre técnica, política e Justiça
O Caso Banco Master extrapola a esfera de uma crise bancária convencional e revela tensões estruturais entre órgãos de controle, sistema de Justiça e classe política. A abertura de inspeção pelo TCU é legítima e necessária sob o prisma da fiscalização, mas ocorre em um ambiente marcado por pressões explícitas e disputas de narrativa.
A condução do inquérito no STF, por sua vez, reacende o debate sobre os limites do papel do Judiciário na fase investigativa, tema sensível desde os precedentes da Operação Lava Jato. A preservação do devido processo legal é tão relevante quanto o combate a fraudes bilionárias.
Por fim, o episódio expõe a importância de blindagem institucional do Banco Central. A autonomia do regulador não é um privilégio corporativo, mas um instrumento de estabilidade econômica. Qualquer sinal de interferência política indevida tende a produzir efeitos duradouros sobre a confiança no sistema financeiro.
*Com informações do jornal Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, Veja e Metrópoles.
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