Crise política no Irã: repressão a protestos, prisões em massa e tensão com EUA e Israel

O Irã enfrenta desde o fim de dezembro a maior onda de protestos desde 2022, iniciada por demandas econômicas e transformada em contestação política ampla. A resposta do regime inclui repressão severa, bloqueio da internet e prisões em massa, enquanto a retórica de confronto com Estados Unidos e Israel eleva a tensão regional. O cenário combina crise interna profunda, isolamento internacional e risco de escalada geopolítica.
Irã reprime protestos, promove prisões em massa e ameaça EUA e Israel, em meio à maior crise interna desde 2022 e crescente tensão internacional.

O Irã atravessa, desde o final de dezembro, a mais ampla e prolongada onda de protestos dos últimos três anos, marcada por repressão policial, bloqueio quase total da internet, dezenas de mortes e uma escalada retórica que envolve ameaças diretas aos Estados Unidos e a Israel. Neste domingo (11), autoridades iranianas anunciaram prisões em larga escala de lideranças do movimento, enquanto o Parlamento classificou bases e navios americanos como “alvos legítimos” em caso de intervenção estrangeira. O cenário combina crise econômica aguda, desgaste político interno e um ambiente regional já tensionado por confrontos recentes, ampliando o risco de instabilidade interna e de repercussões geopolíticas mais amplas.

Protestos têm origem econômica e evoluem para contestação política

Os protestos tiveram início em 28 de dezembro de 2025, quando comerciantes do tradicional bazar de Teerã foram às ruas para denunciar a inflação elevada, o colapso do rial e a deterioração do custo de vida. Em poucos dias, as manifestações ultrapassaram o caráter econômico e assumiram contornos políticos explícitos, com slogans contra o regime, contra o líder supremo e em defesa de mudanças estruturais no país.

As mobilizações rapidamente se espalharam por diversas cidades do interior, incluindo Mashhad, Tabriz, Qom e centros urbanos do oeste iraniano. Vídeos verificados por agências internacionais mostram panelaços noturnos, bloqueios de vias e enfrentamentos com forças de segurança, mesmo após a imposição de severas restrições às comunicações.

Esse movimento representa o maior desafio interno ao regime desde os protestos de 2022–2023, desencadeados pela morte de Mahsa Amini sob custódia da polícia da moralidade. A atual mobilização, no entanto, ocorre em um contexto ainda mais delicado, marcado por fragilidade econômica, sanções internacionais renovadas e desgaste militar após confrontos recentes com Israel.

Onda de prisões e repressão estatal

Diante da persistência dos atos, o governo iraniano optou por endurecer a repressão. O chefe da Polícia Nacional, Ahmad Reza Radan, anunciou na televisão estatal a prisão dos “principais responsáveis pelos distúrbios”, afirmando que os detidos serão punidos após a conclusão dos processos judiciais. As autoridades não divulgaram números oficiais nem identidades, reforçando o ambiente de opacidade.

Relatórios de organizações independentes indicam um quadro mais grave. A ONG HRANA contabilizou 116 mortes, incluindo 37 integrantes das forças de segurança, enquanto a Iran Human Rights, com sede na Noruega, apontou ao menos 51 manifestantes mortos, entre eles nove crianças, além de centenas de feridos. Há relatos de lesões oculares graves causadas por balas de borracha e de hospitais superlotados.

O bloqueio nacional da internet, que reduziu a conectividade a cerca de 1% do nível normal, é apontado por ativistas e especialistas como uma estratégia deliberada para dificultar a organização dos protestos e ocultar a repressão. Mesmo assim, imagens continuam a circular via redes por satélite e canais estrangeiros em língua persa.

Ameaças externas e retórica de confronto

No plano internacional, a crise ganhou nova dimensão após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que afirmou publicamente que “o Irã quer liberdade” e que Washington estaria pronta para ajudar os manifestantes em caso de repressão violenta. Trump também voltou a ameaçar respostas militares contundentes se as autoridades iranianas ampliassem o uso da força.

As declarações provocaram reação imediata em Teerã. O presidente do Parlamento, Mohammad Baqer Qalibaf, advertiu que Israel e bases americanas no Oriente Médio seriam alvos legítimos em caso de ataque ao Irã, acusando os EUA de “erro de cálculo”. O governo iraniano sustenta que Estados Unidos e Israel fomentam a revolta, acusação rejeitada por Washington como tentativa de desviar o foco da crise interna.

A tensão se intensifica após relatos de uma conversa telefônica entre o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, na qual foram discutidos cenários de intervenção. Israel declarou-se em “alerta máximo”, embora não tenha anunciado oficialmente qualquer ação.

Papel do líder supremo e das forças de segurança

O líder supremo, Ali Khamenei, adotou discurso duro ao afirmar que o país “não vai recuar” diante dos protestos. Em pronunciamento transmitido pela televisão estatal, classificou os manifestantes como “vândalos e sabotadores” a serviço de interesses estrangeiros, enquanto a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) prometeu proteger a Revolução Islâmica “a qualquer custo”.

O Judiciário iraniano reforçou o tom ao advertir que a punição aos chamados “manifestantes violentos” será máxima, ampliando o temor de julgamentos sumários, penas severas e novas ondas de prisões arbitrárias.

O que motiva os protestos no Irã

A atual mobilização resulta da convergência de fatores estruturais:

  • Crise econômica profunda, com inflação elevada, desvalorização do rial e queda do poder de compra.
  • Sanções internacionais relacionadas ao programa nuclear, restabelecidas pela ONU em setembro, que restringem comércio, investimentos e acesso a divisas.
  • Desgaste político e social do regime, agravado pela repressão de protestos anteriores e por restrições a liberdades civis.
  • Impacto da guerra com Israel em junho, que fragilizou a imagem de estabilidade interna e afetou aliados regionais do Irã.
  • Memória recente do movimento “Mulheres, Vida, Liberdade”, que ampliou a disposição social para a contestação aberta.

Esses elementos alimentam uma insatisfação difusa, que ultrapassa demandas pontuais e se transforma em questionamento direto da legitimidade do regime.

Possíveis consequências internas e externas

No curto prazo, o cenário aponta para intensificação da repressão, com risco de aumento no número de mortos, detenções e violações de direitos humanos. No médio prazo, a persistência dos protestos pode fragilizar ainda mais a coesão interna do regime, especialmente se houver deserções em setores-chave.

Externamente, a escalada retórica eleva o risco de incidentes militares no Oriente Médio, seja por ações diretas, seja por erros de cálculo envolvendo bases americanas, Israel e aliados regionais. O ambiente de tensão também tende a agravar o isolamento diplomático do Irã, ampliando sanções e pressões multilaterais.

Crise estrutural e risco de escalada regional

A atual onda de protestos no Irã não pode ser compreendida como um episódio isolado, mas como expressão acumulada de fragilidades econômicas, políticas e institucionais que se aprofundaram nos últimos anos. A resposta estatal, centrada na repressão e no controle da informação, revela limites evidentes da estratégia de coerção diante de uma insatisfação social persistente.

O envolvimento retórico dos Estados Unidos e a reação defensiva de Teerã ampliam o risco de internacionalização da crise, ainda que nenhuma das partes demonstre interesse claro em um confronto direto. A ausência de canais transparentes de diálogo interno e externo mantém o cenário altamente volátil, com potencial de desdobramentos imprevisíveis.

Há, ainda, uma tensão latente entre o discurso oficial de estabilidade e os sinais concretos de erosão da legitimidade interna, evidenciados pela amplitude geográfica dos protestos, pela participação de diferentes segmentos sociais e pela resistência mesmo sob apagão digital. Esse contraste tende a moldar os próximos capítulos da crise iraniana.

Linha do tempo dos principais eventos

  • 28/12/2025 – Protestos começam no bazar de Teerã contra inflação e colapso do rial.
  • Final de dezembro – Manifestações se espalham para cidades do interior e ganham caráter político.
  • Início de janeiro de 2026 – Governo impõe bloqueio nacional da internet.
  • 08–10/01/2026 – Escalada da repressão; aumento de mortes e confrontos noturnos.
  • 10/01/2026 – Donald Trump declara apoio aos manifestantes e ameaça reação dura.
  • 11/01/2026 – Irã anuncia prisões em massa e ameaça EUA e Israel.

Principais dados sobre os protestos

Vítimas e repressão

  • Até 116 mortos segundo HRANA
  • Pelo menos 51 manifestantes mortos, incluindo 9 crianças
  • Centenas de feridos e detenções sem números oficiais

Medidas do governo

  • Prisões em larga escala de lideranças do movimento
  • Bloqueio nacional da internet
  • Ameaça de punições máximas pelo Judiciário

Contexto internacional

  • Declarações de apoio de Donald Trump aos manifestantes
  • Alerta máximo em Israel
  • Acusações iranianas de interferência externa

Motivações centrais

  • Crise econômica e inflação
  • Sanções internacionais
  • Repressão a liberdades civis
  • Desgaste político do regime

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe to get the latest posts sent to your email.

Facebook
Threads
WhatsApp
Twitter
LinkedIn

Uma resposta

Deixe um comentário

Discover more from Jornal Grande Bahia (JGB)

Subscribe now to keep reading and get access to the full archive.

Continue reading

Privacidade e Cookies: O Jornal Grande Bahia usa cookies. Ao continuar a usar este site, você concorda com o uso deles. Para saber mais, inclusive sobre como controlar os cookies, consulte: Política de Cookies.