Empresas de irmãos e primo do ministro do STF Dias Toffoli tiveram como sócio fundo ligado à teia investigada no caso Banco Master, apontam documentos

Reportagem da Folha indica que o fundo Arleen, até maio de 2025, foi sócio de empresas ligadas a irmãos e primo do ministro Dias Toffoli e, por cadeia de cotas, se conecta a fundos apontados no caso Banco Master. O Arleen não é investigado, mas registros da CVM e dados oficiais sustentariam os vínculos. Toffoli, relator do inquérito, manteve sigilo e tomou decisões questionadas; a defesa de Vorcaro nega irregularidades.
Documentos indicam elo indireto entre fundo sócio de empresas ligadas a parentes de Toffoli e a cadeia investigada no caso Banco Master.

No domingo (11/01/2026), reportagem da Folha de S.Paulo informou que duas empresas associadas a parentes do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Dias Toffolitiveram participação societária de um fundo de investimento que, por encadeamento de cotas, se conecta à estrutura de fundos apontada por autoridades como parte da suposta teia de fraudes atribuída ao Banco Master, de Daniel Vorcaro. A apuração se baseia em documentos oficiais e registros públicos, incluindo informações da Receita Federal, da CVM e bases compiladas por entidades jornalísticas.

Segundo o material descrito na reportagem, o Arleen Fundo de Investimentos manteve, ao menos até maio de 2025, ações da Tayayá Administração e Participações — responsável por um resort em Ribeirão Claro (PR) que teria pertencido em parte à família do ministro — e participação direta na DGEP Empreendimentos, incorporadora imobiliária na mesma cidade, que tinha entre seus sócios um primo de Toffoli.

A conexão com o caso Banco Master, de acordo com a reportagem, não decorre de investigação direta sobre o Arleen, mas da cadeia de investimentos: o Arleen foi cotista do RWM Plus, que por sua vez recebeu investimentos relacionados a fundos ligados ao Maia 95, um dos seis fundos citados pelo Banco Central como integrantes de uma suposta estrutura usada em operações sob suspeita.

O que os documentos indicam sobre o fundo Arleen e as empresas relacionadas

O Arleen, conforme descrito, era um fundo com apenas um cotista e teria sido encerrado no fim de 2025. No balanço de maio de 2025, o fundo registraria quatro investimentos: participação em duas empresas ligadas a familiares de Toffoli (Tayayá e DGEP), uma holding não identificada em bases oficiais e cotas no RWM Plus.

A reportagem destaca que todos os fundos citados na cadeia tinham como administradora a Reag, instituição que também administrava fundos vinculados ao próprio Vorcaro e é mencionada como investigada na operação Carbono Oculto, sob suspeita de lavagem de dinheiro ligada ao PCC. A Reag, segundo a apuração, não comentou.

Ainda de acordo com a reportagem, investigadores sustentam que uma cadeia de fundos administrados pela Reag teria sido usada para desviar recursos emprestados pelo Banco Master, por meio da aplicação do dinheiro dos empréstimos em operações que envolveriam compra de ativos de baixa qualidade e mecanismos de inflação artificial de valores, entre outras transações sob suspeita.

Como a ligação com o caso Banco Master é descrita na apuração

O texto descreve a relação como uma conexão por cotas e fundos sucessivos, e não como uma linha direta entre as empresas citadas e a teia investigada. Nessa lógica, o Arleen apareceria como cotista do RWM Plus; por sua vez, o RWM Plus teria recebido investimentos que se conectam a fundos ligados ao Maia 95.

A reportagem assinala que o Arleen não é alvo de investigação, mas que a documentação da CVM evidenciaria a existência de elos entre os fundos. A CVM é citada como o órgão responsável por monitorar o mercado de fundos e registrar atos formais (auditorias, assembleias, balanços e informações periódicas).

Em maio de 2025, ainda conforme o relato, uma auditoria registrada na CVM indicaria que a empresa Next Auditores teria se abstido de emitir parecer sobre o Arleen, apontando ausência de documentação societária, confirmações de saldo e demonstrações contábeis, o que, na prática, impediria a checagem completa das contas.

O resort Tayayá e a participação de familiares do ministro

O resort Tayayá Aquaparque foi inaugurado em 2008 e, segundo a reportagem, teve participações acionárias de integrantes da família Toffoli ao longo dos anos. O empreendimento fica às margens do rio Itararé, em área que divide Paraná e São Paulo, e é descrito como hotel de 4 estrelas com 58 mil m².

Em 2017, o ministro teria recebido homenagem da Câmara de Vereadores local por contribuição ao desenvolvimento turístico do município, com menção ao empreendimento. Já dados de 2020 da Junta Comercial do Paraná indicariam que a empresa administradora do resort era controlada por Mario Umberto Degani (primo do ministro) e pelo advogado Euclides Gava Junior.

Em dezembro de 2020, a composição societária teria sido alterada com a entrada da Maridt Participações, aberta meses antes por José Carlos e José Eugênio Dias Toffoli, irmãos do ministro. A partir daí, Degani, Gava e a Maridt teriam dividido a empresa em partes iguais naquele momento, segundo a apuração.

Mudanças societárias posteriores e saída de parentes

A reportagem indica que a estrutura societária do Tayayá mudou nos anos seguintes. Em abril de 2025, dados da Receita Federal apontariam como sócios o primo Degani e a PHB Holding, do empresário goiano Paulo Humberto Barbosa; posteriormente, Degani teria deixado a sociedade e o controle da administradora teria passado a Barbosa e empresas relacionadas.

Segundo o texto, as informações de sócios foram obtidas em bases oficiais compiladas pela Abraji na plataforma Cruza-Grafos, que permite visualizar relações entre empresas e seus proprietários. A apuração afirma que os parentes do ministro constariam em registros compilados até abril de 2025, e que a família teria deixado as empresas desde então.

A DGEP Empreendimentos e a coincidência de endereço com o resort

A segunda empresa citada é a DGEP Empreendimentos, descrita como incorporadora imobiliária sediada em Ribeirão Claro (PR). No balanço do Arleen de maio de 2022, o fundo teria participação de R$ 16,1 milhões na DGEP; em maio de 2025, essa participação teria subido para R$ 16,4 milhões.

O texto destaca que a DGEP teria sede registrada no mesmo endereço do resort Tayayá e que o e-mail informado na criação da empresa seria gerencia@tayaya.com.br, segundo dados descritos na apuração. A DGEP teria como sócio, além do fundo Arleen, o primo do ministro, Mario Umberto Degani.

Esses elementos são apresentados como indícios documentais de conexão empresarial entre o empreendimento turístico e a incorporadora, dentro do conjunto de investimentos do fundo Arleen. A reportagem não descreve, porém, conclusão oficial sobre ilícito envolvendo tais empresas.

Toffoli como relator do inquérito e decisões sob questionamento

A reportagem lembra que Dias Toffoli é relator do inquérito que investiga as supostas fraudes do Banco Master no STF. Ele teria assumido o caso no início de dezembro, após recursos de advogados de Daniel Vorcaro sustentando que a investigação deveria ser concentrada na Corte por conta da citação de negociação imobiliária envolvendo Vorcaro e o deputado João Carlos Bacelar (PL-BA).

Segundo o texto, Toffoli manteve o inquérito sob sigilo e tomou decisões que repercutiram no meio político e no mercado financeiro. Entre elas, a convocação de uma acareação envolvendo investigados e um diretor do Banco Central, responsável pela supervisão do sistema bancário.

A reportagem afirma ainda que parte das perguntas preparadas pelo gabinete do ministro sugeriria questionamentos sobre eventual precipitação do Banco Central na liquidação do Master — linha argumentativa que coincidiria com a estratégia da defesa de Vorcaro.

Respostas e posicionamentos citados

A Folha informou ter procurado a assessoria do STF para perguntar se Toffoli tinha conhecimento das conexões descritas e se considerava haver impedimento para conduzir o caso, mas que o ministro não respondeu até a publicação. Parentes do ministro também não teriam se manifestado.

Após a publicação, a defesa de Daniel Vorcaro enviou nota negando irregularidades, afirmando que o banco não teria relação com fraudes, fundos ilícitos ou operações para beneficiar terceiros, e sustentando que a reportagem estabeleceria “conexões inexistentes”. A defesa afirmou ainda que o banco não teria sido gestor, administrador ou cotista dos fundos mencionados e que seguiria colaborando com as autoridades.

Cronologia de eventos citados e movimentações do fundo

A reportagem registra que o Arleen teria sido criado em 2021 e, naquele ano, sua posição no Tayayá chegou a representar quase toda a carteira: em novembro de 2021, uma participação de R$ 20 milhões equivaleria a 99% do fundo. Em maio de 2025, a participação no Tayayá apareceria avaliada em R$ 4,4 milhões.

No caso da DGEP, a participação de R$ 16,1 milhões em maio de 2022 teria sido mantida em nível similar, chegando a R$ 16,4 milhões em maio de 2025. O fundo também teria mantido cotas no RWM Plus, peça-chave na conexão com a cadeia de fundos citada pela reportagem.

Um ponto sensível destacado é o encurtamento abrupto da duração do Arleen: criado com prazo previsto de 20 anos, o fundo teve assembleia em 5 de novembro para liquidação em 7 de novembro, poucos dias antes de uma operação policial citada no texto. Outra assembleia em 1º de dezembro teria adiado a data para 22 de dezembro.

transparência, conflito de percepção e risco reputacional

O conjunto de informações descrito pela reportagem expõe um problema clássico da vida pública brasileira: o choque entre a aparência de conflito e a exigência de imparcialidade institucional. Ainda que a apuração registre que o fundo Arleen não é investigado, a existência de vínculos documentais entre empresas associadas a parentes de um relator e um fundo conectado, por cadeia, ao ecossistema investigado cria um terreno fértil para desconfiança, especulação e erosão de credibilidade — sobretudo quando o processo permanece sob sigilo.

Há também um ponto estrutural que a matéria tangencia e que merece lupa: a opacidade operacional de certos fundos, a dependência de documentação completa e o peso de auditorias que, quando não conseguem opinar por falta de elementos, deixam o mercado e as instituições sem um mapa confiável do risco. Em ambientes assim, a régua da confiança pública não é a “legalidade mínima”, mas a transparência máxima compatível com o devido processo — algo que o país, por hábito, costuma tratar como luxo, quando deveria ser rotina.

Por fim, o caso evidencia como decisões judiciais sensíveis — sigilo, acareações, direção de perguntas e sinais sobre reguladores — podem ganhar contorno político e econômico quando se sobrepõem a relações empresariais que, mesmo indiretas, colidem com a expectativa de distanciamento. O custo é pago em duas moedas: risco reputacional para instituições e insegurança para o mercado, que lê sinais e antecipa turbulência.

*Com informações do O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360 e Metrópoles.

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