Na sexta-feira (09/01/2026), vieram a público novos elementos que aprofundam as suspeitas em torno da atuação de fundos de investimento ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. Documentos da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) revelam que o fundo Termópilas promoveu alterações relevantes em suas regras de amortização e resgate um dia antes da prisão de Vorcaro, ocorrida em novembro de 2024, em meio a uma sequência de eventos que culminou na liquidação extrajudicial do banco pelo Banco Central do Brasil. As mudanças, aprovadas em assembleia remota e sem convocação prévia, ampliaram questionamentos sobre possível retirada antecipada de recursos, ocultação patrimonial e uso de estruturas financeiras para lavagem de dinheiro.
Alteração de regras na véspera da prisão
O fundo Termópilas, principal acionista da Super Empreendimentos e Participações S.A., empresa com capital declarado de R$ 2,6 bilhões ligada a Vorcaro e a seu cunhado Fabiano Zettel, realizou assembleia extraordinária em 16 de novembro de 2024, um domingo, às 15h, de forma remota. Segundo a ata arquivada na CVM, a reunião dispensou convocação formal “em virtude da presença da totalidade dos cotistas”.
Entre as deliberações, consta a alteração das regras relativas à amortização e ao resgate total de cotas, bem como a modificação do quórum necessário para aprovação dessas operações. Houve ainda reformulação do regulamento do fundo, com detalhamento adicional sobre procedimentos de amortização — mecanismo utilizado para pagamento de cotistas.
Apesar da relevância da mudança, não há informações públicas que confirmem se houve efetivamente resgate ou amortização de recursos naquele período. As demonstrações financeiras do Termópilas não foram atualizadas após setembro de 2025, quando o fundo registrava patrimônio líquido de aproximadamente R$ 934 milhões.
Cadeia de fundos e ocultação de beneficiários
Dados da CVM indicam que o Termópilas possui apenas um cotista, outro fundo de investimentos, o que impede a identificação pública do beneficiário final. Em abril de 2025, o Termópilas integrava a carteira do fundo Astralo 95, então com patrimônio líquido de R$ 15 bilhões.
Em atualização divulgada em 9 de janeiro de 2026, o Astralo 95 passou a registrar patrimônio de R$ 27 bilhões, referente a dezembro de 2025. Contudo, a pedido de seu administrador, a composição da carteira foi ocultada do público, prática permitida pela CVM por até 90 dias, com possibilidade de prorrogação.
O Astralo 95 aparece entre os fundos citados pelo Banco Central como suspeitos de integrar o esquema de fraudes atribuídas a Vorcaro, além de constar em investigações que apuram a infiltração do PCC no sistema financeiro.
Vínculos empresariais e patrimônio sob suspeita
Embora os cotistas finais do Termópilas não sejam identificáveis por dados públicos, registros da Receita Federal apontam relações diretas entre Vorcaro e a Super Empreendimentos, empresa investida pelo fundo. Até julho de 2024, Fabiano Zettel — cunhado do banqueiro — figurava como diretor da Super. Sua sócia, Ana Cláudia Queiroz de Paiva, permanece na diretoria e mantém vínculos operacionais com outras empresas do grupo.
A Super também ganhou notoriedade por ser proprietária de um imóvel avaliado em R$ 36 milhões em Brasília, utilizado por Vorcaro para receber políticos, entre eles o senador Ciro Nogueira e o deputado Hugo Motta. A defesa do banqueiro sustenta que ele era apenas inquilino do imóvel.
Em outro episódio, a empresa doou, em dezembro de 2024, um apartamento avaliado em R$ 4,4 milhões a uma mulher citada em investigação policial contra o tráfico de drogas. Meses antes, o imóvel havia sido adquirido da Viking, empresa da qual Vorcaro é sócio.
A ciranda financeira bilionária
As investigações conduzidas pelo Banco Central e pelo Ministério Público Federal apontam que o Banco Master utilizou empresas de fachada para montar uma complexa ciranda financeira, envolvendo empréstimos bilionários e fundos de investimento.
Um dos casos emblemáticos envolve a Brain Realty Consultoria e Participações, empresa com capital social de apenas R$ 2 milhões, que obteve empréstimo de R$ 459 milhões junto ao Master em abril de 2024. Os recursos não foram empregados na atividade empresarial, mas direcionados a fundos administrados pela Reag, gestora que aparece de forma recorrente nas investigações.
Segundo os investigadores, os fundos adquiriam ativos de baixíssima liquidez, como cártulas do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc), registrando-os com valores artificialmente inflados. Essa prática permitia justificar novas aplicações e sucessivas transferências entre fundos, até que os recursos alcançassem carteiras controladas por “laranjas” ligados a Vorcaro.
O Banco Central estima que ao menos R$ 11,5 bilhões tenham sido lavados por meio desse mecanismo.
Razões da liquidação do Banco Master
Em documento encaminhado ao Tribunal de Contas da União (TCU), o Banco Central detalhou os fundamentos técnicos que levaram à liquidação do Banco Master em novembro de 2024. Entre os principais pontos estão:
- Insuficiência de compulsórios: o banco mantinha apenas R$ 22,9 milhões depositados, quando o exigido era R$ 2,537 bilhões.
- Crise aguda de liquidez: o caixa livre era de R$ 4,8 milhões diante de vencimentos de CDBs que somavam R$ 48,6 milhões.
- Patrimônio frágil e operações suspeitas: sucessivas manobras para inflar ativos e venda de créditos considerados inexistentes.
- Dependência excessiva de captações de longo prazo, agravada pela limitação imposta pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) às taxas de CDBs.
Segundo o BC, todas as alternativas de solução de mercado foram esgotadas, tornando a liquidação medida indispensável para proteger a poupança popular e a estabilidade do sistema financeiro.
Reações políticas e disputas institucionais
A liquidação do Master desencadeou tensões institucionais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, manifestaram preocupação com a atuação do TCU, que determinou inspeção no Banco Central para revisar o processo.
No Supremo Tribunal Federal, a defesa de Vorcaro apresentou petição ao ministro Dias Toffoli negando envolvimento em campanhas digitais de difamação contra autoridades monetárias. A Polícia Federal apura a atuação coordenada de perfis nas redes sociais e contratos que somariam R$ 800 mil, supostamente vinculados ao chamado “Projeto DV”.
Risco sistêmico, opacidade e fragilidade regulatória
A sucessão de fatos envolvendo o Banco Master e fundos ligados a Daniel Vorcaro expõe fragilidades estruturais do sistema de supervisão financeira, especialmente no que diz respeito à transparência de fundos de investimento e à identificação de beneficiários finais. A possibilidade de alterar regras de resgate na véspera de eventos críticos, sem ampla divulgação, revela brechas regulatórias relevantes.
Os desdobramentos indicam ainda convergência entre riscos financeiros e criminais, com o uso de instrumentos sofisticados para lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. A presença de fundos sob suspeita de ligação com organizações criminosas amplia a gravidade institucional do caso.
Por fim, o embate entre Banco Central, TCU e STF demonstra como disputas de competência podem gerar insegurança jurídica, afetando a confiança do mercado e elevando o custo sistêmico de crises bancárias mal administradas.
*Com informações da Folha de S.Paulo, Estadão, Veja, Poder360 e o Globo.
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