Fundos ligados a Nelson Tanure injetaram R$ 2,5 bilhões no Banco Master e entram no foco da Polícia Federal

A Polícia Federal (PF) investiga se aportes de R$ 2,5 bilhões realizados por fundos ligados ao empresário Nelson Tanure no Banco Master, controlado formalmente por Daniel Vorcaro, configuraram uma estratégia para assumir o controle oculto da instituição financeira. As apurações concentram-se no uso de debêntures emitidas por uma empresa intermediária, a Banvox, em operações consideradas complexas e potencialmente destinadas a ocultar a identidade do real controlador do banco.

Segundo documentos públicos registrados na Junta Comercial de São Paulo, reunidos ao longo dos últimos meses, os investimentos começaram em 2020 e se intensificaram nos anos seguintes. Os registros indicam que Tanure, por meio de fundos offshore, entre eles o Estocolmo, adquiriu debêntures da Banvox, empresa de participações cujo único ativo relevante sempre foi o Banco Master.

As debêntures permitem a conversão da dívida em participação acionária. Na prática, esse mecanismo teria garantido a Tanure controle indireto da Banvox e, consequentemente, influência decisiva sobre o banco. Ao todo, os aportes somaram R$ 2,5 bilhões, valor expressivo frente ao porte da instituição à época das operações.

Relações cruzadas e compras estratégicas

Durante o período analisado, o Banco Master adquiriu participações em empresas nas quais Tanure detém interesses diretos ou indiretos, como Oncoclínicas, Alliança Saúde (antiga Alliar) e Ambipar. Para os investigadores, essas operações podem indicar um circuito financeiro fechado, no qual recursos captados pelo banco retornariam para ativos ligados ao próprio investidor.

A PF também apura acusações envolvendo a Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), onde Tanure teria sido acusado, em outro contexto, de desviar recursos do caixa para investimentos em companhias sob seu controle.

Mandados, apreensões e avanço das investigações

As suspeitas levaram ao cumprimento de mandado de busca e apreensão contra Tanure durante o embarque em um voo doméstico no Aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. O celular do empresário foi apreendido e passou a integrar o conjunto de provas analisadas.

As investigações são conduzidas pela Polícia Federal, com acompanhamento do Ministério Público Federal (MPF), e tiveram início ainda em 2025, antes da deflagração da segunda fase da Operação Compliance Zero.

Capitalização, alavancagem e emissão de CDBs

De acordo com a linha investigativa, a capitalização promovida via Banvox teria inflado artificialmente o patrimônio do Banco Master, ampliando sua capacidade de emitir CDBs no mercado. Com os recursos captados junto a investidores, o banco teria financiado novas aquisições de interesse do grupo ligado a Tanure, criando um ciclo de alavancagem sustentado por estruturas societárias complexas.

Esse modelo, segundo a PF, dificultaria a identificação dos beneficiários finais e dos responsáveis por eventuais fraudes financeiras associadas ao banco.

O primeiro grande aporte e o papel da Banvox

O primeiro aporte relevante ocorreu em dezembro de 2022, quando o Banco Master possuía cerca de R$ 600 milhões em patrimônio. Na ocasião, a Banvox emitiu R$ 700 milhões em debêntures, adquiridas pelo fundo Estocolmo. À época, a Banvox era controlada por fundos ligados a Tanure, que detinham 55,37% do capital da empresa, tornando-o seu principal acionista de fato.

Além do Estocolmo, com 11,4%, o fundo Aventti concentrava 44,32% da participação societária, reforçando o controle indireto do empresário sobre a estrutura que aportava recursos no banco.

Cisão societária e mudança de controle formal

Em agosto de 2024, em meio a dificuldades do Banco Master para comprovar lastros de liquidez ao Banco Central, a Banvox passou por um processo de cisão. Maurício Quadrado, então sócio da estrutura, deixou a empresa, que passou a ser integralmente controlada pela DV Holding, ligada diretamente a Daniel Vorcaro.

O laudo da cisão indicava que a Banvox detinha 22% do Banco Master, participação pela qual teria desembolsado os mesmos R$ 2,5 bilhões. A avaliação implícita apontava o banco com valor total de R$ 11,2 bilhões, cifra considerada elevada diante de parâmetros de mercado.

Divergência de avaliações e o caso BRB

A discrepância tornou-se mais evidente em março de 2025, quando o Banco de Brasília (BRB) apresentou proposta para adquirir 58% do Banco Master por R$ 2 bilhões, o que avaliaria a instituição em aproximadamente R$ 3,44 bilhões.

Nesse cenário, os R$ 2,5 bilhões aportados pelos fundos ligados a Tanure corresponderiam a mais de 50% do valor econômico do banco, reforçando a tese de que o empresário poderia ser, na prática, o controlador do Master. É esse contraste que a PF busca esclarecer para identificar os responsáveis finais por eventuais irregularidades.

Perfil do investidor e histórico empresarial

Ao longo das últimas décadas, Nelson Tanure construiu reputação como investidor especializado em empresas em dificuldades financeiras ou em recuperação judicial. Seu portfólio inclui ativos nos setores de energia elétrica, telecomunicações, saúde, petróleo e gás, construção e incorporação imobiliária.

Entre as participações mais conhecidas estão Light, Alliança Saúde, Gafisa e Prio. Mais recentemente, o empresário participou de negociações envolvendo a Braskem e a operação brasileira da rede de supermercados Dia.

Renegociação de dívidas e venda de ativos

Reportagens do jornal Valor Econômico indicam que, desde o agravamento da crise do Banco Master, Tanure vinha negociando a venda de ativos e a renegociação de dívidas de empresas de seu portfólio. Entre os ativos colocados à venda estariam a Alliança, avaliada em cerca de R$ 1 bilhão, e a Ligga, do setor de telecomunicações.

Esses movimentos ocorreram antes de o empresário se tornar alvo formal da segunda fase da Operação Compliance Zero.

Defesa nega vínculo societário

Em nota, a defesa de Nelson Tanure afirmou que o empresário nunca respondeu a processo criminal relacionado às empresas das quais é ou foi acionista. Sustentou ainda que ele não possui relação societária com o Banco Master, tendo atuado apenas como cliente da instituição nos últimos anos.

*Com informações das Agências Brasil, RFI, Sputnik e jornais O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, além da revista Veja e site Metrópoles.


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