Groenlândia no centro da crise global: Trump defende anexação, Europa reage e Otan amplia presença militar no Ártico

Tensões sobre a Groenlândia se agravam após reuniões em Washington e reação europeia a declarações do presidente Donald Trump.
Reuniões diplomáticas em Washington e mobilizações militares no Ártico elevam a tensão em torno da Groenlândia, território autônomo do Reino da Dinamarca, em janeiro de 2026.

Nesta quinta-feira, 15/01/2026, a crise diplomática envolvendo a Groenlândia ganhou novos contornos após declarações públicas de autoridades dinamarquesas, europeias e norte-americanas, na esteira de reuniões realizadas na Casa Branca e do anúncio de envio de forças militares europeias ao território ártico. O impasse foi intensificado pela reiterada defesa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que Washington deveria assumir o controle da ilha por razões de segurança nacional, posição rejeitada de forma categórica por Dinamarca, Groenlândia e aliados europeus.

Reunião em Washington expõe divergências diplomáticas

Na quarta-feira (14), uma delegação formada por representantes da Dinamarca e da Groenlândia foi recebida na Casa Branca para um encontro considerado decisivo. Participaram da reunião o ministro das Relações Exteriores dinamarquês, Lars Løkke Rasmussen, e a ministra das Relações Exteriores da Groenlândia, Vivian Motzfeldt, que se reuniram com o vice-presidente dos Estados Unidos, JD Vance, e o secretário de Estado, Marco Rubio.

Após o encontro, Rasmussen afirmou que existe um “desacordo fundamental” entre Washington e Copenhague sobre o futuro da Groenlândia, descrevendo as posições como “claramente divergentes”. Segundo ele, é “absolutamente desnecessário” que os Estados Unidos tomem posse do território, classificado como autônomo e integrante do Reino da Dinamarca.

Trump não participou diretamente da reunião, mas reforçou sua posição antes do encontro ao publicar, em sua rede social Truth Social, que os Estados Unidos “precisam da Groenlândia por razões de segurança nacional”, afirmando que a ilha seria vital para o projeto do “Domo de Ouro”, sistema de defesa antimísseis em desenvolvimento. Foi a primeira vez que o presidente vinculou explicitamente esse programa à posse do território groenlandês.

Retórica simbólica e críticas públicas

Durante as discussões, a Casa Branca divulgou uma ilustração na rede social X com a legenda “Para onde você vai, homem da Groenlândia?”. A imagem mostrava dois trenós puxados por cães, indicando caminhos opostos: um em direção aos Estados Unidos, simbolizados pela Casa Branca, e outro em direção à China e à Rússia, representadas pela Grande Muralha e pela Praça Vermelha.

A publicação foi interpretada por autoridades europeias como uma tentativa de pressão simbólica e comunicacional. Trump tem reiterado, desde seu retorno ao poder, que pretende assumir o controle da ilha “de um jeito ou de outro”, chegando a ridicularizar os investimentos militares dinamarqueses ao afirmar que “dois trenós puxados por cães não são suficientes” para defender o território.

Reação europeia e reforço militar no Ártico

Diante das declarações, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, anunciou o envio de reforços militares à Groenlândia e a criação de um grupo de trabalho bilateral com os Estados Unidos, ressaltando que isso não altera o desacordo estrutural sobre a soberania do território. Países como França, Suécia, Alemanha e Noruega confirmaram o envio de militares para uma missão de reconhecimento no âmbito do exercício “Arctic Endurance”.

A Suécia informou que atenderá a um pedido formal de Copenhague para participar de exercícios conjuntos, enquanto a França anunciou a abertura de um consulado na Groenlândia e o envio imediato de tropas.

Macron, União Europeia e defesa da soberania

O presidente francês, Emmanuel Macron, reagiu com firmeza às declarações de Trump. Segundo o governo francês, qualquer violação da soberania de um país europeu aliado teria “consequências inéditas” e potencialmente desestabilizadoras para a ordem internacional. Macron convocou com urgência um conselho de defesa no Palácio do Eliseu e confirmou a participação francesa nos exercícios militares no Ártico.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, declarou que “a Groenlândia pertence aos seus habitantes” e que a União Europeia continuará apoiando a Dinamarca de forma concreta, não apenas retórica.

Posição da Groenlândia e unidade interna

Autoridades groenlandesas reforçaram que a ilha não está à venda. O primeiro-ministro do território, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que, se fosse necessário escolher entre Estados Unidos e Dinamarca, a opção seria inequívoca por Copenhague. Ele enfatizou que a Groenlândia não será governada nem integrada aos Estados Unidos.

Em Nuuk, capital do território, bandeiras da Groenlândia foram exibidas em prédios públicos, vitrines e veículos como sinal de unidade nacional diante do aumento das tensões. A prefeitura destacou, em comunicado, que a população permanece coesa em um momento de maior vulnerabilidade percebida.

Preocupação russa e cenário internacional

Nesta quinta-feira, a Rússia manifestou preocupação com o envio de tropas adicionais da Otan à Groenlândia, acusando a aliança de promover a militarização do Ártico com base em uma “ameaça imaginária” de Moscou e Pequim. A embaixada russa em Bruxelas defendeu que a região permaneça um espaço de diálogo e cooperação.

A Groenlândia no centro de uma disputa estratégica global

A escalada retórica e militar em torno da Groenlândia evidencia a centralidade crescente do Ártico na geopolítica contemporânea. O território combina posição estratégica, recursos minerais e relevância para sistemas de defesa, tornando-se um ponto sensível em meio à rivalidade entre potências globais.

As declarações de Donald Trump introduzem um elemento de tensão inédita entre aliados históricos, ao relativizar princípios tradicionais de soberania e cooperação dentro da Otan. Ao mesmo tempo, a resposta europeia busca reafirmar limites institucionais claros, reforçando a noção de que disputas de segurança devem ser tratadas de forma coletiva e negociada.

O episódio também expõe riscos de escalada simbólica e comunicacional, em que mensagens e gestos públicos passam a ter impacto direto na estabilidade internacional, ampliando a necessidade de canais diplomáticos eficazes e previsibilidade estratégica.


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