Após um longo período de abandono e perda de relevância econômica iniciado nas décadas de 1970 e 1980, o jumento nordestino começa a recuperar valor produtivo e estratégico no semiárido brasileiro. A revalorização está associada à reorganização de cadeias produtivas, ao interesse crescente por derivados do animal e à retomada de práticas zootécnicas estruturadas, segundo especialistas do setor pecuário.
Historicamente, o jumento desempenhou papel central no desenvolvimento econômico e social do Nordeste, sendo utilizado no transporte, no trabalho rural e na subsistência de comunidades do semiárido. A partir da mecanização do campo e da expansão de veículos motorizados, sobretudo entre as décadas de 1970 e 1980, o animal perdeu função econômica direta.
Sem utilidade produtiva clara, grande parte da população de jumentos passou a ser abandonada, resultando em animais soltos em rodovias, áreas urbanas, margens de rios e propriedades sem manejo adequado. O fenômeno consolidou-se ao longo de décadas, agravado pela ausência de políticas públicas específicas de controle populacional e bem-estar animal.
Retomada produtiva e valorização expressiva
Segundo o zootecnista Alex Bastos, responsável técnico da Nordeste Pecuária, a mudança de cenário decorre da reintegração do jumento a cadeias produtivas organizadas e regulamentadas, capazes de gerar valor econômico e garantir manejo adequado.
De acordo com o especialista, nos últimos três anos o preço do jumento no Nordeste registrou valorização superior a 1.200%, impulsionada pelo interesse em produtos derivados como proteína animal, colágeno e leite, além de novas aplicações industriais e nutricionais. A valorização, segundo ele, é fator decisivo para reduzir o abandono e promover práticas sustentáveis.
“Sem valor econômico e social, o animal doméstico tende ao abandono. Quando passa a ser valorizado, recebe cuidado, manejo adequado e passa a integrar um ciclo produtivo sustentável”, afirma Bastos.
Adaptação ao semiárido e potencial zootécnico
O especialista destaca que o jumento encontrou no semiárido brasileiro condições ambientais semelhantes às de sua origem africana, especialmente em regiões como a Etiópia. O clima seco, a vegetação da caatinga e a rusticidade natural do animal formam um ambiente altamente favorável à asininocultura.
Com manejo zootécnico adequado, o semiárido pode se tornar uma região competitiva para a criação de asininos, associando produtividade, baixo custo operacional e sustentabilidade ambiental. A adaptação fisiológica do animal reduz demandas por insumos e amplia a viabilidade econômica da atividade.
Debate sobre risco de extinção e dados oficiais
Alex Bastos também contesta afirmações recentes sobre um suposto risco de extinção do jumento no Brasil. Segundo ele, não existem dados oficiais atualizados que sustentem essa narrativa. O último levantamento reconhecido é o Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE.
“Qualquer número divulgado após isso não tem base técnica nem respaldo institucional”, afirma.
Para Bastos, a ausência de dados atualizados não autoriza conclusões alarmistas sem respaldo científico.
Critérios internacionais e parâmetros técnicos
De acordo com critérios da FAO, uma raça doméstica só é considerada em risco de extinção quando possui menos de mil fêmeas reprodutoras e menos de 20 machos reprodutores. Segundo o zootecnista, esses parâmetros não se aplicam à população de jumentos no Brasil.
“Falar em extinção sem dados oficiais é uma narrativa que não se sustenta tecnicamente”, ressalta.
Para ele, o foco do debate deve estar na organização produtiva, no manejo responsável e na formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
Cadeia produtiva como resposta ao abandono animal
A consolidação da cadeia produtiva dos asininos é apontada como uma resposta estrutural ao problema histórico do abandono no Nordeste. Ao transformar o jumento em ativo econômico, cria-se incentivo direto ao investimento em bem-estar animal, sanidade, reprodução controlada e sustentabilidade.
Segundo Bastos, a valorização econômica redefine a relação entre o produtor e o animal, rompendo o ciclo de negligência que se formou ao longo de décadas.
“Quando existe valorização, há investimento, manejo, bem-estar e sustentabilidade. É assim que o jumento deixa de ser um problema social e volta a ser um ativo produtivo”, conclui.
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