Pedido do senador Jaques Wagner levou ex-ministro Guido Mantega ao Banco Master com salário de R$ 1 milhão mensal

Segundo reportagem da Metrópoles, o Banco Master contratou o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega após intervenção direta do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, segundo apuração jornalística. A remuneração acordada foi de R$ 1 milhão por mês, e a principal atribuição do ex-ministro seria articular a venda do banco ao Banco de Brasília (BRB). A contratação ocorreu depois de o mercado reagir negativamente à tentativa do governo de indicar Mantega ao Conselho de Administração da Vale, indicação posteriormente abandonada.

A revelação ganha relevo político porque, poucos meses após o início da consultoria, o Banco Central do Brasil decretou a liquidação do Banco Master, em novembro do ano passado. Ainda assim, Mantega prestou serviços à instituição até semanas antes da intervenção, com pagamentos que podem ter alcançado ao menos R$ 11 milhões.

O episódio ocorre em um contexto de contraste público: em evento realizado em Maceió (AL), no dia 23 de janeiro, o presidente Lula criticou duramente o controlador do banco, Daniel Vorcaro, acusando-o, sem citá-lo nominalmente, de ter aplicado um “golpe de mais de R$ 40 bilhões” e afirmando que “falta vergonha na cara” de quem o defende. As declarações destoam da proximidade prévia entre o banco e figuras centrais do núcleo petista.

Da rejeição na Vale à contratação no Banco Master

A entrada de Mantega no Banco Master ocorreu após o governo desistir de indicá-lo para o Conselho da Vale. Embora privatizada, a mineradora mantém relações sensíveis com o Estado, seja por concessões públicas, seja pela presença de fundos de pensão de estatais em sua estrutura acionária.

À época, atores relevantes do mercado se posicionaram contra a indicação, avaliando-a como interferência política indevida na governança corporativa da empresa. A rejeição levou à retirada do nome de Mantega e abriu espaço para sua realocação no setor financeiro privado, mediada por interlocução política.

No governo, Lula reconhecia uma dívida de lealdade com o ex-ministro, que permaneceu ao seu lado durante a Operação Lava Jato, em contraste com figuras como Antonio Palocci, que firmou delação premiada com acusações contra o presidente.

A missão no banco e a articulação com o BRB

Dentro do Banco Master, a função atribuída a Mantega era “azeitar” a negociação de venda da instituição para o Banco de Brasília. A operação envolvia interesses financeiros e políticos relevantes, dada a natureza pública do BRB e o ambiente regulatório do sistema bancário.

A relação política mais estreita do senador Jaques Wagner no banco, contudo, não se dava diretamente com Vorcaro, mas com Augusto Lima, sócio do controlador e ex-CEO do Master. Lima é baiano e mantém **amizade pessoal com o ministro da Casa Civil, Rui Costa.

Rui Costa, inclusive, estava no palanque do evento em que Lula fez as críticas públicas ao banco, reforçando a complexidade e as contradições da relação entre governo, aliados políticos e a instituição financeira então em processo de colapso.

Visitas ao Planalto durante a consultoria

Enquanto atuava para o Banco Master, Guido Mantega esteve ao menos quatro vezes no Palácio do Planalto, em 2024, nos dias 22 de janeiro, 1º de abril, 29 de outubro e 4 de dezembro. Em todas as ocasiões, foi recebido pelo chefe de gabinete da Presidência, Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola.

As agendas oficiais registram apenas a expressão “encaminhamento de pauta”, sem detalhamento dos assuntos tratados. Os encontros ocorreram no 3º andar do Planalto, onde despacham tanto o chefe de gabinete quanto o próprio presidente. Nas descrições, Mantega aparece apenas como “ex-ministro do Ministério da Fazenda”, sem qualquer menção ao Banco Master.

Os dados foram compilados a partir da ferramenta Agenda Transparente, da ONG Fiquem Sabendo. Em agosto de 2025, o colunista Lauro Jardim informou que Mantega teria intermediado uma agenda entre Lula e Daniel Vorcaro em 2024, compromisso que não consta nos registros oficiais, situação considerada recorrente em agendas públicas.

Procurado, Daniel Vorcaro optou por não comentar. Até o fechamento desta reportagem, não houve retorno de Jaques Wagner nem de Guido Mantega. O espaço permanece aberto.

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