A quinta-feira (08/01/2026) marca três anos dos ataques às sedes dos Três Poderes, em Brasília, episódio que se consolidou como um dos principais testes recentes à democracia brasileira. As investigações conduzidas pela Polícia Federal, pelo Ministério Público e pelo Poder Judiciário resultaram na identificação, condenação e prisão de envolvidos na tentativa de ruptura institucional, demonstrando a capacidade de resposta do Estado. Ao mesmo tempo, o episódio evidenciou a permanência de uma sociedade dividida quanto à gravidade do golpismo.
Com base em depoimentos, documentos e provas periciais, a Justiça concluiu que os atos estiveram ligados a uma trama golpista organizada, que previa a eliminação de adversários políticos e a tomada do poder. O processo levou à condenação de autoridades do ex-governo, como Jair Bolsonaro, e, de forma inédita, de militares de alta patente, incluindo os generais Braga Netto e Augusto Heleno, rompendo um histórico de impunidade institucional.
Apesar do avanço institucional, analistas apontam que o desfecho também revelou a persistência de apoio social e político a lideranças e discursos que relativizam ou minimizam a tentativa de golpe. Para especialistas, a ausência de um consenso amplo em defesa da ordem democrática representa um dos principais legados negativos do episódio.
Resposta institucional e limites do consenso democrático
O cientista político Luis Felipe Miguel, da Universidade de Brasília, avalia que o fracasso da tentativa de golpe não foi suficiente para produzir um acordo mínimo na sociedade e na classe política. Segundo ele, a política brasileira permanece degradada mesmo diante de uma tentativa explícita de ruptura do regime democrático.
Miguel destaca que o Brasil chegou a ser citado internacionalmente como exemplo de enfrentamento ao golpismo da extrema direita, especialmente pela condução das investigações e pelo rigor das condenações. No entanto, os efeitos internos do 8 de janeiro de 2023 foram limitados, com a rápida reorganização de forças políticas alinhadas ao bolsonarismo.
Na análise do pesquisador, o episódio deveria ter produzido um isolamento duradouro de atores que atentaram contra a democracia. Em vez disso, observou-se a recomposição desse campo político, sem a formação de um “cordão sanitário” capaz de afastar definitivamente esses setores da disputa institucional.
Polarização política e tensionamento entre os Poderes
Para o cientista político Bhreno Vieira, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, a atuação firme do Judiciário gerou efeitos colaterais, especialmente o aprofundamento da polarização política. Segundo ele, parte da elite política passou a reagir às condenações por meio de tentativas de redução de penas, questionamentos processuais e críticas às decisões judiciais.
Vieira observa que o Congresso Nacional passou a exercer maior pressão institucional sobre o Judiciário, ampliando o tensionamento entre os Poderes. Esse cenário, segundo o analista, dificulta a construção de uma resposta institucional unificada contra o golpismo.
Na avaliação do pesquisador, o aspecto mais preocupante é constatar que o atentado à democracia divide a opinião pública. Segmentos do eleitorado e grupos políticos continuam a apoiar discursos de fraude eleitoral e deslegitimação das instituições, tratando a ruptura pela força como uma alternativa politicamente aceitável.
Memória institucional e politização do episódio
Em meio à disputa interna da direita pelo eleitorado bolsonarista, o governo federal organizou uma cerimônia no Palácio do Planalto, com o objetivo de reforçar os valores democráticos abalados pelos atos de (08/01/2023). O evento contou com a presença de autoridades do Executivo e do Judiciário.
O cientista político Leonardo Queiroz Leite, doutor em administração pública e governo pela FGV/SP, avalia a iniciativa de forma ambígua. Para ele, a preservação da memória institucional é relevante, mas o contexto eleitoral contribui para a politização do evento, com uso estratégico da pauta democrática pelo governo.
Segundo Leite, a fragilidade do campo oposicionista, agravada pela prisão de Bolsonaro e pela ausência de uma liderança clara à direita, favorece a instrumentalização política do episódio. Para o analista, iniciativas desse tipo seriam mais eficazes se assumissem um caráter mais institucional e republicano.
Ausência de consenso no Legislativo
No Supremo Tribunal Federal, estão previstos atos institucionais em memória dos ataques. Já na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, não há mobilização oficial, com destaque para a ausência dos presidentes das Casas Legislativas na cerimônia organizada pelo Executivo.
A falta de participação do Legislativo reforça a percepção de que, três anos após os ataques, ainda não há um consenso institucional pleno sobre a forma de lidar politicamente com o golpismo. O episódio permanece como um marco da resistência das instituições, mas também como um sinal das fragilidades da cultura democrática no país.
*Com informações da RFI.
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