Saída do ministro Ricardo Lewandowski e debate sobre divisão do Ministério da Justiça ampliam desafios do presidente Lula na agenda de segurança pública

A possível saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e o debate sobre a criação de um Ministério da Segurança Pública colocam Lula diante de decisões sensíveis em 2026. Entre resistências políticas, tensões com o Congresso e cálculo eleitoral, o governo busca equilibrar mudanças institucionais com estabilidade administrativa em uma área estratégica.
Saída de Lewandowski e debate sobre divisão do Ministério da Justiça ampliam desafios de Lula na segurança pública e na articulação política em 2026.

A possível saída de Ricardo Lewandowski do Ministério da Justiça e Segurança Pública e o impasse sobre a divisão da pasta, com a criação de um ministério exclusivo para a segurança pública, colocam o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diante de um dos principais desafios políticos e administrativos do início de 2026. O tema, considerado estratégico para a disputa eleitoral e sensível na relação com o Congresso, envolve definições sobre comando, estrutura institucional e enfrentamento ao crime organizado.

Desejo de saída e cautela no Planalto

Lewandowski comunicou ao presidente sua intenção de deixar o cargo em 23 de dezembro, durante conversa no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Segundo relatos de aliados, o ministro argumentou que considera ter cumprido sua missão à frente da pasta. Lula ouviu o pedido, preservou o vínculo pessoal e político, mas solicitou prazo para avaliar a sucessão.

Apesar da sinalização, integrantes do governo avaliam que a decisão não será imediata. A leitura interna é de que Lula tende a postergar mudanças desse porte, sobretudo em áreas sensíveis. Auxiliares próximos ao presidente trabalham para convencer Lewandowski a permanecer, ao menos temporariamente, repetindo dinâmica semelhante à ocorrida com o ministro da Defesa, José Múcio, que recuou após manifestar intenção de saída.

Lewandowski retorna a Brasília em 8 de janeiro, para participar do ato que marca os três anos da tentativa de golpe de 8 de Janeiro, o que, na avaliação de aliados, pode influenciar a decisão final.

Nomes cogitados e resistências políticas

Caso a saída se concretize, dois nomes são citados como alternativas. O primeiro é Vinicius de Carvalho, atual titular da Controladoria-Geral da União, que ganhou projeção ao conduzir investigações sobre fraudes no INSS e ao enfrentar adversários do governo na CPI do tema. Pessoas próximas ao ministro, contudo, afirmam que ele não foi sondado e não se movimenta para assumir a Justiça.

O segundo nome é o do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG). Aliados do parlamentar indicam resistência à hipótese, alegando falta de incentivos políticos e institucionais para ingressar no Executivo neste momento.

A eventual recusa ocorre em meio a ruídos recentes entre o Planalto e o Senado, após Lula ter preterido Pacheco na indicação a uma vaga no Supremo Tribunal Federal, optando por Jorge Messias, cujo nome ainda aguarda apreciação da Casa. Senadores interpretaram a decisão como quebra de compromisso político, ampliando tensões em um período delicado para a articulação do governo.

Divisão da pasta e cálculo eleitoral

Paralelamente à sucessão, o governo debate a divisão do Ministério da Justiça, com a criação de um Ministério da Segurança Pública, promessa de campanha ainda não concretizada. A proposta é defendida por setores do PT como forma de centralizar o combate ao crime organizado e dar resposta a um tema explorado pela oposição.

Há, no entanto, divergências internas. Uma ala do Planalto avalia que implementar a mudança a menos de um ano da eleição pode gerar riscos políticos e administrativos. Publicamente, Lula tem condicionado a criação da nova pasta à aprovação da PEC da Segurança Pública, que amplia o papel da União no setor.

A proposta busca constitucionalizar o Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), padronizar protocolos, estatísticas e sistemas de informação, além de estabelecer diretrizes nacionais para a atuação integrada entre União, estados e municípios.

Em entrevista concedida em dezembro, Lewandowski — inicialmente contrário à divisão — afirmou concordar que a mudança faria sentido caso houvesse ampliação efetiva das atribuições federais no combate à criminalidade.

Impactos institucionais e reação do Congresso

A criação de um ministério exclusivo para a segurança pública implicaria redução do peso político da Justiça, ao transferir para a nova estrutura a agenda mais visível e com maior capacidade de articulação federativa, especialmente junto a governadores, forças policiais e ao Congresso.

Nesse cenário, um nome citado para chefiar a nova pasta é o do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, integrante do núcleo de confiança de Lula desde a campanha de 2022. A hipótese, porém, enfrenta resistência no Legislativo.

Parlamentares avaliam que a nomeação de um delegado para o comando político da segurança poderia agravar tensões com o Congresso, especialmente em um contexto no qual a Polícia Federal conduz investigações envolvendo emendas parlamentares, tema sensível para a cúpula do Legislativo.

Segurança pública entre estratégia e impasse político

A indefinição sobre a permanência de Lewandowski e a divisão da pasta expõe as dificuldades estruturais do governo Lula para avançar em uma agenda de segurança pública consistente e politicamente viável. Trata-se de um tema central para o eleitorado e historicamente problemático para gestões petistas, pressionadas por discursos de endurecimento penal e resultados de curto prazo.

O impasse revela também tensões institucionais com o Congresso, que influenciam diretamente a escolha de nomes e o desenho das estruturas ministeriais. A resistência a figuras associadas à Polícia Federal indica que a agenda de segurança permanece atravessada por disputas políticas, e não apenas por critérios técnicos.

Por fim, ao condicionar a criação do novo ministério à PEC da Segurança, o Planalto transfere parte do ônus da decisão ao Legislativo, mas corre o risco de adiar uma definição estratégica para além do calendário eleitoral, mantendo a área sob incerteza em um momento decisivo.


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