Na segunda-feira, 12 de janeiro de 2026, a crise política e social no Irã entrou em uma fase de forte escalada internacional, com a União Europeia classificando como “inaceitável” a repressão violenta contra manifestantes e o bloqueio da internet, enquanto o líder supremo iraniano, Ali Khamenei, afirmou publicamente que o regime não recuará diante dos protestos. Em paralelo, os Estados Unidos, sob a presidência de Donald Trump, avaliam respostas diplomáticas e militares, num cenário marcado por centenas de mortos, milhares de prisões e o maior desafio ao domínio clerical desde a Revolução Islâmica de 1979.
Reação europeia e condenação internacional
A chefe da diplomacia da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou que “qualquer violência contra manifestantes pacíficos é inaceitável” e denunciou o corte da internet como evidência de um regime que “tem medo de seu próprio povo”. Segundo a UE, o bloqueio nacional das comunicações digitais compromete a liberdade de expressão e dificulta a verificação independente de abusos cometidos pelas forças de segurança.
Além de Bruxelas, França e Alemanha também se manifestaram. Paris declarou compreender as “aspirações legítimas do povo iraniano” e pediu moderação às autoridades de Teerã. Berlim denunciou o “uso excessivo da força” e exortou o Irã a cumprir suas obrigações internacionais em matéria de direitos humanos. Em nota conjunta, Alemanha, França e Reino Unido reforçaram a condenação à repressão e cobraram garantias de liberdade de expressão e de reunião pacífica.
Essas manifestações diplomáticas ampliaram o isolamento do governo iraniano em um momento de fragilidade econômica e política, agravado por sanções internacionais e pelos impactos da guerra regional de junho de 2025.
Discurso de Khamenei e endurecimento do regime
Falando pela primeira vez ao país desde o início da nova onda de protestos, Ali Khamenei adotou um tom de confronto. Em discurso transmitido pela televisão estatal, afirmou que a República Islâmica não se deixará intimidar, classificou os manifestantes como “sabotadores” e “vândalos” e acusou os Estados Unidos de terem “as mãos manchadas de sangue”, em referência à guerra de 12 dias travada em junho, quando Israel, com apoio norte-americano, atacou instalações iranianas.
Khamenei reiterou que o regime não recuará e associou os protestos a uma suposta conspiração externa. A retórica reforçou a linha dura do aparato de segurança, especialmente da Guarda Revolucionária, instituição que concentra poder político, militar e econômico no país.
Protestos em expansão e resposta interna
As manifestações, iniciadas no fim de dezembro de 2025 em reação à alta vertiginosa do custo de vida, rapidamente assumiram um caráter político mais amplo. Atos foram registrados em cidades como Tabriz, Mashhad e Kermanshah, incluindo regiões de maioria curda, historicamente tensionadas com o poder central.
Organizações de direitos humanos acusam as forças de segurança de terem aberto fogo contra manifestantes. O grupo HRANA, com sede nos Estados Unidos, afirma ter verificado a morte de mais de 490 manifestantes e 48 agentes de segurança, além de mais de 10.600 prisões desde 28 de dezembro. O governo iraniano não divulgou números oficiais, e a verificação independente permanece limitada pelo bloqueio da internet.
Estados Unidos entre diálogo e ameaça
Em Washington, Donald Trump declarou que os EUA mantêm canais de comunicação abertos com Teerã e que o Irã teria sinalizado interesse em negociar, inclusive sobre seu programa nuclear. Ao mesmo tempo, o presidente norte-americano afirmou que poderá “agir” caso a repressão continue, mantendo sobre a mesa opções que vão desde sanções ampliadas até ciberataques e ação militar.
O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, afirmou que o país está “preparado para a guerra, mas também para o diálogo”, classificando as mensagens dos EUA como contraditórias. O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Baqer Qalibaf, advertiu que qualquer ataque tornaria bases e navios norte-americanos “alvos legítimos”.
Debate no Congresso americano e cautela militar
No Congresso dos EUA, senadores de ambos os partidos demonstraram ceticismo quanto a uma intervenção militar direta. Rand Paul e Mark Warner alertaram que um ataque poderia unir a população iraniana contra um inimigo externo, fortalecendo o regime. Warner citou o golpe de 1953, apoiado pelos EUA, como exemplo histórico dos riscos de intervenções mal calculadas no Irã.
Em contraste, o senador Lindsey Graham defendeu uma postura mais agressiva, sugerindo apoio explícito aos manifestantes e pressão direta sobre a liderança iraniana.
Oposição no exílio e o papel de Reza Pahlavi
No campo oposicionista, Reza Pahlavi, filho do último xá deposto em 1979, intensificou apelos para que os iranianos mantenham os protestos. Do exílio, declarou-se pronto para liderar uma transição para um Estado laico e democrático, embora analistas apontem que o apoio interno a Pahlavi é fragmentado e difícil de mensurar.
Especialistas observam que, diferentemente de 1979, não há hoje uma liderança unificada capaz de canalizar a insatisfação popular em um projeto político consensual.
Internet, tecnologia e disputa informacional
O bloqueio da internet tornou-se um dos eixos centrais da crise. Trump afirmou que conversará com Elon Musk sobre a possibilidade de uso do serviço Starlink para restabelecer o acesso no Irã, medida já adotada em protestos anteriores. Teerã, por sua vez, declarou que a retomada do serviço ocorrerá “em coordenação com as autoridades de segurança”.
Crise estrutural e limites da repressão
A atual onda de protestos evidencia fragilidades estruturais do regime iraniano, combinando crise econômica, desgaste político e isolamento internacional. A repressão violenta e o controle informacional indicam a prioridade do regime em preservar a ordem interna, mesmo ao custo de maior condenação externa.
No plano internacional, a crise expõe tensões entre retórica e ação. Enquanto a UE reforça a defesa de direitos humanos, os EUA oscilam entre diálogo e ameaça militar, cenário que aumenta a imprevisibilidade regional. A ausência de uma oposição interna organizada limita, por ora, a possibilidade de mudança imediata de regime.
A médio prazo, analistas apontam que, mesmo que os protestos sejam contidos, o Irã tende a sair politicamente mais frágil, com menor legitimidade interna e menor capacidade de projeção regional, especialmente após os reveses militares e diplomáticos recentes.
*Com informações da RFI e Agência Reuters.
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