Sexta-feira, 20/02/2026 – A crise envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do antigo Banco Master, ganhou novo desdobramento após representação do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (TCU) solicitar a abertura de procedimento para apurar a participação de autoridades dos Três Poderes da República em festas privadas promovidas pelo empresário. O pedido baseia-se em reportagens que mencionam a existência de vídeos das chamadas “Cine Trancoso”, eventos realizados na Bahia e no exterior, com a presença de integrantes do Executivo, do Legislativo e do Judiciário.
Segundo a representação, os encontros teriam reunido altas autoridades da República, membros do mercado financeiro, políticos e operadores do meio jurídico. Parte do material citado estaria arquivada no celular de Vorcaro, atualmente sob custódia do Ministério Público Federal e da Polícia Federal, no âmbito de investigações que tramitam sob supervisão do Supremo Tribunal Federal (STF).
O caso insere-se em um contexto mais amplo de apurações sobre o Banco Master, instituição que perdeu o status de banco, e sobre conexões com a REAG DTVM, posteriormente liquidada pelo Banco Central. A eventual existência de registros audiovisuais envolvendo autoridades públicas ampliou a dimensão institucional do episódio.
Representação ao TCU e pedido de identificação de autoridades
A representação protocolada no TCU recomenda a instauração de processo com o objetivo de identificar autoridades que teriam participado das festas realizadas em Trancoso, no sul da Bahia. O documento menciona que os eventos contaram com integrantes do governo anterior, além de nomes ligados ao mercado financeiro, à política e ao meio jurídico.
A apuração no âmbito do TCU chama atenção pelo alcance institucional. O tribunal é responsável pela fiscalização de recursos públicos federais e da conduta administrativa de agentes públicos. A eventual participação de autoridades em encontros privados, por si só, não configura irregularidade. Contudo, a representação sustenta que, caso haja indícios de corrupção ou tráfico de influência, o tema passa a ter relevância jurídica e administrativa.
O Ministério Público fundamenta o pedido em reportagens publicadas na imprensa e em informações sobre a possível circulação de um vídeo com cenas das festas. Um dos relatos menciona que o material teria sido exibido em reunião interna de uma distribuidora de valores mobiliários.
“Cine Trancoso”: relatos sobre vídeos e segurança reforçada
De acordo com reportagem da revista digital Liberta, um operador de fundos ligados à REAG DTVM afirmou ter assistido a uma edição das imagens em reunião de diretoria. O vídeo, segundo o relato, seria protagonizado por uma autoridade do Poder Judiciário. O conteúdo, no entanto, não foi divulgado publicamente, e não há confirmação oficial sobre sua autenticidade.
Os relatos indicam que, nos eventos realizados em Trancoso, os convidados eram orientados a deixar seus celulares desligados e sob custódia de equipe de segurança. Haveria ainda detectores de metal nas entradas. Paralelamente, Vorcaro manteria circuito interno de câmeras na residência, sob a justificativa de segurança pessoal.
Além da Bahia, teriam ocorrido encontros em Nova York e Lisboa, incluindo um evento posterior a seminário jurídico informalmente conhecido como “Gilmarpalooza”. Participantes teriam comentado os eventos em ambientes privados, segundo depoimentos colhidos por jornalistas.
Defesa de Vorcaro e alegação de invasão de privacidade
A defesa de Daniel Vorcaro sustenta que a divulgação de conteúdos de natureza privada, dissociados de relevância jurídica, representa invasão indevida da esfera íntima e fomenta juízos morais sem base legal. Os advogados afirmam que festas privadas entre adultos, realizadas de forma consensual, não configuram ilícito.
O ponto central da controvérsia, contudo, reside na eventual conexão entre esses encontros e práticas de favorecimento institucional, influência indevida ou benefícios administrativos. Caso confirmada a existência de negociações ou vantagens ilícitas associadas aos eventos, a situação extrapola o campo da vida privada e ingressa no domínio do interesse público.
Até o momento, não houve identificação oficial das autoridades mencionadas nem divulgação de provas conclusivas. O conteúdo do celular de Vorcaro permanece sob sigilo investigativo.
Contexto institucional: Master, REAG e apurações em curso
O episódio ocorre em meio ao processo de desestruturação do Banco Master e à liquidação da REAG DTVM pelo Banco Central. Vorcaro deixou o controle da instituição, que perdeu o status bancário. As investigações em curso examinam conexões financeiras, operações societárias e eventuais irregularidades administrativas.
A eventual presença de autoridades públicas em eventos patrocinados por empresário sob investigação amplia o potencial de repercussão política. O caso envolve possíveis implicações no campo da ética pública, da governança institucional e da relação entre agentes do Estado e setor privado.








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