Fictor e Banco Master: recuperação judicial de R$ 4 bilhões expõe crise de liquidez, liquidação bancária e investigações criminais

Nesta segunda-feira (09/02/2026), investidores lesados pelo Grupo Fictor iniciaram a organização de uma associação para cobrar cerca de R$ 4 bilhões após o pedido de recuperação judicial do conglomerado financeiro. O caso ganhou dimensão nacional ao se conectar diretamente com a liquidação do Banco Master, decretada pelo Banco Central em novembro de 2025, e com investigações conduzidas pela Polícia Federal e pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O episódio envolve suspeitas de crimes financeiros, retirada em massa de recursos por clientes e uma complexa disputa judicial entre credores e controladores.

Origem da crise: tentativa de compra do Banco Master

A crise do Grupo Fictor está diretamente associada aos acontecimentos de novembro de 2025. Naquele período, o conglomerado apresentou uma proposta para adquirir o Banco Master em parceria com fundos estrangeiros.

No entanto, no dia seguinte ao anúncio, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do banco, medida tomada em meio a suspeitas de fraudes e irregularidades financeiras.

A liquidação atingiu centenas de milhares de investidores e se tornou um dos maiores processos do tipo já registrados no país, com cerca de R$ 40,6 bilhões a serem pagos a credores via Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Investigações apontaram suspeitas de emissão de títulos sem lastro e gestão fraudulenta dentro do Banco Master, o que levou à intervenção das autoridades.

O controlador da instituição, Daniel Vorcaro, chegou a ser detido pela Polícia Federal no dia da liquidação, no âmbito de investigações relacionadas a crimes financeiros.

Efeito dominó sobre a Fictor

Segundo a defesa do Grupo Fictor, a crise de confiança no Banco Master contaminou diretamente a empresa.

Após a liquidação da instituição, clientes solicitaram o resgate de cerca de 70% dos recursos investidos nos veículos estruturados pelo grupo, o que desencadeou uma crise de liquidez.

A Fictor captava recursos por meio de Sociedades em Conta de Participação (SCPs), utilizadas para adquirir participações empresariais e distribuir dividendos. Com a interrupção dos pagamentos, investidores foram convertidos em credores dentro do processo de recuperação judicial.

Pedido de recuperação judicial e perfil dos credores

O pedido de recuperação foi protocolado em 1º de fevereiro de 2026 no Tribunal de Justiça de São Paulo.

Segundo a documentação judicial:

  • 13.041 credores foram listados no processo
  • 11.549 são pessoas físicas
  • Os créditos de pessoas físicas somam cerca de R$ 2,54 bilhões
  • O passivo total estimado chega a R$ 4 bilhões

Os investidores afirmam que a estrutura das SCPs prometia rentabilidade de até 2% ao mês. O encerramento unilateral desses veículos transformou os sócios em credores, reduzindo o poder de negociação individual.

A empresa afirma que pretende pagar as dívidas sem descontos, em prazo de até cinco anos, dependendo da aprovação do plano judicial.

Bloqueio de ativos e disputa judicial

Antes mesmo do pedido de recuperação, o Tribunal de Justiça de São Paulo determinou o bloqueio cautelar de R$ 150 milhões do Grupo Fictor.

A medida foi adotada para preservar garantia financeira prevista em contrato de operação de cartões empresariais com a Orbitall, processadora de pagamentos da bandeira American Express.

O bloqueio foi determinado após recurso apresentado à Justiça paulista, revertendo decisão anterior que havia negado a medida.

Investigações criminais e atuação de órgãos reguladores

O caso também passou a ser investigado por autoridades federais.

Em 4 de fevereiro de 2026, a Polícia Federal instaurou um inquérito para apurar a atuação do Grupo Fictor.

A investigação mira suspeitas de:

  • gestão fraudulenta
  • apropriação indébita financeira
  • emissão de títulos sem lastro
  • operação de instituição financeira sem autorização

A abertura do inquérito ocorreu poucos dias após o pedido de recuperação judicial.

Paralelamente, a CVM também passou a analisar a atuação da empresa por oferta irregular de investimentos, ampliando o escopo das apurações.

Estrutura de pagamentos e expansão interrompida

Antes da crise, o grupo havia ampliado suas operações, inclusive no setor de meios de pagamento.

A empresa criou a Fictor Pay em 2024, com atuação como subadquirente e lançamento de cartões empresariais com bandeira American Express.

Segundo o processo judicial:

  • o cartão movimentava cerca de R$ 200 milhões por mês
  • a operação já havia processado R$ 2,2 bilhões
  • a empresa operava em nove estados e atendia cerca de 500 clientes

Os planos incluíam a expansão para cartões de pessoa física, projeto interrompido com a crise.

*Com informações da Polícia Federal (PF), jornal Folha de S.Paulo, Estadão, Metrópoles e Agência Brasil.


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