O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria da investigação sobre o Banco Master após uma reunião de mais de três horas entre os integrantes do Supremo Tribunal Federal (STF), marcada por debates internos, críticas à atuação da Polícia Federal (PF), manifestações de solidariedade ao magistrado, revelações sobre a empresa familiar Maridt Participações e pressão política crescente no Senado. A decisão foi tomada de forma unânime e resultou na redistribuição do caso ao ministro André Mendonça, em meio a investigações sobre fraudes bilionárias, transferências financeiras e disputas institucionais envolvendo o Banco Central e o Tribunal de Contas da União (TCU).
Reunião no STF teve debate tenso, críticas à PF e cálculo institucional
A reunião ocorreu na noite de quinta-feira (12/02) e durou cerca de três horas, divididas em duas etapas. O encontro começou com a análise das mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, material encaminhado ao STF pela Polícia Federal.
Segundo relatos, Toffoli rebateu ponto por ponto as evidências, sustentando que os valores recebidos teriam origem lícita e estariam declarados à Receita Federal. O debate também abordou a estratégia institucional para responder à crise política e de imagem do tribunal.
Ministros criticaram a atuação da Polícia Federal por investigar um integrante do STF sem autorização judicial expressa. A avaliação interna era de que o desgaste público não cessaria enquanto Toffoli permanecesse na relatoria.
Resistência inicial e saída negociada para evitar suspeição
Relatos indicam que Toffoli resistiu inicialmente a deixar o caso. A mudança de posição ocorreu quando ministros, inclusive próximos ao magistrado, alinharam-se ao presidente do STF, Edson Fachin, no entendimento de que o afastamento seria necessário para proteger a imagem do ministro e reduzir a crise institucional.
Toffoli afirmou que não fazia questão de continuar na relatoria, mas deixou claro que não sairia sob reconhecimento formal de suspeição. A suspeição poderia anular provas e atos processuais já praticados, obrigando a investigação a recomeçar.
Os ministros concordaram em não analisar o pedido de suspeição apresentado pela Polícia Federal, sob o entendimento de que a corporação não teria legitimidade para formular a solicitação.
Nota conjunta valida atos de Toffoli e transfere caso a Mendonça
Após a reunião, os ministros divulgaram nota afirmando que não havia motivo para declarar suspeição ou impedimento de Toffoli e reconheceram a plena validade dos atos praticados pelo magistrado.
O documento registrou apoio pessoal ao ministro e justificou a saída como medida para garantir o “bom andamento dos processos” e atender aos “altos interesses institucionais”.
Horas depois, o caso foi redistribuído por sorteio ao ministro André Mendonça, considerado por integrantes da Corte um nome de perfil moderado.
Investigações envolvem empresa familiar, resort e transferências financeiras
O avanço das investigações colocou no centro do caso a Maridt Participações, empresa da qual Toffoli admitiu ser sócio ao lado de seus irmãos.
A empresa participou do controle do resort Tayayá, no Paraná, empreendimento que teve participação de fundos ligados à rede de negócios associada ao Banco Master. A Polícia Federal passou a investigar transferências de recursos para o ministro relacionadas à venda de participação da empresa no resort.
Toffoli confirmou o recebimento dos valores, afirmando que se tratam de rendimentos lícitos, rastreáveis e declarados à Receita Federal.
Reportagens também indicaram que a empresa tinha capital social declarado de apenas R$ 150 e endereço registrado em uma residência simples no interior de São Paulo, o que levantou questionamentos sobre sua estrutura e atividade econômica.
Além disso, vieram a público informações sobre patrimônio imobiliário estimado em cerca de R$ 26 milhões em nome do ministro, familiares e empresa ligada ao núcleo familiar, incluindo aquisições recentes feitas sem registro de financiamento bancário.
Senado registra 25 pedidos de impeachment contra Toffoli
A crise institucional chegou ao Congresso. O ministro Dias Toffoli acumula 25 pedidos de impeachment no Senado, sendo três diretamente relacionados ao caso Banco Master.
Os pedidos mais recentes foram protocolados em 2026 e aguardam análise inicial do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responsável por decidir se as denúncias terão prosseguimento.
Outros quatro pedidos de 2025 ainda aguardam análise, incluindo uma representação ligada à decisão de Toffoli que suspendeu multa bilionária aplicada à J&F.
Há também pedidos antigos, apresentados entre 2015 e 2019, que somam 16 representações e foram indeferidos na fase inicial. Dois pedidos de 2021 chegaram a passar pela Advocacia-Geral do Senado.
O impeachment de ministros do STF está previsto em lei desde 1950, mas nunca foi aplicado na prática. Diferentemente do impeachment presidencial, cabe ao presidente do Senado decidir se o processo terá início.
Entenda em 5 pontos por que a PF investiga a relação entre Toffoli e o Banco Master
1) O papel de Toffoli como relator
O ministro era relator do caso após a defesa de Daniel Vorcaro alegar a presença de autoridades com foro privilegiado no material apreendido, o que levou o processo ao STF.
2) Críticas à condução do caso
A atuação de Toffoli foi questionada por decisões como sigilo elevado, tentativa de acareação entre investigados e episódios envolvendo viagem no mesmo avião de advogado ligado ao caso.
3) Conexões empresariais envolvendo a Maridt
A PF passou a examinar negócios da empresa familiar Maridt com fundos associados à rede do Banco Master.
4) O resort Tayayá e as mensagens apreendidas
O resort tornou-se elemento central das apurações. Mensagens no celular de Vorcaro mencionariam pagamentos à empresa ligada à família do ministro.
5) Pagamentos admitidos pelo ministro
Toffoli confirmou ter recebido valores relacionados à empresa, sustentando que são lícitos e declarados. A PF apontou possível conflito de interesses.
Fraude bilionária e relatório da PF elevam pressão institucional
A Polícia Federal investiga suspeitas de fraudes envolvendo o Banco Master, que, segundo os investigadores, poderia ter movimentado cerca de R$ 12 bilhões em emissões irregulares de Certificados de Depósito Bancário (CDBs).
Relatório enviado ao STF mencionaria pagamentos de cerca de R$ 20 milhões relacionados ao ministro e à empresa familiar, o que ampliou a pressão política e institucional.
Setor financeiro critica restrições do TCU ao Banco Central
Em paralelo, treze entidades do setor financeiro criticaram decisão do ministro Jhonatan de Jesus, do TCU, que restringiu o acesso do Banco Central ao processo que analisa a liquidação do Banco Master.
As entidades afirmaram que a medida carece de justificativa técnica clara e compromete o contraditório e a ampla defesa. O setor destacou que o processo tem impacto direto na estabilidade do sistema financeiro e na confiança institucional.
Segundo técnicos do BC, o parecer da área técnica do TCU foi favorável à atuação da autarquia, sem recomendações de mudança, o que aumentou a controvérsia sobre o sigilo imposto.
Técnicos do Banco Central pedem blindagem legal após o caso
Após a liquidação do banco, técnicos do Banco Central passaram a discutir medidas para ampliar a proteção legal de servidores envolvidos em processos de fiscalização.
A proposta prevê responsabilização apenas em casos de dolo ou má-fé e ganhou força no contexto da PEC da autonomia financeira do Banco Central, em tramitação no Senado.
Crise institucional e impacto político
A saída de Toffoli foi interpretada internamente como tentativa de reduzir a crise de imagem do STF. A avaliação entre ministros é de que a decisão ajuda a aliviar a pressão política e social sobre a Corte.
Ainda assim, o caso envolve Polícia Federal, Banco Central, TCU, Senado e STF, revelando um quadro de tensão institucional ampla, com potencial de impactar o sistema financeiro e o ambiente político.










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