Na sexta-feira (06/02/2026), o debate sobre a criação de um Código de Conduta para ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou força após levantamento indicar que familiares de integrantes da Corte atuaram em 94 processos no STF e 933 no Superior Tribunal de Justiça (STJ) após a posse dos magistrados. O tema passou a mobilizar a presidência do tribunal, setores da advocacia e representantes da sociedade civil, ao mesmo tempo em que enfrenta resistências internas entre os próprios ministros.
Levantamento aponta atuação de familiares em tribunais superiores
O levantamento identificou a participação de filhos, cônjuges e ex-cônjuges de ministros em processos nas cortes superiores após a chegada dos magistrados ao STF. A atuação ocorre tanto diretamente na Corte quanto em processos iniciados em instâncias inferiores e posteriormente levados ao Supremo por meio de recursos.
Entre os casos citados:
- A advogada Melina Fachin, filha do ministro Edson Fachin, atuava em quatro processos antes da posse do pai e passou a participar de outros três depois.
- Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, tinha nove ações no STF antes da nomeação do marido e passou a atuar em mais 23 processos posteriormente.
- O advogado Rodrigo Fux, filho do ministro Luiz Fux, passou de um processo antes da posse do pai para outros 48 após sua chegada à Corte.
Segundo os gabinetes e os próprios advogados, a maioria dos casos teve origem em instâncias inferiores e chegou ao STF por iniciativa das partes adversárias ou por trâmite recursal normal.
Propostas para aumentar transparência
A presidência do STF, exercida pelo ministro Edson Fachin, estuda a adoção de um Código de Conduta com o objetivo de reforçar a transparência e prevenir conflitos de interesse. A relatoria da proposta foi atribuída à ministra Cármen Lúcia.
Entre as sugestões analisadas, está a proposta da seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), que prevê:
- Vedação à atuação de magistrados em processos envolvendo familiares até o terceiro grau
- Restrições a julgamentos com participação de amigos ou pessoas com vínculo pessoal direto
O professor Oscar Vilhena, da FGV Direito SP, integrante da comissão da OAB-SP que elaborou a proposta, afirma que o objetivo é fortalecer a legitimidade da Corte.
Segundo ele, a autoridade do Supremo depende da capacidade de julgar com independência, e a presença de familiares próximos em processos pode gerar desequilíbrio entre as partes.
Resistência interna e divergências
Apesar da mobilização externa, a iniciativa enfrenta divergências dentro do próprio STF. Uma reunião prevista para discutir o tema foi cancelada diante da falta de consenso sobre o alcance das regras.
O ministro Alexandre de Moraes afirmou, durante sessão, que as normas já existentes seriam suficientes para regular a atividade dos juízes.
Em 2023, o STF declarou inconstitucional trecho do Código de Processo Civil que proibia juízes de julgar processos envolvendo escritórios de advocacia de parentes até o terceiro grau. A maioria considerou que a regra violava o princípio da proporcionalidade.
Votaram pela inconstitucionalidade:
- Gilmar Mendes
- Dias Toffoli
- Luiz Fux
- Alexandre de Moraes
- Kassio Nunes Marques
- André Mendonça
- Cristiano Zanin
Foram contrários:
- Edson Fachin
- Luís Roberto Barroso
- Rosa Weber
- Cármen Lúcia
Debate sobre percepção de imparcialidade
Especialistas defendem que a criação de regras mais claras pode contribuir para a imagem institucional da Corte. A professora Ana Laura Pereira Barbosa, da ESPM, afirma que a transparência não se limita à imparcialidade real, mas também à percepção pública.
Segundo ela, o tribunal tem a oportunidade de demonstrar compromisso com padrões mais claros de conduta e com o escrutínio público.
Declaração de Fachin e o debate sobre “filhofobia”
Em entrevista, o ministro Edson Fachin afirmou que não vê problema na atuação de familiares, desde que haja transparência, e criticou o que chamou de “filhofobia”.
Segundo o presidente do STF, não seria razoável exigir que filhos de magistrados abandonem a profissão de advogado, desde que suas atividades sejam plenamente transparentes.
Casos com atuação anterior à posse
O levantamento também identificou situações em que a participação de familiares diminuiu após a nomeação dos ministros.
- A advogada Roberta Rangel, ex-mulher de Dias Toffoli, atuou em 26 processos antes da posse do ministro e em nove depois.
- A advogada Valeska Teixeira Zanin Martins, esposa de Cristiano Zanin, esteve em 40 ações antes da nomeação do marido e em sete posteriormente.
No caso de Guiomar Feitosa Mendes, ex-mulher de Gilmar Mendes, os registros no STF estariam vinculados a atuações em instâncias inferiores, sem participação direta na Corte.
O STF informou que a legislação já estabelece hipóteses claras de impedimento e que os ministros se declaram impedidos sempre que há conflito legal.
A informação pode ser organizada em blocos temáticos para facilitar leitura, análise comparativa e uso editorial. A estrutura abaixo separa dados quantitativos, personagens, decisões institucionais e posições no debate.
Dados quantitativos centrais
Atuação de familiares de ministros após as posses:
- 94 processos no STF
- 933 processos no STJ
Exemplos individuais:
- Melina Fachin:
- 4 processos antes da posse
- +3 após a posse
- Viviane Barci de Moraes:
- 9 processos antes da posse
- +23 após a posse
- Rodrigo Fux:
- 1 processo antes da posse
- +48 após a posse
- Roberta Rangel (ex-mulher de Toffoli):
- 26 antes
- 9 depois
- Valeska Zanin (esposa de Zanin):
- 40 antes
- 7 depois
Ministros com familiares atuando em processos
- Edson Fachin
- Alexandre de Moraes
- Luiz Fux
- Gilmar Mendes
- Dias Toffoli
- Cristiano Zanin
Propostas de Código de Conduta em debate
Objetivo central:
- Aumentar transparência
- Evitar conflitos de interesse
- Reforçar legitimidade institucional
Proposta da OAB-SP:
- Impedir julgamento de processos com:
- Familiares até 3º grau
- Amigos próximos
Relatoria no STF:
- Ministra Cármen Lúcia
Articulação política:
- Apoio de presidentes de outras cortes
- Apoio de setores da sociedade civil
Resistências internas no STF
- Reunião sobre o tema foi cancelada
- Falta de consenso entre ministros
Posição de Alexandre de Moraes:
- Regras atuais seriam suficientes
Decisão relevante do STF (2023)
Tema:
- Proibição de juízes julgarem processos de escritórios de parentes
Resultado:
- Regra considerada inconstitucional
Votos pela inconstitucionalidade:
- Gilmar Mendes
- Dias Toffoli
- Luiz Fux
- Alexandre de Moraes
- Kassio Nunes Marques
- André Mendonça
- Cristiano Zanin
Votos contrários:
- Edson Fachin
- Luís Roberto Barroso
- Rosa Weber
- Cármen Lúcia
Argumentos favoráveis ao Código de Conduta
Oscar Vilhena (FGV Direito SP):
- Autoridade do STF depende da independência
- Presença de familiares pode gerar desequilíbrio
Ana Laura Barbosa (ESPM):
- Não basta ser imparcial
- É necessário parecer imparcial
Argumentos contrários ou cautelosos
Edson Fachin:
- Criticou a ideia de “filhofobia”
- Defende transparência, não proibição automática
STF (posição institucional):
- Regras atuais já definem impedimentos
- Ministros se declaram impedidos quando necessário
Natureza dos processos
- Maioria iniciada em instâncias inferiores
- Chegada ao STF por meio de recursos
- Em vários casos, atuação começou antes da posse dos ministros
*Com informações do Jornal O Globo.








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