Sexta-feira, 27/02/2026 — A revista britânica The Economist publicou editorial em sua edição desta quinta-feira alertando que o mundo desenvolvido deve se preocupar com o fenômeno denominado “Brazilificação”, conceito utilizado para descrever um cenário de crescimento moderado, dívida pública elevada, juros reais altos e rigidez orçamentária estrutural. Segundo a análise, o Brasil funciona como um “sinal antecipado” de riscos que podem atingir economias ricas diante do envelhecimento populacional, da pressão por gastos obrigatórios e de dificuldades políticas para promover reformas fiscais.
A publicação sustenta que, embora países desenvolvidos historicamente possuam instituições mais sólidas, começam a surgir sintomas semelhantes aos observados no Brasil: endividamento persistente, custo crescente do serviço da dívida e limitação de espaço fiscal para novos investimentos estratégicos.
O que é a “Brazilificação”
O termo “Brazilificação” é empregado para caracterizar um ambiente econômico marcado por:
- Inflação estruturalmente elevada ou pressionada
- Taxas de juros reais altas por períodos prolongados
- Dívida pública significativa
- Orçamento rigidamente comprometido com despesas obrigatórias
- Baixo dinamismo de crescimento no longo prazo
- Aumento ou persistência de desigualdade social
De acordo com o editorial, o problema não se limita ao crescimento do endividamento, mas à combinação entre dívida elevada e juros altos que retroalimentam o desequilíbrio fiscal, dificultando investimentos públicos e reduzindo a capacidade de resposta do Estado.
Juros elevados e a dinâmica da dívida
A revista aponta que, no caso brasileiro, mesmo com crescimento econômico em torno de 3% e desemprego em níveis historicamente baixos, a taxa básica de juros em patamar elevado — citada no editorial como 15% ao ano — gera impacto significativo sobre o orçamento público.
Segundo a análise, o governo precisa direcionar parcela relevante do Produto Interno Bruto (PIB) apenas para cobrir o pagamento de juros. Essa dinâmica cria um círculo de pressão fiscal: quanto maior a dívida e mais altos os juros, menor a margem para investimentos produtivos e políticas estruturantes.
A advertência é que economias desenvolvidas podem enfrentar fenômeno semelhante, caso o aumento da dívida pública coincida com elevação prolongada das taxas de juros globais.
Rigidez orçamentária e envelhecimento populacional
Outro eixo central do editorial é a rigidez dos gastos obrigatórios, especialmente com previdência e saúde. A revista observa que o Brasil já destina parcela expressiva do PIB ao pagamento de aposentadorias, índice considerado elevado em relação ao perfil demográfico do país.
A projeção apresentada é que, sem reformas estruturais adicionais, a pressão previdenciária tende a crescer nas próximas décadas. Esse quadro, segundo a análise, não é exclusivo do Brasil. Países europeus e os Estados Unidos enfrentam desafios semelhantes, impulsionados pelo envelhecimento da população e pela expansão de benefícios sociais.
A combinação de:
- Crescimento demográfico reduzido
- Aumento da expectativa de vida
- Resistência política a cortes de gastos
pode resultar, segundo o editorial, em orçamentos progressivamente engessados, limitando investimentos em áreas estratégicas como transição energética, defesa e inovação tecnológica.
Instituições e governança econômica
O texto também menciona a importância da independência de bancos centrais e da disciplina fiscal institucional. Pressões políticas sobre autoridades monetárias, segundo a publicação, ampliam a percepção de risco e podem elevar prêmios exigidos pelo mercado para financiar a dívida pública.
A “Brazilificação”, nesse contexto, não seria apenas um fenômeno econômico, mas também institucional: um processo de erosão gradual da governança técnica diante de disputas políticas de curto prazo.
*Com informações do The Economist.








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