Um grupo majoritário de diretórios estaduais do Movimento Democrático Brasileiro (MDB) apresentou na terça-feira (03/08/2026) ao presidente nacional da legenda, o deputado federal Baleia Rossi (SP), um manifesto defendendo a neutralidade do partido nas eleições presidenciais. O documento surge em meio às articulações políticas que discutem a possibilidade de o MDB integrar a chapa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) como vice na disputa pela reeleição, hoje ocupada por Geraldo Alckmin (PSB).
A iniciativa reúne 23 signatários ligados a 16 diretórios estaduais, embora parte da cobertura política mencione 17 diretórios alinhados ao movimento, divergência numérica que não altera o dado central: há maioria interna contrária a um alinhamento nacional com o PT. O grupo pede que a direção nacional defina rapidamente a posição institucional da sigla.
O movimento reflete divisões internas no MDB e evidencia disputas estratégicas sobre o papel do partido no cenário eleitoral de 2026. Ao mesmo tempo em que setores da legenda defendem interlocução mais próxima com o Planalto, outra ala sustenta que a melhor saída é preservar a autonomia regional e evitar compromisso presidencial antecipado.
Manifesto defende independência eleitoral do MDB
O documento entregue à direção nacional do partido sustenta que, diante da proximidade do calendário eleitoral, cresce dentro da legenda a preocupação com as especulações sobre um eventual apoio a Lula ou participação na chapa presidencial.
Segundo os signatários, a posição mais prudente seria manter a independência política do MDB, permitindo que cada diretório estadual organize suas alianças conforme as realidades regionais. A orientação é concentrar esforços nas disputas locais e na formação de chapas proporcionais, sem subordinar a estratégia partidária a um acordo nacional.
No manifesto, os dirigentes afirmam que o MDB possui uma presença territorial ampla e heterogênea, o que exige flexibilidade na condução das estratégias eleitorais.
“Como partido de maior inserção nacional, o MDB representa a diversidade de um Brasil continental e federativo, onde cada estado possui sua própria realidade social e política”, registra o texto.
A defesa da neutralidade também inclui a orientação de que o partido priorize as disputas regionais e a formação de chapas legislativas, evitando compromissos nacionais que possam limitar alianças locais. Na prática, o argumento retoma uma característica histórica do MDB: a condução descentralizada de suas estratégias eleitorais.
Liderança do movimento e pressão interna
A articulação do manifesto é liderada pelo vice-governador de Goiás, Daniel Vilela (MDB), presidente do diretório estadual goiano. Ele se reuniu recentemente com Baleia Rossi para formalizar a entrega da carta e defender uma deliberação mais rápida da cúpula partidária.
De acordo com Vilela, existe dentro do partido uma percepção majoritária contrária à possibilidade de o MDB integrar a chapa presidencial petista. O dirigente afirma que a indefinição gera instabilidade política e prejudica a organização eleitoral da legenda nos estados.
Segundo ele, a discussão sobre eventual aliança com Lula deveria ser resolvida rapidamente, sem esperar pela convenção nacional prevista para agosto. Vilela argumenta que a demora em definir o posicionamento institucional pode afetar filiações partidárias e a atração de novos candidatos para as eleições legislativas.
Além disso, o vice-governador afirma que parte do partido considera incoerente uma aproximação com o PT, diante de divergências políticas históricas entre as duas siglas. A resistência, nesse ponto, não é apenas operacional, mas também simbólica, porque toca a identidade de um setor do MDB que rejeita associação automática ao projeto petista.
Divisão interna no partido
O debate sobre o posicionamento do MDB nas eleições presidenciais revela uma divisão significativa entre os diretórios estaduais. O partido aparece novamente diante de um de seus traços mais conhecidos: forte capilaridade nacional, mas baixa homogeneidade política.
Levantamento recente aponta que 16 diretórios estaduais se posicionam contra apoiar Lula, enquanto 11 estruturas partidárias demonstram disposição favorável à aliança. Ainda que haja divergência na contagem exata dos signatários do manifesto, o quadro geral indica uma maioria territorial resistente à composição com o PT.
Entre os nomes do MDB que defendem maior aproximação com o governo federal estão o senador Renan Calheiros (AL) e o ministro dos Transportes, Renan Filho. Renan Filho, inclusive, aparece entre os possíveis nomes cogitados para ocupar a vaga de vice-presidente em uma eventual chapa encabeçada por Lula.
Outros nomes mencionados nas discussões políticas são o governador do Pará, Helder Barbalho, e a ministra do Planejamento, Simone Tebet, que mantém posição singular por integrar o governo e conservar capital político próprio dentro do partido. A simples circulação desses nomes já foi suficiente para ampliar o desconforto da ala que defende neutralidade.
Ao mesmo tempo, o cenário não elimina Geraldo Alckmin da equação. Embora o debate sobre uma eventual troca de vice tenha ganhado espaço nos bastidores, o posto ainda não está formalmente aberto, o que amplia a margem de especulação e reduz, por ora, a concretude das articulações.
A última vez em que o MDB participou formalmente de uma chapa presidencial ao lado do PT ocorreu em 2010 e 2014, quando o então vice-presidente Michel Temer integrou as candidaturas da ex-presidente Dilma Rousseff.
Direção nacional prioriza articulação estadual
O presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, tem adotado uma postura cautelosa diante do debate interno. Até aqui, sua linha tem sido enfatizar a necessidade de preservar o foco partidário na montagem dos palanques estaduais.
Segundo ele, a prioridade do partido neste momento é a construção de palanques estaduais, respeitando as particularidades políticas de cada unidade da federação. Essa posição mantém margem de negociação para diferentes alas e evita, por ora, um choque frontal entre os grupos internos.
A decisão final sobre eventual posicionamento do MDB na eleição presidencial deverá ocorrer durante a convenção nacional da legenda, instância que reúne parlamentares, presidentes de diretórios e delegados partidários. O adiamento, contudo, também tem custo político, porque prolonga a disputa interna e mantém o tema em aberto.
Baleia Rossi também enfatiza que a estrutura federativa do MDB historicamente garante autonomia às lideranças regionais. Essa característica, segundo ele, faz com que o partido mantenha uma atuação política descentralizada, frequentemente permitindo estratégias eleitorais distintas em diferentes estados.
Na prática, a direção nacional tenta administrar uma legenda formada por governadores, prefeitos, bancadas e diretórios com interesses muitas vezes incompatíveis. É justamente essa anatomia que dá força territorial ao MDB, mas também dificulta a formulação de uma estratégia presidencial unificada.
Apoio ao manifesto e lideranças signatárias
Além de dirigentes partidários estaduais, o manifesto conta com o apoio de lideranças políticas de destaque dentro do MDB. O movimento deixou de ser apenas uma reação regional e passou a reunir nomes com peso institucional em diferentes estados.
Entre os signatários estão:
- Ricardo Nunes, prefeito de São Paulo
- Sebastião Melo, prefeito de Porto Alegre
- Alceu Moreira (RS), deputado federal e presidente da Fundação Ulysses Guimarães
- Gabriel Souza, vice-governador do Rio Grande do Sul
- Ricardo Ferraço, vice-governador do Espírito Santo
Os articuladores do movimento também defendem que a executiva nacional do MDB seja convocada com urgência para discutir o tema e deliberar sobre a posição do partido nas eleições presidenciais. O objetivo é evitar que a indefinição nacional desorganize as negociações regionais em curso.
Tradição política da família Vilela
Daniel Vilela pertence a uma das famílias mais tradicionais do MDB em Goiás. Ele é filho do ex-senador e ex-governador Maguito Vilela, figura histórica da legenda e um dos quadros mais reconhecidos do partido no Centro-Oeste.
Maguito ingressou no partido em 1983, quando a sigla ainda utilizava a denominação PMDB, e chegou a ocupar a presidência nacional do MDB em 2001. Sua trajetória ajudou a consolidar a presença da legenda em Goiás e lhe conferiu influência duradoura na estrutura partidária.
Em 2007, durante o governo Lula, Maguito foi nomeado vice-presidente do Banco do Brasil, evidenciando a relação institucional que, ao longo dos anos, também aproximou setores do MDB de governos petistas. Esse histórico mostra que a tensão atual não decorre de uma incompatibilidade absoluta entre as siglas, mas de uma disputa sobre conveniência eleitoral e sobrevivência regional em 2026.








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