Nesta quarta-feira (11/03/2026) e nos dias que a antecederam, a CPI do Crime Organizado do Senado Federal intensificou uma série de iniciativas investigativas relacionadas a suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção de agentes públicos e infiltração de facções criminosas no sistema financeiro brasileiro. Entre os movimentos mais relevantes está o pedido formal ao Supremo Tribunal Federal (STF) para restabelecer a quebra de sigilos da empresa Maridt Participações, apontada nas apurações como possível elo entre familiares do ministro Dias Toffoli e o empresário Daniel Vorcaro, investigado no escândalo envolvendo o Banco Master.
O requerimento foi encaminhado ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, e busca suspender decisão do ministro Gilmar Mendes, que havia bloqueado a quebra de sigilos bancário, fiscal, telefônico e telemático da empresa. A comissão também questiona o caminho processual que levou o caso ao gabinete de Mendes e solicita a redistribuição do processo por sorteio entre os ministros da Corte, alegando irregularidades na tramitação.
A controvérsia ocorre em meio ao avanço de diferentes investigações — parlamentares, policiais e judiciais — que examinam a atuação de instituições financeiras, fundos de investimento e empresas suspeitas de operar mecanismos de lavagem de dinheiro para organizações criminosas, incluindo o Primeiro Comando da Capital (PCC).
Disputa entre CPI e STF sobre poderes de investigação
A decisão que travou a quebra de sigilos da Maridt Participações teve origem em um pedido apresentado pela própria empresa ao STF. Para isso, foi utilizado um processo antigo — um mandado de segurança protocolado pela produtora Brasil Paralelo contra a CPI da Covid em 2021.
Segundo a CPI do Crime Organizado, a empresa não possuía qualquer relação com aquele processo original, o que teria permitido a utilização de um expediente jurídico considerado atípico. A partir desse pedido, o ministro Gilmar Mendes concedeu habeas corpus de ofício, suspendendo imediatamente a quebra de sigilos determinada pela comissão parlamentar.
O presidente da CPI, senador Fabiano Contarato (PT-ES), argumentou que a medida compromete a capacidade investigativa do Senado.
“Se a CPI não puder quebrar sigilo bancário ou telemático, convocar pessoas e exigir o comparecimento de testemunhas, esvazia-se o próprio sentido constitucional de sua existência”, afirmou.
Contarato também questionou o uso do habeas corpus em favor de uma empresa. Na interpretação da CPI, o instrumento jurídico é destinado à proteção da liberdade de pessoas físicas, não de pessoas jurídicas.
Pela Constituição, comissões parlamentares de inquérito possuem poderes de investigação equivalentes aos de autoridades judiciais, o que inclui a possibilidade de determinar quebra de sigilos quando a decisão é aprovada pelo colegiado e devidamente fundamentada.
Caso Banco Master amplia escopo das investigações
O pedido envolvendo a Maridt ocorre no contexto mais amplo das investigações sobre o chamado “caso Banco Master”, que reúne suspeitas de fraude financeira, manipulação de ativos e lavagem de dinheiro.
O relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), afirmou que os fatos revelados até o momento representam apenas parte de um esquema mais amplo.
Segundo ele, as investigações indicam infiltração de estruturas criminosas em setores estratégicos da economia e do sistema financeiro, com participação de operadores financeiros e possíveis conexões com agentes públicos.
Vieira afirmou que o avanço das investigações enfrenta resistências institucionais.
“O que já foi divulgado representa apenas uma fração de uma realidade institucional degradada”, declarou o senador em redes sociais.
Nos últimos dias, a CPI aprovou novas medidas relacionadas ao caso.
Entre elas estão:
- Convocação de servidores afastados do Banco Central, suspeitos de receber vantagens indevidas em troca de benefícios ao Banco Master
- Quebra de sigilos do empresário Fabiano Campos Zettel, apontado como operador financeiro ligado a Daniel Vorcaro
- Solicitação de informações à Polícia Federal e ao STF sobre investigações correlatas
- Pedido de dados ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) sobre movimentações financeiras de investigados
Zettel e Vorcaro foram presos recentemente no curso das investigações.
Suspeita de corrupção dentro do Banco Central
Outro eixo da investigação envolve possíveis irregularidades dentro do próprio Banco Central, autoridade responsável pela supervisão do sistema financeiro.
A CPI aprovou a convocação de dois funcionários de carreira do BC:
- Paulo Sérgio Neves de Sousa, ex-diretor de fiscalização
- Bellini Santana, ex-chefe de departamento de supervisão bancária
Ambos são investigados pela Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal, que apura suspeitas de corrupção e favorecimento ao Banco Master.
Segundo os investigadores, o esquema teria envolvido pagamentos ilegais em troca de decisões regulatórias favoráveis, mecanismo que permitiria manter a aparência de solidez da instituição financeira.
Os dois servidores estão afastados das funções e utilizam tornozeleira eletrônica.
Relação com fundos de investimento e lavagem de dinheiro
Durante depoimento à CPI, o fundador da Reag Investimentos, João Carlos Falbo Mansur, negou envolvimento com organizações criminosas.
A empresa foi citada na Operação Carbono Oculto, investigação conduzida pela Polícia Federal e pela Polícia Civil de São Paulo que apura lavagem de dinheiro para o PCC por meio de fundos de investimento.
Segundo dados apresentados pela CPI, cerca de R$ 250 milhões teriam sido movimentados em estruturas financeiras ligadas ao esquema.
Mansur afirmou que a instituição foi alvo de um “rolo compressor” investigativo e atribuiu a operação ao fato de a empresa ser “grande e independente”. Ele também minimizou a relação da Reag com o Banco Master, classificando a instituição apenas como um cliente entre diversos outros.
O depoente permaneceu em silêncio durante grande parte da sessão, amparado por habeas corpus concedido pelo ministro Flávio Dino, do STF.
Investigações também alcançam milícia privada ligada ao grupo
Outro ponto investigado envolve a atuação de uma estrutura chamada “A Turma”, descrita pelas autoridades como uma milícia privada voltada à vigilância e monitoramento de adversários do grupo econômico Master.
Segundo o relator da CPI, o operador Luiz Phillipi Mourão, conhecido como “Sicário”, exercia papel central na coordenação dessa estrutura. Ele morreu após ser preso no início de março de 2026.
A CPI solicitou a quebra de seus sigilos entre 2020 e 2026, com o objetivo de rastrear conexões financeiras e operacionais do grupo.
Tensões institucionais em torno da investigação
O avanço das apurações tem provocado tensões institucionais entre o Senado, o Supremo Tribunal Federal e órgãos de controle do sistema financeiro.
Senadores da CPI defendem que a atuação da comissão busca esclarecer a extensão da infiltração do crime organizado em estruturas econômicas e administrativas.
Ao mesmo tempo, decisões judiciais que limitam medidas investigativas — como a suspensão da quebra de sigilos da Maridt — passaram a ser interpretadas por integrantes da comissão como obstáculos à investigação parlamentar.
O pedido enviado ao presidente do STF representa, nesse contexto, uma tentativa de restabelecer o alcance das medidas investigativas aprovadas pelo Senado.
*Com informações do jornal O Globo, Folha de S.Paulo, Estadão, Poder360, Metrópoles, CNN, Revista Veja e Agências Brasil, Reuters, RFI, Sputnik e BBC Brasil.










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