O Relatório de Acompanhamento Fiscal nº 110, divulgado na quinta-feira (19/03/2026) pela Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, identifica três vetores centrais no cenário econômico brasileiro: o crescimento acelerado do Benefício de Prestação Continuada (BPC), as incertezas provocadas por conflitos geopolíticos globais e a melhora recente no resultado fiscal dos municípios. O documento destaca riscos relevantes para a trajetória das contas públicas, ao mesmo tempo em que aponta sinais pontuais de ajuste fiscal no âmbito local.
Panorama econômico: cenário externo e fragilidade fiscal
O relatório enfatiza que o ambiente internacional permanece instável, com destaque para o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. A escalada geopolítica tem provocado elevação nos preços do petróleo e incertezas no comércio global, fatores que podem impactar diretamente a economia brasileira.
Entre os possíveis efeitos estão:
- Pressão inflacionária
- Aumento das taxas de juros
- Desaceleração do crescimento econômico
A IFI ressalta que a combinação entre instabilidade externa e fragilidade fiscal doméstica compromete a formação de expectativas dos agentes econômicos, influenciando decisões de investimento e consumo.
Crescimento do BPC pressiona as contas públicas
Despesa atinge R$ 127,2 bilhões e segue em expansão
Um dos principais pontos do relatório é o avanço do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que registrou despesa de R$ 127,2 bilhões em 2025, equivalente a 1% do PIB e 5,3% da despesa primária da União.
O crescimento do programa tem sido contínuo e superior ao de outras despesas públicas, consolidando-se como uma das principais pressões sobre o orçamento federal.
Aumento de beneficiários é o principal fator
A análise técnica indica que o principal vetor de expansão do BPC é o aumento no número de beneficiários, e não apenas a valorização do salário mínimo. Entre 2021 e 2025:
- O número de benefícios cresceu 35,1%
- A despesa total aumentou 50%
- Cerca de 70% da expansão do gasto decorre do crescimento do público atendido
O programa alcançou 6,4 milhões de beneficiários em 2025, sendo:
- 58,4% pessoas com deficiência
- 41,6% idosos
Judicialização e mudanças institucionais ampliam despesas
Outro fator relevante é o aumento das concessões judiciais. A participação de benefícios concedidos por decisão judicial passou de 11,8% em 2021 para 16,4% em 2025, chegando a 24,8% entre pessoas com deficiência.
Além disso, o relatório aponta:
- Expansão do diagnóstico de condições como o autismo
- Flexibilização de critérios de renda
- Impactos indiretos da reforma da Previdência
A projeção da IFI indica que o BPC pode alcançar entre 1,2% e 1,4% do PIB até 2035, ampliando a pressão estrutural sobre as contas públicas.
Municípios registram melhora fiscal em 2025
Resultado primário volta ao superávit
Após déficits entre 2023 e 2024, os municípios brasileiros registraram melhora no resultado fiscal, encerrando 2025 com superávit primário de aproximadamente 0,02% do PIB.
Esse resultado reflete uma combinação de fatores:
- Redução de investimentos públicos
- Contenção de despesas correntes
- Crescimento moderado das receitas
Receitas crescem, mas dependência persiste
As receitas primárias municipais somaram R$ 1,34 trilhão em 2025, com crescimento real de 4,2%. No entanto, a estrutura fiscal permanece dependente de transferências:
- Cerca de 63,5% das receitas vêm de transferências
- Em municípios pequenos, essa dependência pode chegar a 88%
Esse quadro evidencia forte heterogeneidade entre os entes locais e limita a autonomia financeira de grande parte das cidades brasileiras.
Estrutura fiscal dos municípios revela desigualdades
A análise por faixa populacional mostra que municípios menores apresentam maior fragilidade fiscal. Nas cidades com até 10 mil habitantes:
- 88,2% da receita provém de transferências
- Baixa capacidade de arrecadação própria
Já em municípios com mais de 1 milhão de habitantes, a dependência cai para cerca de 35%, indicando maior capacidade de autofinanciamento.








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